Meu pai tinha um talento especial para descobrir gente boa para trabalhar para ele.
Não sei como fazia mas, ao longo de sua vida, teve alguns empregados que se ligaram a nós de tal maneira que passaram a fazer parte da família.
Ele os tratava bem, estimulava-lhes os estudos, a poupança, ajudava a comprar a casa, apadrinhava-lhes os filhos, dava-lhes conselhos nas horas difíceis, tinha uma relação cristã, pode-se dizer assim com as pessoas que trabalhavam para ele.
No sítio do Camará, em Aquiraz, incorporou toda a família do caseiro, seu Santana e deu à filha dele, Dalva, cabocla forte, solteirona e determinada o papel de administradora daquele pequeno e modesto emprendimento rural. Toda a família de seu Santana e mais alguns vizinhos, gente simples do sertão, participava da festa de Natal que todos os anos o papai promovia lá.
Lembro até hoje do dia em que a Zefinha, cabocla fanha, muito risonha, atravessou triunfal o alpendre em seu melhor vestido de chita, em meio aos demais convivas carregando uma cesta de ovos em uma mão e na outra, pela asa, uma bela galinha viva, presentes que trazia para o vizinho, compadre e amigo e que ele recebeu com muito gosto. No final da festa, o papai sempre falava umas palavras bonitas, dentro do espírito cristão que sempre orientou sua vida.
Exemplo que foi seguido pelo seu filho Carlos Efrem, o médico do coração, como é conhecido em Fortaleza, craque do diagnóstico. Não erra um. No Camará, durante os finais de semana, o Dr. Carlos Efrem, atende a toda a gente que o procura e encaminha para os hospitais, consegue medicamentos, ou apenas examina e conforta. Pois herdou do seu Costa essa paciência para ouvir e aconselhar. E muitas vezes é só disto que a pessoa precisa mesmo.
Papai gostava de dar palpite na vida de seu pessoal. Certamente deu palpite seguro para garantir o casamento do Antonio, seu motorista, com a Maria Farias, nossa irmã de criação. E deu depois palpite seguro para que comprassem a casa boa em que criaram os filhos e da qual só se desfizeram para comprar apartamento igualmente bom, ali bem em frente à pracinha do Colégio Militar.
Mas ele tinha opinião bem pouco romântica a respeito do casamento. E isto pude constatar quando a Sonia, filha da Raimunda que foi nossa empregada muitos anos lhe disse que tinha se separado do marido. A Sonia fora educada em colégio bom e graças ao empenho da Clélia tinha também um bom emprego. Casara com um rapaz de uma família de classe média e parecia que, com aquele casamento, se coroava o processo de ascensão social. De modo que o papai ficou muito desapontado em saber que ela tinha se separado e perguntou: "Mas porque se separou, se era um rapaz bom, de uma família boa?" Ela respondeu: "Acabou o amor". Papai fez um muxoxo e disse: "Mas já viu pobre com besteira de amor, menina?"
Acho a história engraçada mas acho que nessa parte da psicologia do pobre meu pai estava errado. Acho que o pobre é quem mais se liga nessa besteira do amor. Aliás, o comentário mais apropriado sobre o sentimento do pobre com relação ao amor me foi feito por uma antiga empregada. Admirada de ver pela televisão a naturalidade e a civilidade com que Marta Suplicy e o marido, o senador Eduardo Suplicy tinham se separado depois de um casamento de tantos anos ela comentou: "Pois é, gente rica é assim, separa, dá dois beijinhos e vai cada um para o seu lado. Pobre, não. Pobre não se conforma".
Eu achava muita graça em uma musiquinha de carnaval que ouvia na infancia e que dizia: "o amor é uma flor roxa que nasce no coração dos trouxas". Certamente composta por algum esperto que nunca foi trouxa o bastante para amar ou por algum trouxa que fez esta constatação depois de alguma desilusão amorosa.
De qualquer maneira pobre ou rico, todo o mundo precisa de amor. Mesmo que finja não ligar muito ou que não siga os rituais clássicos do cinema: flores, bombons, presentes e cartas. Cartas meu pai mandou muitas durante o noivado para minha mãe que morava na Paraíba enquanto ele vivia em Fortaleza. Mas presentes deu poucos. É que meu pai, homem de decisões radicais parou de dar presentes para minha mãe porque uma vez comprou-lhe um vestido que achara bonito e ela, ao receber, teria dito algo como: "mas não tinha azul?"
Eu também estou aqui penando há quase dez anos sem receber presente do Mario Bag pois uma vez, no meu aniversário ou dia dos namorados, ele me anunciou que havia comprado um presente sensacional, verdadeiro item de colecionador. Depois que ele chegou, eu e o Chico, que ainda era menino, fizemos uma cara de absoluta perplexidade quando vimos sair do pacote a estátua dos Três Patetas. É isto mesmo, o presente era uma estatueta em miniatura com os Três Patetas, aqueles do cinema, reunidos. Acho que era uma espécie de homenagem a nós três: eu, ele e o Chico mas na hora confesso que não entendi o espírito da coisa. Devo ter feito um ar de desapontamento e posto o presente de lado, logo depois. O Bag ficou muito magoado. O fato é que até hoje esse é o pretexto que ele utiliza para não me dar mais presentes.
Mas quem sabe no próximo dia 12 de junho ele não me faz uma surpresa? Só espero que desta vez, por vingança, ele não apareça com uma miniatura do Gordo e o Magro.
KKKKK
ResponderExcluirLindo lindo seu texto Bel
Um prazer lê-lo. Seu pai me lembra algumas pessoas, infelizmente, muito poucas. Quem dera mais como ele, mesmo que tivessem esta idéia de amor meio torta.
Parabéns!
Muito legal Isabel.
ResponderExcluirPô! O Gordo e o Magro me deixariam bem feliz! Sem dúvida preferiria os irmãos Marx (só o Grouxo ou só o Harpo já estariam de bom tamanho); esses me levariam ao êxtase, e preocupadíssima sem saber como retribuir...
ResponderExcluirWell, é bem verdade que sou mega fã dos comediantes (ao ponto de casar com um), e mega boba-do-amor... Preciso começar a medir a qualidade dos meus presentes com urgência... Bjs!
Obrigada, queridos amigos. é bom receber este retorno. beijo grande!
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