O artista que mais me fascinava quando, mocinha ainda, eu pensava em ser pintora, era Henri de Toulouse-Lautrec. Creio que não soube logo das circunstâncias peculiares de sua vida. Mas depois de conhecer a sua biografia, muito do que eu gostava em seus quadros ganhou outra dimensão. O pai de Lautrec pertencia a uma família da mais alta nobreza da França e ele passou a infância em um castelo sob os cuidados de uma mãe dedicada que o amou e amparou até o final de seus dias. Ainda menino, Lautrec foi vítima de dois acidentes que, prejudicando o crescimento de suas pernas, fizeram dele, na idade adulta, uma figura desproporcional, bizarra, quase caricata. Talvez por essa inadequação ao mundo correto e elegante em que nascera, seu talento precoce para a arte o tenha levado, na juventude, a se deslumbrar pelo submundo de Montmartre. A vida de Lautrec foi, assim, sempre marcada pelo signo da decadência que se refletiria em sua admirável obra.
Em minhas primeiras e depois abandonadas incursões pela pintura a óleo, onde predominavam os tons "terra", eu preferia, como Lautrec e Degas, os ambientes íntimos e sombrios. Talvez porque Van Gogh e sua loucura fossem um pouco demais para mim. Fascinante mas inatingível. Ou talvez porque em Lautrec e Degas estava a Paris que aprendera a amar na literatura francesa do século XIX e nas páginas da qual passei quase toda a minha adolescência mergulhada. Daí que desenvolvi aquela irresistível atração pela decadência tão característica daquela forma de viver a juventude dos romances. Os ambientes sombrios e viciosos, as vidas e talentos que se desfaziam na bebedeira, a velhice solitária e miserável, os submundos das cidades: universos mágicos, estranhos e desconhecidos, talvez, por isso mesmo, tão fascinantes e que eu tentava transpor para os meus óleos de principiante. "O absinto", quadro de Degas, pintor que, ao lado de Van Gogh, era o artista mais admirado por Lautrec, até hoje me impressiona por tudo que diz, insinua e cala.
Eles formam, aliás, o meu trio de ouro das artes, jamais superado. Eu gostava, sobretudo, de imitar Toulouse-Lautrec, o humor meio amargo dos seus personagens e de seus ambientes. Queria pintar como Lautrec, desenhar como ele e, certamente, viver como ele, compartilhando um pouco de seu fatídico destino. Sem perceber, talvez, que seu olhar era o olhar privilegiado do espectador masculino sobre aquele mundo. Era o lugar em que estava, de homem e de um homem que, talvez por seu frágil aspecto físico, podia frequentar livremente o interior dos boudoirs de Montmartre que lhe possibilitaram ver e representar as coisas daquele modo.
Daí a naturalidade com que Lautrec pintava a nudez daquelas mulheres; as cenas de amor lesbiano ou de terna amizade que flagrou entre elas, mas também a profunda melancolia no divã vermelho em que esperam pelos clientes que as escolherão. E tudo isso a fazer contraste com as cenas de frenética euforia das dançarinas de can-can no "Moulin Rouge"; a animação das mesas e dos bares; a movimentação nos salões dos cabarés. Não eram bonitas as mulheres do Lautrec. Muitas pareciam velhas, gordas e cansadas. Estavam longe do estereótipo de beleza feminina que já predominava nos anos 1950 e 1970. Mas nada disso importava. O que importava era o tanto que aquelas cenas provocavam a imaginação.
A glamourização da mais antiga profissão do mundo deve muito à arte e a literatura francesa do século XIX. Décadas antes de Toulouse-Lautrec, "A dama das camélias" (1842), de Alexandre Dumas, cantou o amor impossível entre o rapaz de boa família, Armand Durval, destinado a uma carreira de sucesso, e uma cortesã de alto coturno, Marguerite Gautier. O drama se centra no sacrifício de Marguerite, que renuncia ao amor de Armand para não inviabilizar o futuro do amado. Seu sacrifício aliás, consiste em fingir ser, na verdade, o estereótipo da mundana que só buscava o luxo e o prazer.
Fantine, a mãe de Cosette, em "Os miseráveis" (1862), de Victor Hugo, se move em outro estrato, mostrando a prostituição como final do processo de decadência da moça honesta seduzida e abandonada. Hugo, aliás, proporciona ali a cena mais dramática do gênero. Aquela em que um dândi, só por diversão, coloca uma bola de neve no decote de uma Fantine, já em final de carreira, feia, desdentada e tuberculosa, fazendo a vida para sustentar a filha. Creio que na literatura brasileira do século XIX, o conservador Alencar foi quem mais se aproximou desse modelo. Alencar foi até bastante ousado ao representar em "Lucíola" uma prostituta em plena orgia, entornando de uma vez só uma garrafa de champanhe e em, seguida, sobre uma mesa, semi-nua, em dança sensualíssima.
O lugar da perdição no Rio foi, ao longo de boa parte do século XX, a Lapa, batizada, aliás, por Luís Martins, de "Montmartre carioca". Nas suas "rues chaudes" - Conde de Lage, Taylor e Joaquim Silva - ficavam os bordéis mais frequentados do Rio de Janeiro da primeira metade dos século XX. A vida que viveram ali poetas, artistas, compositores e escritores foi fonte fecunda de inspiração. Resultando dela - tomo a liberdade de concluir essas mal-traçadas citando acima do texto que fiz para a "Lapa do Desterro e do desvario: uma antologia" (Casa da Palavra, 2000) - uma arte que, como a pintura de Lautrec, "tem o sabor amargo que fica na boca da bebida da véspera; tem a morrinha dos quartos das hospedarias de solteiros; tem o cheiro azedo da roupa de cama suja pelo amor de alta rotatividade, e guarda a dolorosa visão da borrada maquiagem de véspera no rosto precocemente envelhecido das mulheres".
Conversa de mãe e filho nas redes sociais (21/5/11)
Meu filho foi morar em Fortaleza com 18 anos. Nos primeiros meses ficou na casa da avó mas logo comprei o pequeno apartamento onde ele mora e onde me hospedo quando vou aí. Foi para mim penosa a separação nos primeiros tempos. Meu único filho saíra de casa e antes mesmo dos 20 anos.
Mas ao povo daqui do Rio que me perguntava como estava sendo a vida dele em Fortaleza eu era obrigada a confessar: está no melhor dos mundos possíveis. Pois imagine o que é para um filho único, aos 20 anos, morar sozinho em seu próprio apartamento, a 3 mil quilômetros da mãe e a seis quarteirões da casa da avó? A mãe não teria, mesmo que quisesse, como regular seus horários de entrada e saída. E quem entrava e saía com ele.
Não tinha como saber se ele estava estudando direito, se comia direito, se cuidava dos dentes direito, se não andava bebendo muita cerveja... etc. etc. e etc. Enfim aquelas essas coisas necessárias com que as mães tornam a vida delas e a dos filhos insuportáveis. Se faltar comida em casa, tiver roupa pra lavar, ficar doente ou apenas carente, a casa da avó - e uma casa de avó com uma infra doméstica bem boa como a dele - é bem pertinho. É só se encostar por lá.
Mas o principal benefício é mesmo ser o dono do seu pedaço. Ter o seu próprio apartamentinho em Fortaleza - onde os filhos só saem da casa dos pais quando vão fazer uma pós-graduação fora, ou para casar ou para trabalhar em outro Estado - é luxo só. E, é claro, logo a casa do Chico virou o "point" da turma dele. Uma república em estado de festa permanente. E eu que só pinto por aí por curtas temporadas só pude saber disto graças ao Orkut. No começo de 2009, ele veio passar férias aqui e, quando voltou para Fortaleza, deixou a página do Google associada à sua conta de Orkut. Sempre que abria o Google entrava direto na página dele e foi assim que fiquei sabendo de toda a sua agitada vida social.
Não só da vida social mas de suas consequências como as reclamações do condomínio por causa de suas festas. Não sei como são outras mães mas eu me interesso por tudo que diz respeito ao meu filho. Confesso até que ultrapasso certos limites nos meus métodos de obter informações. Não que eu abra cartas e descubra senhas da internet ou escute conversas na extensão do telefone. Mas se as coisas estão ali diante dos meus olhos como a página do Orkut estava não consigo resistir.
E o Orkut era uma tentação. Não só por causa do Chico mas também de seus amigos. Pois eles contavam absolutamente tudo do que se passava nas vidas deles. Vidas em transformação. Gente que ia fazer vestibular e não sabia para o que. Gente que começava a namorar e não sabia se gostava de menino, menina ou dos dois, ou de nenhum dos dois. Gente que queria fazer logo a Revolução. Gente que só queria saber de farra. Gente que queria ser médica. Gente que queria ser jornalista. Gente que queria ser fotógrafa. Gente que queria ser advogada. Gente que queria ser arquiteta. Casais que se formavam e se deformavam. Brigas e reconciliações entre amigos. Tudo se sabia porque tudo era revelado.
Depois veio logo outra fase: a do pessoal tomando novo rumo por causa da faculdade. Aquela espécie de diáspora (quem lembra de "American Graffiti"?) que marca a passagem da adolescência para a juventude. Os que partiram para outras cidades ou outros países formando novas turmas, incluindo outras pessoas que nada tinham a ver com os amigos de Fortaleza. Ou que tinham tudo a ver com os amigos de Fortaleza. Gente que vivia juntinho e que parecia inseparável e que optou por caminhos tão diferentes - quase opostos - que hoje mal se reconhece.
Festeiros que se politizaram. Politizados que se alienaram. Casais que pareciam definitivos e que descobriam que não tinham sido feitos um para o outro e novos casais que se formaram. Foi realmente uma experiência fascinante acompanhar esse grupo por um tempo de suas vidas. Não fiquei usando a conta do Chico o tempo todo para isto. Logo criei a minha e me tornei amiga de todos. Tenho a impressão que as conversas ficaram mais reservadas depois disto. Da vida do Chico eu não consegui saber mais coisa nenhuma depois que entrei no Orkut.
Mas a verdade é que com o passar do tempo a minha vontade de querer saber tudo sobre a vida do Chico ficou mais moderada. Talvez porque as festas tenham diminuído. Talvez porque ele tenha se tornado um adulto razoavelmente responsável. O fato é que só há pouco tempo o Chico se tornou meu amigo no Facebook. Temos posições políticas próximas porém divergentes. Digamos que ele está mais à esquerda. Esta semana postei um comentário relacionado à política brasileira atual que ele refutou com um argumento inteligente, ponderado e bem construído.
Daí a questão: o que fazer quando seu filho bem amado discorda de você em um debate público? Responder dizendo: "Oh, meu filhinho, como você é inteligente. Mamãe está muito orgulhosa"? Discutir ponto a ponto o que ele disse para tentar demonstrar de forma didática as minhas razões (o que detesto fazer na internet pois tem sempre a réplica e a tréplica que tornam este tipo de conversa chatíssima para os demais)? Ou fazer o que faço sempre com todo o mundo que é meu amigo no Facebook, explicando que, apesar de gostar de dizer o que penso em político e de ler o que os outros pensam (mesmo e principalmente quando é o contrário do que eu penso) morro de preguiça da discussão política?
Optei por esta última atitude. Acho a mais respeitosa para com ele. Quem quiser debater a partir do que eu disse siga em frente e arque com as consequências se a discussão ficar mais inflamada. E isto vale para o Chico também. Afinal, ele já está bem crescidinho.
Mas ao povo daqui do Rio que me perguntava como estava sendo a vida dele em Fortaleza eu era obrigada a confessar: está no melhor dos mundos possíveis. Pois imagine o que é para um filho único, aos 20 anos, morar sozinho em seu próprio apartamento, a 3 mil quilômetros da mãe e a seis quarteirões da casa da avó? A mãe não teria, mesmo que quisesse, como regular seus horários de entrada e saída. E quem entrava e saía com ele.
Não tinha como saber se ele estava estudando direito, se comia direito, se cuidava dos dentes direito, se não andava bebendo muita cerveja... etc. etc. e etc. Enfim aquelas essas coisas necessárias com que as mães tornam a vida delas e a dos filhos insuportáveis. Se faltar comida em casa, tiver roupa pra lavar, ficar doente ou apenas carente, a casa da avó - e uma casa de avó com uma infra doméstica bem boa como a dele - é bem pertinho. É só se encostar por lá.
Mas o principal benefício é mesmo ser o dono do seu pedaço. Ter o seu próprio apartamentinho em Fortaleza - onde os filhos só saem da casa dos pais quando vão fazer uma pós-graduação fora, ou para casar ou para trabalhar em outro Estado - é luxo só. E, é claro, logo a casa do Chico virou o "point" da turma dele. Uma república em estado de festa permanente. E eu que só pinto por aí por curtas temporadas só pude saber disto graças ao Orkut. No começo de 2009, ele veio passar férias aqui e, quando voltou para Fortaleza, deixou a página do Google associada à sua conta de Orkut. Sempre que abria o Google entrava direto na página dele e foi assim que fiquei sabendo de toda a sua agitada vida social.
Não só da vida social mas de suas consequências como as reclamações do condomínio por causa de suas festas. Não sei como são outras mães mas eu me interesso por tudo que diz respeito ao meu filho. Confesso até que ultrapasso certos limites nos meus métodos de obter informações. Não que eu abra cartas e descubra senhas da internet ou escute conversas na extensão do telefone. Mas se as coisas estão ali diante dos meus olhos como a página do Orkut estava não consigo resistir.
E o Orkut era uma tentação. Não só por causa do Chico mas também de seus amigos. Pois eles contavam absolutamente tudo do que se passava nas vidas deles. Vidas em transformação. Gente que ia fazer vestibular e não sabia para o que. Gente que começava a namorar e não sabia se gostava de menino, menina ou dos dois, ou de nenhum dos dois. Gente que queria fazer logo a Revolução. Gente que só queria saber de farra. Gente que queria ser médica. Gente que queria ser jornalista. Gente que queria ser fotógrafa. Gente que queria ser advogada. Gente que queria ser arquiteta. Casais que se formavam e se deformavam. Brigas e reconciliações entre amigos. Tudo se sabia porque tudo era revelado.
Depois veio logo outra fase: a do pessoal tomando novo rumo por causa da faculdade. Aquela espécie de diáspora (quem lembra de "American Graffiti"?) que marca a passagem da adolescência para a juventude. Os que partiram para outras cidades ou outros países formando novas turmas, incluindo outras pessoas que nada tinham a ver com os amigos de Fortaleza. Ou que tinham tudo a ver com os amigos de Fortaleza. Gente que vivia juntinho e que parecia inseparável e que optou por caminhos tão diferentes - quase opostos - que hoje mal se reconhece.
Festeiros que se politizaram. Politizados que se alienaram. Casais que pareciam definitivos e que descobriam que não tinham sido feitos um para o outro e novos casais que se formaram. Foi realmente uma experiência fascinante acompanhar esse grupo por um tempo de suas vidas. Não fiquei usando a conta do Chico o tempo todo para isto. Logo criei a minha e me tornei amiga de todos. Tenho a impressão que as conversas ficaram mais reservadas depois disto. Da vida do Chico eu não consegui saber mais coisa nenhuma depois que entrei no Orkut.
Mas a verdade é que com o passar do tempo a minha vontade de querer saber tudo sobre a vida do Chico ficou mais moderada. Talvez porque as festas tenham diminuído. Talvez porque ele tenha se tornado um adulto razoavelmente responsável. O fato é que só há pouco tempo o Chico se tornou meu amigo no Facebook. Temos posições políticas próximas porém divergentes. Digamos que ele está mais à esquerda. Esta semana postei um comentário relacionado à política brasileira atual que ele refutou com um argumento inteligente, ponderado e bem construído.
Daí a questão: o que fazer quando seu filho bem amado discorda de você em um debate público? Responder dizendo: "Oh, meu filhinho, como você é inteligente. Mamãe está muito orgulhosa"? Discutir ponto a ponto o que ele disse para tentar demonstrar de forma didática as minhas razões (o que detesto fazer na internet pois tem sempre a réplica e a tréplica que tornam este tipo de conversa chatíssima para os demais)? Ou fazer o que faço sempre com todo o mundo que é meu amigo no Facebook, explicando que, apesar de gostar de dizer o que penso em político e de ler o que os outros pensam (mesmo e principalmente quando é o contrário do que eu penso) morro de preguiça da discussão política?
Optei por esta última atitude. Acho a mais respeitosa para com ele. Quem quiser debater a partir do que eu disse siga em frente e arque com as consequências se a discussão ficar mais inflamada. E isto vale para o Chico também. Afinal, ele já está bem crescidinho.
Gonçalves Ledo (14/5/11)
Nos últimos tempos tenho pensando muito em Joaquim Gonçalves Ledo. Nome de rua em muitas cidades brasileiras, Gonçalves Ledo teve participação decisiva na nossa Independência. Foi um de nossos primeiros jornalistas e cheio de ideias modernas para o seu tempo, lutou intensamente para que o Brasil tivesse uma constituição feita por uma assembleia reunindo representantes eleitos pelo povo. É bem verdade que esse povo, apesar de ser, em sua maioria, composto de homens negros livres e pardos, não incluía os escravos que correspondiam a quase um terço da população.
Ledo ocupa meus pensamentos não só por conta do sua trajetória, mas também de seu destino. Ele foi praticamente esquecido e isto, pouco depois da Independência, momento em que sua estrela mais brilhou. Penso em Ledo porque ele foi injusta e cruelmente perseguido pelo Patriarca da Independência, José Bonifácio de Andrada e Silva. A atitude do grande Andrada, maior nome da Ilustração Brasileira, com grande prestígio na Europa, homem de visão que, com um pouco mais de ano e meio de ação efetiva no Ministério de D. Pedro, foi capaz de definir o rumo que deveria tomar o Brasil independente, foi de uma mesquinharia atroz no que diz respeito a Gonçalves Ledo.
Ledo era republicano e aderira ao projeto de implantação de uma monarquia constitucional no Brasil depois da Revolução Constitucionalista do Porto, acontecida em agosto de 1820. A onda de progresso que marcara o reinado de D. João no Brasil fora também um fator de arrefecimento do entusiasmo republicano, especialmente no Centro-Sul do Brasil. Rio de Janeiro, Minas e São Paulo tinham se beneficiado imensamente, sobrando até uma beirada para o Rio Grande do Sul. Mesmo no norte do Brasil, a abertura dos portos propiciara mudanças profundas na economia. Insatisfação havia no nordeste, como bem o demonstrou Evaldo Cabral de Mello, contra o predomínio do Rio e o alto custo de manutenção da Corte, que provocara a elevação dos impostos nas outras províncias. E este foi o fator de estímulo à revolução de caráter republicano e separatista ocorrida em 1817, em Pernambucano.
De modo que, os liberais brasileiros (o que havia de mais à esquerda naquele momento) deram total apoio às ações no sentido de fazer com que o rei se submetesse à Constituição que seria produzida pelas Cortes de Lisboa. Acontece que, lá em Portugal, havia mágoa profunda contra o Brasil. Ao projeto de regeneração do País parecia ser necessário o restabelecimento do exclusivo comercial, pois sem ele, a economia portuguesa não teria chance de retomar a pujança que tinha antes da invasão francesa.
Foi Gonçalves Ledo, nas páginas de seu jornal "Revérbero Constitucional Fluminense", a partir de análise do "Manifesto de Portugal aos povos e soberanos da Europa", quem demonstrou como na política das Cortes estava implícita a intenção recolonizadora. Pensamento que impulsionaria o movimento pela Independência e que seria o mesmo de Hipólito da Costa, sendo também adotado por José Bonifácio no texto que redigiu para o "Manifesto dirigido às Nações Amigas por D. Pedro", em 6 de agosto de 1822.
Foi com sua ação intensiva no sentido de que o Brasil tivesse a sua própria Assembleia Constituinte, movimento que contrariava a vontade de José Bonifácio, que Ledo realmente se superou. Sua retórica exaltada, que alcançava nas páginas do "Revérbero" notas talvez excessivamente altas, terá mais força e beleza naqueles documentos. São exemplos de sua poesia: "Assaz te conheci, demasiado te servi", sobre a relação do Brasil com Portugal; "Pequenas considerações só devem estorvar pequenas almas", estimulando D. Pedro a aderir. Ou ainda, a frase que abre o manifesto de 1º de agosto de 1822: "Está acabado o tempo de enganar os homens!"
A disputa entre José Bonifácio e Gonçalves Ledo não teve a ver com uma diferença essencial de projetos para o Brasil. Ambos queriam conservar a unidade do País com as províncias subordinadas a um centro de poder representado pelo príncipe. Ambos queriam que um código de leis regulasse a vida da nação. Ambos propunham uma relativa autonomia das províncias mas conservando-se a liderança do Centro-Sul. Ambos queriam criar uma Marinha de Guerra capaz de proteger o nosso território. Ambos tinham uma visão positiva, moderna e sem preconceitos da miscigenação do povo brasileiro.
A disputa entre José Bonifácio e Gonçalves Ledo foi uma disputa pelo poder em que o paulista levou a melhor. A rivalidade entre os dois vinha se agravando desde a campanha pela Constituinte. Ledo era redator do jornal mais importante, dono de uma retórica capaz de fascinar um jovem como D. Pedro, ao qual atraiu para a Maçonaria da qual era o líder. A inimizade velada se tornaria ostensiva depois da Aclamação. No final de outubro de 1822, José Bonifácio demitiu-se e só voltou ao ministério depois de arrancar do Imperador autorização para processar e prender Ledo e seu grupo sob a falsa denúncia de conspiração republicana.
Dos companheiros de Ledo, alguns foram presos, outros deportados. Ele preferiu fugir para Buenos Aires, pois soube que, se fosse preso, seria enforcado. Quando voltou ao Brasil, no final de 1823, eram José Bonifácio e seus irmãos que partiam para exílio, inimigos que haviam se tornado do Imperador. Não havia o que comemorar. A assembleia pela qual Ledo tanto trabalhara fora dissolvida e a Constituição que queria feita pelos representantes do povo seria outorgada pelo Imperador, em março do ano seguinte.
Consta que Ledo, antes de morrer, em 1847, queimou todos os papéis importantes que guardava. Será? É o que dizem mas me ponho no lugar de Ledo e não me vejo queimando a memória da coisa mais importante que fiz na vida. A ideia que me persegue é que, em algum lugar esquecido do Estado do Rio, alguém tenha uma mala cheia de papéis velhos a que nunca deu importância e que esses sejam os papéis de Gonçalves Ledo.
Ledo ocupa meus pensamentos não só por conta do sua trajetória, mas também de seu destino. Ele foi praticamente esquecido e isto, pouco depois da Independência, momento em que sua estrela mais brilhou. Penso em Ledo porque ele foi injusta e cruelmente perseguido pelo Patriarca da Independência, José Bonifácio de Andrada e Silva. A atitude do grande Andrada, maior nome da Ilustração Brasileira, com grande prestígio na Europa, homem de visão que, com um pouco mais de ano e meio de ação efetiva no Ministério de D. Pedro, foi capaz de definir o rumo que deveria tomar o Brasil independente, foi de uma mesquinharia atroz no que diz respeito a Gonçalves Ledo.
Ledo era republicano e aderira ao projeto de implantação de uma monarquia constitucional no Brasil depois da Revolução Constitucionalista do Porto, acontecida em agosto de 1820. A onda de progresso que marcara o reinado de D. João no Brasil fora também um fator de arrefecimento do entusiasmo republicano, especialmente no Centro-Sul do Brasil. Rio de Janeiro, Minas e São Paulo tinham se beneficiado imensamente, sobrando até uma beirada para o Rio Grande do Sul. Mesmo no norte do Brasil, a abertura dos portos propiciara mudanças profundas na economia. Insatisfação havia no nordeste, como bem o demonstrou Evaldo Cabral de Mello, contra o predomínio do Rio e o alto custo de manutenção da Corte, que provocara a elevação dos impostos nas outras províncias. E este foi o fator de estímulo à revolução de caráter republicano e separatista ocorrida em 1817, em Pernambucano.
De modo que, os liberais brasileiros (o que havia de mais à esquerda naquele momento) deram total apoio às ações no sentido de fazer com que o rei se submetesse à Constituição que seria produzida pelas Cortes de Lisboa. Acontece que, lá em Portugal, havia mágoa profunda contra o Brasil. Ao projeto de regeneração do País parecia ser necessário o restabelecimento do exclusivo comercial, pois sem ele, a economia portuguesa não teria chance de retomar a pujança que tinha antes da invasão francesa.
Foi Gonçalves Ledo, nas páginas de seu jornal "Revérbero Constitucional Fluminense", a partir de análise do "Manifesto de Portugal aos povos e soberanos da Europa", quem demonstrou como na política das Cortes estava implícita a intenção recolonizadora. Pensamento que impulsionaria o movimento pela Independência e que seria o mesmo de Hipólito da Costa, sendo também adotado por José Bonifácio no texto que redigiu para o "Manifesto dirigido às Nações Amigas por D. Pedro", em 6 de agosto de 1822.
Foi com sua ação intensiva no sentido de que o Brasil tivesse a sua própria Assembleia Constituinte, movimento que contrariava a vontade de José Bonifácio, que Ledo realmente se superou. Sua retórica exaltada, que alcançava nas páginas do "Revérbero" notas talvez excessivamente altas, terá mais força e beleza naqueles documentos. São exemplos de sua poesia: "Assaz te conheci, demasiado te servi", sobre a relação do Brasil com Portugal; "Pequenas considerações só devem estorvar pequenas almas", estimulando D. Pedro a aderir. Ou ainda, a frase que abre o manifesto de 1º de agosto de 1822: "Está acabado o tempo de enganar os homens!"
A disputa entre José Bonifácio e Gonçalves Ledo não teve a ver com uma diferença essencial de projetos para o Brasil. Ambos queriam conservar a unidade do País com as províncias subordinadas a um centro de poder representado pelo príncipe. Ambos queriam que um código de leis regulasse a vida da nação. Ambos propunham uma relativa autonomia das províncias mas conservando-se a liderança do Centro-Sul. Ambos queriam criar uma Marinha de Guerra capaz de proteger o nosso território. Ambos tinham uma visão positiva, moderna e sem preconceitos da miscigenação do povo brasileiro.
A disputa entre José Bonifácio e Gonçalves Ledo foi uma disputa pelo poder em que o paulista levou a melhor. A rivalidade entre os dois vinha se agravando desde a campanha pela Constituinte. Ledo era redator do jornal mais importante, dono de uma retórica capaz de fascinar um jovem como D. Pedro, ao qual atraiu para a Maçonaria da qual era o líder. A inimizade velada se tornaria ostensiva depois da Aclamação. No final de outubro de 1822, José Bonifácio demitiu-se e só voltou ao ministério depois de arrancar do Imperador autorização para processar e prender Ledo e seu grupo sob a falsa denúncia de conspiração republicana.
Dos companheiros de Ledo, alguns foram presos, outros deportados. Ele preferiu fugir para Buenos Aires, pois soube que, se fosse preso, seria enforcado. Quando voltou ao Brasil, no final de 1823, eram José Bonifácio e seus irmãos que partiam para exílio, inimigos que haviam se tornado do Imperador. Não havia o que comemorar. A assembleia pela qual Ledo tanto trabalhara fora dissolvida e a Constituição que queria feita pelos representantes do povo seria outorgada pelo Imperador, em março do ano seguinte.
Consta que Ledo, antes de morrer, em 1847, queimou todos os papéis importantes que guardava. Será? É o que dizem mas me ponho no lugar de Ledo e não me vejo queimando a memória da coisa mais importante que fiz na vida. A ideia que me persegue é que, em algum lugar esquecido do Estado do Rio, alguém tenha uma mala cheia de papéis velhos a que nunca deu importância e que esses sejam os papéis de Gonçalves Ledo.
Uma certa nobreza (7/5/11)
Segunda-feira, fui ao São João Batista me despedir de Beatriz Fontenelle de Mello Franco. Estava bonita a Bia, com uma mantilha preta, emoldurada por lindas e delicadas rosas. A fisionomia serena. Sempre ao lado dela, de vez em quando olhando-a com ternura, estava o marido, meu querido amigo Afonso Arinos de Mello Franco, filho. Ele me saudou com a mesma cordialidade de sempre e conversou comigo, todo o tempo ao lado de Bia, como se ela estivesse participando da conversa. Depois chamou a filha, Silvia para lhe contar uma história que adora. Pois a Bia, segundo o Afonso, era fã de D. Pedro I, até ler um artigo que publiquei na revista "Inteligência", reunindo depoimentos de contemporâneos que demonstravam que, de fato, o imperador maltratara muito a mulher, chegando mesmo à violência física. Daí em diante, a Bia criara horror a D. Pedro I.
Em um dos agradáveis almoços das quartas-feiras de que participei na casa deles, falamos, eu e Bia sobre D. Pedro e outros assuntos. Falamos da cerâmica que ela fazia, peças pequenas, utilitárias e de muito bom gosto. Eu que também, em tempos passados, fazia cerâmica, só que pequenas esculturas de pessoas, combinava sempre de um dia ir lá brincar com argila junto com a Bia.
Nunca fui. Também, por culpa minha, fui a poucos almoços para os quais sempre me chamava o Afonso. Almoços de família onde ele e Bia reunem os filhos rapazes, pois a Silvia mora, há muitos anos, no exterior. De vez em quando, incluem nessas reuniões informais, um ou dois amigos.
Em uma ocasião, também estava lá a Aspásia Camargo, amiga minha e deles. A filha do Cesário que era muito chegada à avó, tinha ganhado um pequeno pássaro, que a mim figurava como uma maritaca branca. Afonso perguntou à neta sobre a calopsita e conversaram um tempo sobre o bicho. Aspásia virou para mim e disse: "Calopsita? Que pássaro é este que eu nunca ouvi falar?". Eu emendei logo: "Ô, Aspásia, isso aqui é casa dos Mello Franco. Tu queria que eles tivessem um papagaio, um canário, uma graúna?".
Afonso achou a maior graça. Como achou graça, aliás, do comentário que fiz, logo depois que o conheci, há uns quinze anos, em um almoço na casa de Cícero e Laura Sandroni. Todo o mundo cantando o bom e velho repertório da MPB, quando o Afonso, como muito boa voz, cantou "Chão de estrelas". Não resisti e lhe disse: "Eu precisava vir na casa do Cícero Sandroni para ouvir um Mello Franco dizer que a porta do barraco dele era sem trinco."
Ficamos amigos desde então e, quando entrei para o Pen Clube do Brasil, pedi-lhe que me recebesse. Fez-me uma belíssima saudação, falando bem de meus livros e de mim. Gostei tanto que, em 2008, quando entrei em lista das dez mulheres que se destacaram naquele ano, pedi a ele que repetisse a dose na sessão que se fez na ABL. A constante cordialidade de Afonso Arinos para comigo, a delicadeza de sempre enviar uma mensagem quando lê algo no jornal a meu respeito ou quando lê algum artigo meu, são definitivamente cativantes. Principalmente porque eu não faço o mesmo.
Recebo livros, bons livros, de amigos, de conhecidos ou de desconhecidos e esqueço ou demoro tanto a agradecer que devo ser detestada por muitos autores em vários lugares do mundo. Me pesam na consciência as tantas cartas e mensagens que recebi pelo correio e que ficaram sem resposta. O que me salvou da condenação universal foi a internet e a facilidade de responder a tudo no automático. O Facebook resolveu outro problema que é a data de aniversário dos amigos. Todos os que estão lá, são efusivamente parabenizados por mim.
Talvez por isto mesmo a amizade de Afonso Arinos filho me seja tão lisonjeira. Não deixo de pensar que é uma das famílias mais antigas do Brasil e que deixou sua marca na História. Desde o primeiro, cuja biograifa conheço, o médico maçom Francisco de Mello Franco, perseguido pelo Santo Ofício no final do século XVIII, passando pelo escritor Afonso Arinos e seu irmão, Afrânio, figura importante da política brasileira na República Velha. De Afonso Arinos, filho de Afrânio e pai deste outro Afonso Arinos que hoje é meu amigo, tenho toda obra reunida aqui em minha estante. Recorri à sua excelente biografia de Rodrigues Alves quando escrevi "Histórias de Presidentes". Só bem mais tarde li essa obra magistral que é "O índio brasileiro e a revolução". Outro livro dele que me tem sido útil é "Problemas políticos brasileiros". Mas, ultimamente é "O Constitucionalismo de D. Pedro I" que tem ocupado minhas atenções.
Creio que os Mello Franco são o que de mais próximo temos de uma nobreza brasileira. Depois da partida de D. João VI do Brasil, em 1821, foi que cientistas e homens de letras formados em Coimbra, como José Bonifácio de Andrada, que era, aliás, amigo de Francisco de Mello Franco, passaram a compor, como disse Antonio Candido, a aristocracia brasileira. E isto é prova de como nobreza é conceito amplo. Pode-se nascer nobre e ter alma de catraieiro. Pode-se nascer mendigo e ter os modos de um príncipe.
De modo que, a meu ver, a nobreza está em um determinado código de valores, associado a uma atitude diante da sociedade e da vida e a uma certa cultura. Penso, por exemplo, no profundo desprezo do poeta negro e pobre Cruz e Sousa pela turma de Bilac, com suas alegres reuniões burguesas. Ou nos modos reservados do mulato pobre Machado de Assis, que erguera-se muito acima da nobreza de seu tempo e que era cultuado por um Joaquim Nabuco. Se dá gosto acompanhar a trajetória de vida desses que venceram por si, também me parece bom louvar, nesta despedida da Bia Fontenelle de Mello Franco, uma família que se conservou culta, honrada e nobre ao longo de mais de dois séculos de história do Brasil.
Em um dos agradáveis almoços das quartas-feiras de que participei na casa deles, falamos, eu e Bia sobre D. Pedro e outros assuntos. Falamos da cerâmica que ela fazia, peças pequenas, utilitárias e de muito bom gosto. Eu que também, em tempos passados, fazia cerâmica, só que pequenas esculturas de pessoas, combinava sempre de um dia ir lá brincar com argila junto com a Bia.
Nunca fui. Também, por culpa minha, fui a poucos almoços para os quais sempre me chamava o Afonso. Almoços de família onde ele e Bia reunem os filhos rapazes, pois a Silvia mora, há muitos anos, no exterior. De vez em quando, incluem nessas reuniões informais, um ou dois amigos.
Em uma ocasião, também estava lá a Aspásia Camargo, amiga minha e deles. A filha do Cesário que era muito chegada à avó, tinha ganhado um pequeno pássaro, que a mim figurava como uma maritaca branca. Afonso perguntou à neta sobre a calopsita e conversaram um tempo sobre o bicho. Aspásia virou para mim e disse: "Calopsita? Que pássaro é este que eu nunca ouvi falar?". Eu emendei logo: "Ô, Aspásia, isso aqui é casa dos Mello Franco. Tu queria que eles tivessem um papagaio, um canário, uma graúna?".
Afonso achou a maior graça. Como achou graça, aliás, do comentário que fiz, logo depois que o conheci, há uns quinze anos, em um almoço na casa de Cícero e Laura Sandroni. Todo o mundo cantando o bom e velho repertório da MPB, quando o Afonso, como muito boa voz, cantou "Chão de estrelas". Não resisti e lhe disse: "Eu precisava vir na casa do Cícero Sandroni para ouvir um Mello Franco dizer que a porta do barraco dele era sem trinco."
Ficamos amigos desde então e, quando entrei para o Pen Clube do Brasil, pedi-lhe que me recebesse. Fez-me uma belíssima saudação, falando bem de meus livros e de mim. Gostei tanto que, em 2008, quando entrei em lista das dez mulheres que se destacaram naquele ano, pedi a ele que repetisse a dose na sessão que se fez na ABL. A constante cordialidade de Afonso Arinos para comigo, a delicadeza de sempre enviar uma mensagem quando lê algo no jornal a meu respeito ou quando lê algum artigo meu, são definitivamente cativantes. Principalmente porque eu não faço o mesmo.
Recebo livros, bons livros, de amigos, de conhecidos ou de desconhecidos e esqueço ou demoro tanto a agradecer que devo ser detestada por muitos autores em vários lugares do mundo. Me pesam na consciência as tantas cartas e mensagens que recebi pelo correio e que ficaram sem resposta. O que me salvou da condenação universal foi a internet e a facilidade de responder a tudo no automático. O Facebook resolveu outro problema que é a data de aniversário dos amigos. Todos os que estão lá, são efusivamente parabenizados por mim.
Talvez por isto mesmo a amizade de Afonso Arinos filho me seja tão lisonjeira. Não deixo de pensar que é uma das famílias mais antigas do Brasil e que deixou sua marca na História. Desde o primeiro, cuja biograifa conheço, o médico maçom Francisco de Mello Franco, perseguido pelo Santo Ofício no final do século XVIII, passando pelo escritor Afonso Arinos e seu irmão, Afrânio, figura importante da política brasileira na República Velha. De Afonso Arinos, filho de Afrânio e pai deste outro Afonso Arinos que hoje é meu amigo, tenho toda obra reunida aqui em minha estante. Recorri à sua excelente biografia de Rodrigues Alves quando escrevi "Histórias de Presidentes". Só bem mais tarde li essa obra magistral que é "O índio brasileiro e a revolução". Outro livro dele que me tem sido útil é "Problemas políticos brasileiros". Mas, ultimamente é "O Constitucionalismo de D. Pedro I" que tem ocupado minhas atenções.
Creio que os Mello Franco são o que de mais próximo temos de uma nobreza brasileira. Depois da partida de D. João VI do Brasil, em 1821, foi que cientistas e homens de letras formados em Coimbra, como José Bonifácio de Andrada, que era, aliás, amigo de Francisco de Mello Franco, passaram a compor, como disse Antonio Candido, a aristocracia brasileira. E isto é prova de como nobreza é conceito amplo. Pode-se nascer nobre e ter alma de catraieiro. Pode-se nascer mendigo e ter os modos de um príncipe.
De modo que, a meu ver, a nobreza está em um determinado código de valores, associado a uma atitude diante da sociedade e da vida e a uma certa cultura. Penso, por exemplo, no profundo desprezo do poeta negro e pobre Cruz e Sousa pela turma de Bilac, com suas alegres reuniões burguesas. Ou nos modos reservados do mulato pobre Machado de Assis, que erguera-se muito acima da nobreza de seu tempo e que era cultuado por um Joaquim Nabuco. Se dá gosto acompanhar a trajetória de vida desses que venceram por si, também me parece bom louvar, nesta despedida da Bia Fontenelle de Mello Franco, uma família que se conservou culta, honrada e nobre ao longo de mais de dois séculos de história do Brasil.
Besteiras de amor (30/4/11)
Meu pai tinha um talento especial para descobrir gente boa para trabalhar para ele.
Não sei como fazia mas, ao longo de sua vida, teve alguns empregados que se ligaram a nós de tal maneira que passaram a fazer parte da família.
Ele os tratava bem, estimulava-lhes os estudos, a poupança, ajudava a comprar a casa, apadrinhava-lhes os filhos, dava-lhes conselhos nas horas difíceis, tinha uma relação cristã, pode-se dizer assim com as pessoas que trabalhavam para ele.
No sítio do Camará, em Aquiraz, incorporou toda a família do caseiro, seu Santana e deu à filha dele, Dalva, cabocla forte, solteirona e determinada o papel de administradora daquele pequeno e modesto emprendimento rural. Toda a família de seu Santana e mais alguns vizinhos, gente simples do sertão, participava da festa de Natal que todos os anos o papai promovia lá.
Lembro até hoje do dia em que a Zefinha, cabocla fanha, muito risonha, atravessou triunfal o alpendre em seu melhor vestido de chita, em meio aos demais convivas carregando uma cesta de ovos em uma mão e na outra, pela asa, uma bela galinha viva, presentes que trazia para o vizinho, compadre e amigo e que ele recebeu com muito gosto. No final da festa, o papai sempre falava umas palavras bonitas, dentro do espírito cristão que sempre orientou sua vida.
Exemplo que foi seguido pelo seu filho Carlos Efrem, o médico do coração, como é conhecido em Fortaleza, craque do diagnóstico. Não erra um. No Camará, durante os finais de semana, o Dr. Carlos Efrem, atende a toda a gente que o procura e encaminha para os hospitais, consegue medicamentos, ou apenas examina e conforta. Pois herdou do seu Costa essa paciência para ouvir e aconselhar. E muitas vezes é só disto que a pessoa precisa mesmo.
Papai gostava de dar palpite na vida de seu pessoal. Certamente deu palpite seguro para garantir o casamento do Antonio, seu motorista, com a Maria Farias, nossa irmã de criação. E deu depois palpite seguro para que comprassem a casa boa em que criaram os filhos e da qual só se desfizeram para comprar apartamento igualmente bom, ali bem em frente à pracinha do Colégio Militar.
Mas ele tinha opinião bem pouco romântica a respeito do casamento. E isto pude constatar quando a Sonia, filha da Raimunda que foi nossa empregada muitos anos lhe disse que tinha se separado do marido. A Sonia fora educada em colégio bom e graças ao empenho da Clélia tinha também um bom emprego. Casara com um rapaz de uma família de classe média e parecia que, com aquele casamento, se coroava o processo de ascensão social. De modo que o papai ficou muito desapontado em saber que ela tinha se separado e perguntou: "Mas porque se separou, se era um rapaz bom, de uma família boa?" Ela respondeu: "Acabou o amor". Papai fez um muxoxo e disse: "Mas já viu pobre com besteira de amor, menina?"
Acho a história engraçada mas acho que nessa parte da psicologia do pobre meu pai estava errado. Acho que o pobre é quem mais se liga nessa besteira do amor. Aliás, o comentário mais apropriado sobre o sentimento do pobre com relação ao amor me foi feito por uma antiga empregada. Admirada de ver pela televisão a naturalidade e a civilidade com que Marta Suplicy e o marido, o senador Eduardo Suplicy tinham se separado depois de um casamento de tantos anos ela comentou: "Pois é, gente rica é assim, separa, dá dois beijinhos e vai cada um para o seu lado. Pobre, não. Pobre não se conforma".
Eu achava muita graça em uma musiquinha de carnaval que ouvia na infancia e que dizia: "o amor é uma flor roxa que nasce no coração dos trouxas". Certamente composta por algum esperto que nunca foi trouxa o bastante para amar ou por algum trouxa que fez esta constatação depois de alguma desilusão amorosa.
De qualquer maneira pobre ou rico, todo o mundo precisa de amor. Mesmo que finja não ligar muito ou que não siga os rituais clássicos do cinema: flores, bombons, presentes e cartas. Cartas meu pai mandou muitas durante o noivado para minha mãe que morava na Paraíba enquanto ele vivia em Fortaleza. Mas presentes deu poucos. É que meu pai, homem de decisões radicais parou de dar presentes para minha mãe porque uma vez comprou-lhe um vestido que achara bonito e ela, ao receber, teria dito algo como: "mas não tinha azul?"
Eu também estou aqui penando há quase dez anos sem receber presente do Mario Bag pois uma vez, no meu aniversário ou dia dos namorados, ele me anunciou que havia comprado um presente sensacional, verdadeiro item de colecionador. Depois que ele chegou, eu e o Chico, que ainda era menino, fizemos uma cara de absoluta perplexidade quando vimos sair do pacote a estátua dos Três Patetas. É isto mesmo, o presente era uma estatueta em miniatura com os Três Patetas, aqueles do cinema, reunidos. Acho que era uma espécie de homenagem a nós três: eu, ele e o Chico mas na hora confesso que não entendi o espírito da coisa. Devo ter feito um ar de desapontamento e posto o presente de lado, logo depois. O Bag ficou muito magoado. O fato é que até hoje esse é o pretexto que ele utiliza para não me dar mais presentes.
Mas quem sabe no próximo dia 12 de junho ele não me faz uma surpresa? Só espero que desta vez, por vingança, ele não apareça com uma miniatura do Gordo e o Magro.
Não sei como fazia mas, ao longo de sua vida, teve alguns empregados que se ligaram a nós de tal maneira que passaram a fazer parte da família.
Ele os tratava bem, estimulava-lhes os estudos, a poupança, ajudava a comprar a casa, apadrinhava-lhes os filhos, dava-lhes conselhos nas horas difíceis, tinha uma relação cristã, pode-se dizer assim com as pessoas que trabalhavam para ele.
No sítio do Camará, em Aquiraz, incorporou toda a família do caseiro, seu Santana e deu à filha dele, Dalva, cabocla forte, solteirona e determinada o papel de administradora daquele pequeno e modesto emprendimento rural. Toda a família de seu Santana e mais alguns vizinhos, gente simples do sertão, participava da festa de Natal que todos os anos o papai promovia lá.
Lembro até hoje do dia em que a Zefinha, cabocla fanha, muito risonha, atravessou triunfal o alpendre em seu melhor vestido de chita, em meio aos demais convivas carregando uma cesta de ovos em uma mão e na outra, pela asa, uma bela galinha viva, presentes que trazia para o vizinho, compadre e amigo e que ele recebeu com muito gosto. No final da festa, o papai sempre falava umas palavras bonitas, dentro do espírito cristão que sempre orientou sua vida.
Exemplo que foi seguido pelo seu filho Carlos Efrem, o médico do coração, como é conhecido em Fortaleza, craque do diagnóstico. Não erra um. No Camará, durante os finais de semana, o Dr. Carlos Efrem, atende a toda a gente que o procura e encaminha para os hospitais, consegue medicamentos, ou apenas examina e conforta. Pois herdou do seu Costa essa paciência para ouvir e aconselhar. E muitas vezes é só disto que a pessoa precisa mesmo.
Papai gostava de dar palpite na vida de seu pessoal. Certamente deu palpite seguro para garantir o casamento do Antonio, seu motorista, com a Maria Farias, nossa irmã de criação. E deu depois palpite seguro para que comprassem a casa boa em que criaram os filhos e da qual só se desfizeram para comprar apartamento igualmente bom, ali bem em frente à pracinha do Colégio Militar.
Mas ele tinha opinião bem pouco romântica a respeito do casamento. E isto pude constatar quando a Sonia, filha da Raimunda que foi nossa empregada muitos anos lhe disse que tinha se separado do marido. A Sonia fora educada em colégio bom e graças ao empenho da Clélia tinha também um bom emprego. Casara com um rapaz de uma família de classe média e parecia que, com aquele casamento, se coroava o processo de ascensão social. De modo que o papai ficou muito desapontado em saber que ela tinha se separado e perguntou: "Mas porque se separou, se era um rapaz bom, de uma família boa?" Ela respondeu: "Acabou o amor". Papai fez um muxoxo e disse: "Mas já viu pobre com besteira de amor, menina?"
Acho a história engraçada mas acho que nessa parte da psicologia do pobre meu pai estava errado. Acho que o pobre é quem mais se liga nessa besteira do amor. Aliás, o comentário mais apropriado sobre o sentimento do pobre com relação ao amor me foi feito por uma antiga empregada. Admirada de ver pela televisão a naturalidade e a civilidade com que Marta Suplicy e o marido, o senador Eduardo Suplicy tinham se separado depois de um casamento de tantos anos ela comentou: "Pois é, gente rica é assim, separa, dá dois beijinhos e vai cada um para o seu lado. Pobre, não. Pobre não se conforma".
Eu achava muita graça em uma musiquinha de carnaval que ouvia na infancia e que dizia: "o amor é uma flor roxa que nasce no coração dos trouxas". Certamente composta por algum esperto que nunca foi trouxa o bastante para amar ou por algum trouxa que fez esta constatação depois de alguma desilusão amorosa.
De qualquer maneira pobre ou rico, todo o mundo precisa de amor. Mesmo que finja não ligar muito ou que não siga os rituais clássicos do cinema: flores, bombons, presentes e cartas. Cartas meu pai mandou muitas durante o noivado para minha mãe que morava na Paraíba enquanto ele vivia em Fortaleza. Mas presentes deu poucos. É que meu pai, homem de decisões radicais parou de dar presentes para minha mãe porque uma vez comprou-lhe um vestido que achara bonito e ela, ao receber, teria dito algo como: "mas não tinha azul?"
Eu também estou aqui penando há quase dez anos sem receber presente do Mario Bag pois uma vez, no meu aniversário ou dia dos namorados, ele me anunciou que havia comprado um presente sensacional, verdadeiro item de colecionador. Depois que ele chegou, eu e o Chico, que ainda era menino, fizemos uma cara de absoluta perplexidade quando vimos sair do pacote a estátua dos Três Patetas. É isto mesmo, o presente era uma estatueta em miniatura com os Três Patetas, aqueles do cinema, reunidos. Acho que era uma espécie de homenagem a nós três: eu, ele e o Chico mas na hora confesso que não entendi o espírito da coisa. Devo ter feito um ar de desapontamento e posto o presente de lado, logo depois. O Bag ficou muito magoado. O fato é que até hoje esse é o pretexto que ele utiliza para não me dar mais presentes.
Mas quem sabe no próximo dia 12 de junho ele não me faz uma surpresa? Só espero que desta vez, por vingança, ele não apareça com uma miniatura do Gordo e o Magro.
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