Maturidade e competência (23/2/13)

Sempre que me encontro com jovens em começo de carreira não resisto a lhes dar conselhos. Ainda mais se esses jovens seguem carreira próxima da minha. O conselho mais insistente é de que façam o mestrado imediatamente apos se formarem. Não deixem passar o tempo para ver qual é a sua. Como dizia o Cazuza, “o tempo não pára” e se você demora muito para entrar na carreira que seguirá por toda a vida pode ter dificuldade para achar um lugar. Feliz ou infelizmente a época do romantismo profissional na área de humanas acabou. O longo período para maturar um tema e fazer dele algo de inédito e inovador deixou de ser o objetivo do doutorado para ser o da própria carreira. Só depois de ter aprendido os métodos e técnicas de pesquisa fazendo a monografia, depois a dissertação e, em seguida a tese, em tempos definidos matematicamente pelas agencias financiadoras, que você vai, de fato, entrar na carreira.    

Há inconvenientes nessa pressão? Sem dúvida. O ritmo de trabalho especialmente em uma atividade subjetiva como as Ciências Humanas, depende de cada um. Há os que escrevem com facilidade e conseguem trabalhar concentrados no mesmo tema durante todo o tempo. Mas há também os que, apesar do interesse pela matéria, do gosto pelos estudos, mergulham às vezes por razões emocionais em longos períodos de dispersão e não conseguem trabalhar de jeito nenhum. Fazer o que? As regras têm que ser iguais para todos. A vantagem do segundo caso é que quem realmente tem talento e vocação pode, mesmo que com atrasos, vir a destacar-se na profissão. Como essas qualidades não estão inscritas na testa do estudante, o jeito é a instituição aplicar o critério geral.

Conversando com três jovens amigas esta semana ouvi o que seus orientadores haviam indicado como caminho a seguir para realizar suas dissertações. Uma tinha recebido vasta bibliografia a ser enfrentada antes de começar a pesquisa. Não quis me meter mesmo que ainda informalmente no processo de trabalho de minha amiga mas lhe disse que eu jamais consegui trabalhar assim. Todas as vezes que tentei começar o trabalho procurando conhecer antes as questões teórico-metodológicas, o desânimo me impediu de avançar.

Um tema que me é caro, a caricatura brasileira, foi primeiro descoberto quando pesquisava para meu livro “Historia de presidentes”. Para ilustrá-lo, tanto do ponto de vista plástico quanto textual, passei vasculhei a imprensa ilustrada brasileira desde o tempo da Proclamação da República até o governo Juscelino Kubistchek.  A qualidade e a quantidade do material que encontrei me impressionou. Daí em diante quis saber mais sobre aqueles artistas, sobre suas publicações, suas trajetórias e qual o papel político que, de fato, a caricatura tivera naqueles contextos. Só depois é que a caricatura em si começou a ser problematizada e aí foi preciso recorrer a uma bibliografia que desse conta das questões que apareceram.

Assim, a meu ver, é preciso começar o trabalho pela parte mais prazerosa e também mais automática. Levantar e colecionar o material, dividi-lo em assuntos e/ou cronologicamente, ler e olhar tudo, ganhando familiaridade com ele para só depois começar a pensar sobre ele. Ou seja começar como colecionador – com os prazeres, as obsessões e os desafios que isto implica -  e terminar como analista, como o crítico de tudo o que reuniu. Naturalmente que isto é uma perspectiva pessoal e que para mim vem funcionando bem ao longo desses 30 anos de trabalho em pesquisa. Não sei se serve para outros mas fica como sugestão.
  
A vida do jovem pesquisador é hoje muito diferente do que era quando comecei. Então era a falta de prazo para concluir que funcionava como desestimulo ao trabalho. Hoje quem terminar dentro do prazo sob o risco de perder os créditos. Por isso, muitas teses padecem com a falta de maturidade de seu autor. Da falta de experiência com pesquisa; da falta de convivência com a bibliografia e mesmo da falta até de uma inteligência emocional que só o tempo vivido nos dá. São estudos que, por isso, precisam ser analisados mais pelo observância pelo autor dos métodos e teorias que orientam o trabalho acadêmico do que pelo que representavam efetivamente de contribuição para o avanço daquele ramo das Ciências Sociais.

Por isso, também venho acompanhando com interesse o debate sobre as novas regras para o ingresso na carreira de professor universitário. Ao que parece, os concursos agora só vão contemplar candidatos que ingressem na carreira em seu nível inicial e que para concorrer nesse nível o candidato precisa ter apenas a graduação. No meu tempo vi com espanto alguns colegas se formarem e, no ano seguinte já passarem a freqüentar a universidade como docentes. Não sei o que os que foram alunos daqueles professores teriam a dizer sobre sua competência.

Naturalmente que o fato de que o candidato precisa ter apenas a graduação não impede que os que têm pós-graduação se candidatem. Mas sendo os salário inicialmente muito baixos, é bem provável que esses pós-graduados que venham a se candidatar não formem exatamente no time dos mais qualificados. Há muita gente que ficou na carreira sem produzir muito ou sem freqüentar o meio acadêmico mas que tem titulo suficiente para barrar um candidato mais jovem. O problema mesmo, a meu ver, desse sistema é a má qualidade do serviço que será oferecido. Não sei como o movimento estudantil se comportou com relação a essa questão que emergiu na última greve das universidades públicas mas deixo aqui uma questão: você, estudante universitário prefere ter como professor alguém que acabou de se formar, ou que fez uma carreira mais ou menos ou alguém que se qualificou ao longo dos anos e que, por isso mesmo, só ingressará no magistério se receber salário correspondente à maturidade de seu trabalho e de sua competência?

Outros carnavais (16/2/13)


Eu não brinquei o carnaval. Na verdade, faz milênios que eu não brinco carnaval. De verdade mesmo, eu acho que nunca brinquei carnaval. Não com o humor e a alegria com que vejo meus amigos brincando. Todo mundo fantasiado, todo mundo pela rua indo atrás dos blocos. Eu bem que tentei.

Lembro que na adolescência, Angelina Ellery, irmã da Angélica, mulher do Paulo, convidou a mim e à Clélia para entrar em um grupo que ia pular o carnaval, creio que no Náutico. Ela e as amigas, todo o mundo mais ou menos da nossa idade, bolaram uma fantasia que tinha a ver com o uniforme da NASA. Por gentileza, ou talvez pressionada pela irmã que queria agradar as cunhadas, Angelina teve que incluir no seu bloco aquelas duas irmãs tão sem graça, tão matutas como devíamos ser nós no meio da turma de meninas que a gente mal conhecia de vista. E haja complexo. Adolescência é fogo.

Depois disto lembro de dois carnavais que passei na Bahia no final dos anos 1970. Aí eu brinquei. Atrás do trio elétrico e na Praça Castro Alves. Tenho vagas lembranças mas são boas lembranças. Também estive durante um carnaval em São Luis do Maranhão. Um sujeito amigo do meu namorado que contava com ele para farrear ficou um pouco desapontado quanto viu que ele vinha comigo. Ouvi-o comentar com o outro: "mas onde é que já se viu trazer farinha pra farinhada?".

A farinha era eu e a farinhada era o carnaval com suas infinitas possibilidades. Também fui algumas vezes ver o carnaval na Rio Branco, no Rio. Naquele tempo era ali que se fazia o carnaval alternativo pois o resto da cidade era um deserto só. Era muito divertido o carnaval do Centro por conta dos travestis cujas fantasias eram sempre as mais originais. Lembro de um hilário vestido de Chapeuzinho Vermelho.

Quando começaram a renascer os blocos de bairro cheguei a acompanhar alguns mas só me animei mesmo foi com o Bloco das Carmelitas, em Santa Tereza. No começo o bloco era pequeno e você encontrava todo o mundo nele até porque todo o mundo que a gente gostava morava em Santa Teresa. Então o desfile das Carmelitas tinha aquele clima de festa de interior. Outro a que acompanhei arrastada por Ângela Porto foi o Escravos da Mauá. Fui com meu saudoso amigo Luis Carlos Saroldi e me surpreendi com a beleza que era andar à noite pelo Centro vazio do Rio junto com aquele pequeno grupo de foliões saindo do Largo da Prainha, passando pelo final da Rio Branco e terminando no Morro da Conceição. Só uma vez fui assistir ao desfile no Sambódromo, na ótima companhia de meus colegas de Casa Rui, Beto (Roberto Abreu) e Zé Manuel. A boa lembrança que tenho é de ir para o Centro, de encontrar um bando de gente fantasiada no metrô, do movimento do público nas arquibancadas e da volta para casa já com o dia claro.

Eu já desfilei em duas escolas de samba. É verdade que eram de grupos de acesso. A primeira foi a Paraíso do Tuiuti cujo dirigente era o nosso colega da Casa Rui, o Waltinho. Apesar de ser carnaval nossa fantasia era de caipira. Não sei porque o sapato tinha que ser branco. Como na hora eu não tinha sapato branco pintei de branco um velho sapato preto e fui. Quando a escola saiu, chovia a cântaros. Das arquibancadas vazias um espectador solitário debaixo de um guarda-chuva acompanhava nossa performance. As roupas ficaram encharcadas e a tinta do meu sapato começou a descolar. A gente tremia de frio e o Beto falou que o pessoal ia achar que aqueles tremores todos eram efeitos especiais. Tenho a impressão que Luciana Fróes e a então pequena Pat Malta participaram dessa aventura. Também fui na Unidos de Santa Cruz arrastada pela Monica Pimenta Velloso, biógrafa de Mario Lago que era tema do enredo daquele ano.

Quase participei da estréia da Acadêmicos de São Clemente em 1986. O tema era Rui Barbosa mas pelos intrincados caminhos do samba-enredo e pelas ainda mais intrincadas interpretações que deles fazem os carnavalescos, tinha uma ala de gente fantasiada de remédio. Foi nessa ala que a turma da Casa Rui entrou. Eu ganhei uma caixa com tarja preta, muito desconfortável e desgraciosa, mas um convite de última hora para viajar me livrou do mico. Cedi a fantasia ao meu colega Marcos Bretas.

Quando estava para ser selecionado o samba-enredo da São Clemente sobre Rui Barbosa recebi a visita de dois conhecidos do bairro, seu Quintino e seu Papinha. Eram mecânicos de automóvel e eu sempre os via quando saía pela rua Assunção, nos fundos da Casa Rui, onde funcionam muitas dessas oficinas a céu aberto. Um alto, magro, de cara muito amarrota e triste, sempre exalando um inconfundível cheiro de cachaça. Era o seu Papinha. O outro negro forte, ótimos dentes, belos olhos, grisalho e muito simpático. Era o Seu Quintino. Eles queriam dicas para competir com um samba para a São Clemente. Levei-os imediatamente até a Chefe do Setor Ruiano, Rejane de Almeida Magalhães. Rejane se empolgou, deu detalhes da trajetória do Rui, até revelar que ele fora ministro plenipotenciário do Brasil em Haia e na Argentina. Foi por essa parte que os sambistas improvisados mais se interessaram. Do jeito que o pessoal que faz samba-enredo gosta de palavra difícil, se o samba dos meus amigos tivessem emplacado era certamente íamos ver a escola cantando: "Plenipotenciário! Ele foi plenipotenciário..."

Este ano só vi carnaval pela TV e pelo Facebook pois passei-o ao lado de mamãe que tem 98 anos e nunca foi foliã. O carnaval tem um efeito tão contagioso que mesmo que você não seja carnavalesco, o carnaval chega a você. A inesperada renúncia do Papa em plena segunda-feira de carnaval foi uma inspiração a mais para os foliões que logo improvisaram fantasias a partir do tema. Quem diria que um papa tão antipático à causa da diversidade daria assunto para a maior festa da diversidade?

Nássara: rei do Carnaval (9/2/13)

Quando resolvi reunir em livro as tantas entrevistas que fiz com o Antonio Gabriel Nássara (Nássara: o perfeito fazedor de artes, Relume Dumará, 1999) não imaginava que mais do que o caricaturista quem iria brilhar ali seria o compositor popular. Desde o estrondoso sucesso de "Formosa", no carnaval de 1933 até o começo da década de 1950, Nássara foi quase imbatível como autor das marchinhas que animavam o carnaval carioca desde os anos 1920. Se Lamartine Babo e Braguinha foram compositores com um maior número de sucessos, Nássara foi o campeão dos concursos que, desde que Pedro Ernesto assumiu a prefeitura do Rio, deram mais movimentação ao pré-carnaval.

Na contracapa do disco "Carnaval de Nássara", gravado em 1956, por Pixinguinha, Orestes Barbosa conta da sensação que teve quando ouviu Formosa sendo cantada nas ruas: "Era no Largo da Carioca. (...) Num carnaval que já vai longe... Era um sábado. E era cedo. (...) Vinha um grupo de mascarados à paisana. Na frente dos foliões (uma mescla de vadios e rapazes de família) vinha um magricela simpático, de camisa de meia, calça cinza, cantando e mostrando um sorriso que ostentava os dentes salientes - parecia até que os dentes é que cantavam com o sorriso, esticando o pescoço fino - muito simpático e novo ao meu olhar. O rapaz chamava a atenção, pelo ritmo e pela originalidade com que ´batia´ um chapéu de palha. Era Luís Barbosa. E o estribilho eletrizava a multidão: Foi Deus quem te fez formosa!/ Formosa, oi, formosa!/ Porém, este mundo te tornou/ Presunçosa! Presunçosa!"

Nas vozes de Francisco Alves e Mário Reis, Formosa foi o maior sucesso do carnaval de 1933. No ano seguinte, Tipo sete, de Nássara e Alberto Ribeiro, obteve o primeiro lugar no concurso da prefeitura. Nássara concorria também com Maria Rosa: "Cadê Maria Rosa, tipo acabado de mulher fatal que tem como sinal uma cicatriz, dois olhos muito grandes, uma boca e um nariz" que havia sido desclassificada sob a acusação de plágio. Maria Rosa fora feita como sátira à opereta Rose Marie com que fora inaugurado o Teatro João Caetano. Nássara ficara com a música na cabeça e a partir dali compôs: Maria Rosa... Mas também participava da competição Ride palhaço, de Lamartine Babo. Quando surgiu a acusação de plágio o júri foi alertado para o fato de que, se Maria Rosa era plágio da opereta, Ride Palhaço também era plágio da ópera Il Pagliacci. As duas músicas foram desclassificadas e Tipo sete levou o prêmio.

Segundo Nássara, fora o Lamartine o grande criador daquela fórmula. O compositor descobria uma melodia clássica, arranjava-a em ritmo carnavalesco e atirava no ouvido do povo, com alguma letra maliciosa. "O povo que estava condenado a só cantar marchinhas de melodias portuguesas, passou a solfejar melodias de Chopin, Mozart, e até Wagner compareceu algumas vezes no carnaval carioca, sem receber um níquel de direito autoral".

Em 1937, especulava-se sobre as próximas eleições para a Presidência da República. Entre os possíveis candidatos estavam Oswaldo Aranha e Armando Salles de Oliveira. O jornal A Noite resolveu promover concurso de marchinha sobre as eleições. Luís Peixoto, seu organizador, perguntou ao Nássara: "Você não vai concorrer?" E completou: "Faz aí qualquer coisa... A gente sabe que quem vai ficar é o Getúlio mesmo, não é?". Foi assim que nasceu o refrão da música feita em parceria com Cristóvão de Alencar e que dizia: E o homem quem será?/ Será seu Manduca/ ou será seu Vavá?/ Entre esses dois meu coração balança/ porque na hora agá quem vai ficar é seu Gegê. Foi um sucesso e ganhou o prêmio. Já Seu Manduca e Seu Vavá, virtuais candidatos à Presidência da República, dançaram. Quem ficou mesmo foi o seu Gegê.

Nássara não ganhou o concurso em 1938, quando concorreu com Periquitinho verde, outro grande sucesso. Quem ganhou foi Pastorinhas que João de Barro tinha feito com Noel Rosa, morto naquele ano. Despeitado, Nássara espalhou que quem vencera não fora João de Barro, mas "a alma de Noel". O grande sucesso do carnaval de 1941, e de muitos outros carnavais foi Alá-lá-ô, parceria com Haroldo Lobo, gravada por Carlos Galhardo e com arranjo de Pixinguinha. Nássara dizia que Pixinguinha fora o "verdadeiro responsável" pelo grande sucesso de Alá-la-ô, em virtude da maravilhosa orquestração com que a música foi gravada e chegou às ruas.

Durante a guerra, em 1942, Nássara e Frazão lançaram a engraçadíssima Danúbio azul. A campanha dos alemães no sul da Rússia, culminou com a derrota de Stanlingrado, dando início à derrocada alemã. Com a metafórica invasão do Danúbio pelo Volga, Danúbio azul era uma dupla gozação: tanto aos alemães, derrotados pelos russos, quanto à valsa de Strauss. No refrão, o rio era vaiado: Danúbio azul, fiau, fiau/, mudou de cor, fiau, fiau,/ quis se meter, fiau, fiau,/ a lutador, fiau, fiau. O final dizia: Mas o Volga/ não deu folga/ e o Danúbio... azulou... Rimar "Volga" com "folga" é tudo de bom. Segundo Sérgio Augusto Danúbio azul quase foi incluída entre os números do filme Samba em Berlim, de Luís de Barros mas "ficou de castigo na sala de montagem, por ordem da censura que implicou com a cara de Stálin desenhada no cenário."

No final da década de 1940, Nássara conheceu Wilson Batista de quem se tornou parceiro. A mais famosa composição da dupla, a marcha Balzaquiana, foi gravada em 1950 por Jorge Goulart para o centenário de Balzac. Na biografia de Wilson Batista, Bruno Ferreira Gomes inclui um depoimento onde Batista narra a sobre a forma como ele e Nássara a compuseram. Além de ser um belo registro de como se dava o processo criativo no meio musical carioca daquele tempo, o texto proporciona um passeio pelo centro do Rio, em um tempo em que se podia andar por ali de madrugada, sem medo.

Irmãs Cajazeiras (2/2/13)

É assim que os meninos nos chamam quando querem nos criticar pelas costas. Dizem que somos iguais àquela trinca de solteironas da novela o "Bem-Amado" que passava o tempo todo tricotando, falando da vida alheia, conspirando. Enfim. As informações não conferem. Primeiro: dos "meninos" acima mencionados, alguns já se foram e o mais novo tem 56 anos. Segundo: não somos uma trinca, somos um quarteto e terceiro: não passamos o tempo todo conspirando, nem falando da vida alheia. Só um pouquinho.

Na verdade somos quatro irmãs separadas por alguns tantos anos uma da outras. Estamos entre os 50 e tantos e os 70 e poucos, justamente naquela fase em que essas idades se confundem. Ou seja, é aquela fase da vida em que um dia você está bem, com ótimo visual que chega a parecer dez anos menos, mas dias depois você pode estar meio pra baixo, cansada e de mau-humor e aí passa por ter dez anos mais. Assim foi que o tempo nos uniu e nos aproximou. Eu e Clélia, a dupla mais nova sempre esteve perto. Diferença pequena de dois anos com a vantagem para ela de que todo o mundo sempre pensou e pensa até hoje que é a mais nova. Diferença média para a Dadal, Socorro Lustosa que eu chamo assim desde pequena e nem sei mais por que. No Colégio das Irmãs Dorotéias quando ela estava no Normal, a gente ainda estava no Primário. Dadal tinha poderes sobre nós, delegados por nossos pais, de modo que então, aos nossos olhos infantis, parecia muito mais velha que nós. Dava bronca, mandava tomar banho, reclamava de nosso desleixo. Até porque sempre foi muito arrumadinha.

Lúcia esteve estudando em colégio de Minas Gerais e, algum tempo depois de voltar, já estava noiva do Zé Benevides com quem se casou. De modo que esteve um tanto distante de nós naquele começo da vida. Mesmo assim, o momento mais emocionante daquela fase foi para mim aquele em que, creio, aos nove anos, atravessei a nave da igreja da Piedade levando as alianças em seu casamento. Momentos de tensão. Foi a primeira minha missão de grande responsabilidade. Enfim, o fato serve para mostrar como a diferença então parecia enorme. Era a irmã mais velha que se casava enquanto a gente ainda brincava de bonecas.

Pois bem, o tempo foi passando, cada uma seguiu com a sua vida mas em um lugar sempre nos encontramos: a casa de papai e mamãe. Dizia o Fred que quando a pessoa apontava lá no começo do longo corredor da casa da Barão de Aracati, só via as cabeças se inclinando nas cadeiras de balanço para verificar quem estava chegando. Éramos nós e mamãe que, segundo ele, estávamos lá falando dos irmãos e das cunhadas. Com aquele excesso de crítica que as mulheres tem umas com as outras ficávamos falando das criaturas que o destino colocara na vida dos nossos irmãozinhos, tão bonzinhos, ingênuos e despreparados que tínhamos que proteger. Pobres cunhadas. O tempo também cuidou de aplainar essas diferenças e hoje, atuais e ex-cunhadas fazem parte da família estendida que nas noites de Natal e no aniversário de mamãe celebram conosco uma vida que foi enriquecida pelos tantos sobrinhos bacanas que nos deram.

A morte de papai mais nos uniu em torno de dona Dolores. Ao longo do tempo, esses encontros de irmãs, ao cair da tarde, na sala de visitas dela foram adquirindo um sabor tão especial, um gosto de quero mais que foram fazendo do grupo, um grupo de amigas próximas e queridas. A evolução dessa amizade pode ser acompanhada pelas fotos que obrigatoriamente fazemos a cada reunião familiar. A foto das quatro irmãs. Seria bom compará-las ao longo dos anos para ver como foi que fomos ficando tão parecidas, tão próximas que parecemos ter todas a mesma idade.

A dor também nos uniu. A longa doença do Edmilson, mostrou a grande mulher que é a nossa Dadal. Socorro esteve ao lado de seu leito na UTI todos os dias, em pé horas a fio velando pelo companheiro de uma vida, não medindo esforços para confortá-lo. E imagino como sua presença deve ter sido tranquilizadora para ele. Ele que não hesitava em dizer que das quatro irmãs, a sua era a mais bonita. Chico de Brito, sertanejo valente que tinha medo da morte. Lembro tanto da última vez que o vi, no leito do hospital, com a doença já irreversível que o consumia. Entramos eu e Clélia na UTI, ficamos um pouco ao seu lado, conversamos amenidades e quando me despedi, pois estava em Fortaleza apenas para o feriado, me olhou com tristeza e perguntou: "Quer dizer que eu nunca mais vou te ver?" Ele sabia que ia morrer. Eu é que não sabia que aquele cunhado que tinha me visto menina, que era obrigada a levar os três irmãos caçula da namorada ao cinema com seu magro salário do BNB, dava tanta importância assim a me ver. Um acaso me fez estar em Fortaleza durante os últimos dias de sua vida. Já incomunicável, fora do ar. Fomos ao hospital e Dadal quando me viu, me abraçou apertado e chorou dizendo: seu compadre está muito mal.

A dor também nos uniu em torno da Lúcia no ano que passou. A linda família que formou com Benevides ao longo de 50 anos que a fatalidade que se abateu sobre eles não permitiu comemorar, floresceu em um elenco de netos maravilhosos. Nos almoços felizes do Icaraí, encontro habitual da família no final do ano, suas filhas, Evelucia, Sellene e Fabiana, tornam-se membros também desse grupo feminino tão cúmplice. A alegria e a força extraordinária de Lúcia sofreram tremendo baque com a partida do neto João Felipe, o Felipe Melo. A dor que revela o que temos de mais autêntico mostrou a avó frágil amparada pela filha, Evelucia, mãe-coragem que fez da passagem do filho caçula um momento de iluminação mística que salvou toda a família do naufrágio.

Sem dúvida, a partida do Lustosa pouco depois, filho que era presença constante ao lado da mãe, mais unidas nos fez ficar em torno de dona Dolores. Conforta o coração sabermos que temos umas as outras, que podemos contar essa permanente solidariedade construída ao longo de uma vida feita de alegrias e tristezas, mas uma bela vida.