Montmartre (28/5/11)

O artista que mais me fascinava quando, mocinha ainda, eu pensava em ser pintora, era Henri de Toulouse-Lautrec. Creio que não soube logo das circunstâncias peculiares de sua vida. Mas depois de conhecer a sua biografia, muito do que eu gostava em seus quadros ganhou outra dimensão. O pai de Lautrec pertencia a uma família da mais alta nobreza da França e ele passou a infância em um castelo sob os cuidados de uma mãe dedicada que o amou e amparou até o final de seus dias. Ainda menino, Lautrec foi vítima de dois acidentes que, prejudicando o crescimento de suas pernas, fizeram dele, na idade adulta, uma figura desproporcional, bizarra, quase caricata. Talvez por essa inadequação ao mundo correto e elegante em que nascera, seu talento precoce para a arte o tenha levado, na juventude, a se deslumbrar pelo submundo de Montmartre. A vida de Lautrec foi, assim, sempre marcada pelo signo da decadência que se refletiria em sua admirável obra.

Em minhas primeiras e depois abandonadas incursões pela pintura a óleo, onde predominavam os tons "terra", eu preferia, como Lautrec e Degas, os ambientes íntimos e sombrios. Talvez porque Van Gogh e sua loucura fossem um pouco demais para mim. Fascinante mas inatingível. Ou talvez porque em Lautrec e Degas estava a Paris que aprendera a amar na literatura francesa do século XIX e nas páginas da qual passei quase toda a minha adolescência mergulhada. Daí que desenvolvi aquela irresistível atração pela decadência tão característica daquela forma de viver a juventude dos romances. Os ambientes sombrios e viciosos, as vidas e talentos que se desfaziam na bebedeira, a velhice solitária e miserável, os submundos das cidades: universos mágicos, estranhos e desconhecidos, talvez, por isso mesmo, tão fascinantes e que eu tentava transpor para os meus óleos de principiante. "O absinto", quadro de Degas, pintor que, ao lado de Van Gogh, era o artista mais admirado por Lautrec, até hoje me impressiona por tudo que diz, insinua e cala.

Eles formam, aliás, o meu trio de ouro das artes, jamais superado. Eu gostava, sobretudo, de imitar Toulouse-Lautrec, o humor meio amargo dos seus personagens e de seus ambientes. Queria pintar como Lautrec, desenhar como ele e, certamente, viver como ele, compartilhando um pouco de seu fatídico destino. Sem perceber, talvez, que seu olhar era o olhar privilegiado do espectador masculino sobre aquele mundo. Era o lugar em que estava, de homem e de um homem que, talvez por seu frágil aspecto físico, podia frequentar livremente o interior dos boudoirs de Montmartre que lhe possibilitaram ver e representar as coisas daquele modo.

Daí a naturalidade com que Lautrec pintava a nudez daquelas mulheres; as cenas de amor lesbiano ou de terna amizade que flagrou entre elas, mas também a profunda melancolia no divã vermelho em que esperam pelos clientes que as escolherão. E tudo isso a fazer contraste com as cenas de frenética euforia das dançarinas de can-can no "Moulin Rouge"; a animação das mesas e dos bares; a movimentação nos salões dos cabarés. Não eram bonitas as mulheres do Lautrec. Muitas pareciam velhas, gordas e cansadas. Estavam longe do estereótipo de beleza feminina que já predominava nos anos 1950 e 1970. Mas nada disso importava. O que importava era o tanto que aquelas cenas provocavam a imaginação.

A glamourização da mais antiga profissão do mundo deve muito à arte e a literatura francesa do século XIX. Décadas antes de Toulouse-Lautrec, "A dama das camélias" (1842), de Alexandre Dumas, cantou o amor impossível entre o rapaz de boa família, Armand Durval, destinado a uma carreira de sucesso, e uma cortesã de alto coturno, Marguerite Gautier. O drama se centra no sacrifício de Marguerite, que renuncia ao amor de Armand para não inviabilizar o futuro do amado. Seu sacrifício aliás, consiste em fingir ser, na verdade, o estereótipo da mundana que só buscava o luxo e o prazer.

Fantine, a mãe de Cosette, em "Os miseráveis" (1862), de Victor Hugo, se move em outro estrato, mostrando a prostituição como final do processo de decadência da moça honesta seduzida e abandonada. Hugo, aliás, proporciona ali a cena mais dramática do gênero. Aquela em que um dândi, só por diversão, coloca uma bola de neve no decote de uma Fantine, já em final de carreira, feia, desdentada e tuberculosa, fazendo a vida para sustentar a filha. Creio que na literatura brasileira do século XIX, o conservador Alencar foi quem mais se aproximou desse modelo. Alencar foi até bastante ousado ao representar em "Lucíola" uma prostituta em plena orgia, entornando de uma vez só uma garrafa de champanhe e em, seguida, sobre uma mesa, semi-nua, em dança sensualíssima.

O lugar da perdição no Rio foi, ao longo de boa parte do século XX, a Lapa, batizada, aliás, por Luís Martins, de "Montmartre carioca". Nas suas "rues chaudes" - Conde de Lage, Taylor e Joaquim Silva - ficavam os bordéis mais frequentados do Rio de Janeiro da primeira metade dos século XX. A vida que viveram ali poetas, artistas, compositores e escritores foi fonte fecunda de inspiração. Resultando dela - tomo a liberdade de concluir essas mal-traçadas citando acima do texto que fiz para a "Lapa do Desterro e do desvario: uma antologia" (Casa da Palavra, 2000) - uma arte que, como a pintura de Lautrec, "tem o sabor amargo que fica na boca da bebida da véspera; tem a morrinha dos quartos das hospedarias de solteiros; tem o cheiro azedo da roupa de cama suja pelo amor de alta rotatividade, e guarda a dolorosa visão da borrada maquiagem de véspera no rosto precocemente envelhecido das mulheres".

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