Te entrega corisco!/Eu não me entrego não./Eu não sou passarinho prá viver lá na prisão, Só me entrego na morte de parabélum na mão (Sergio Ricardo)
Acho que foi graças ao Beto, (Luís Roberto Vieira Costa) meu colega no cursinho do Farias Brito, que ouvi pela primeira vez esta canção. O tio dele, Valmik, tinha o LP com a trilha sonora de "Deus e o diabo na terra do sol" e a gente tanto ouviu que aprendeu todas. Inteligente, bem informado, com um extraordinário senso de humor, o Beto conhecia as canções de "Deus e o diabo" como também, creio eu, o roteiro do filme. Pois foi dele a ideia de encenarmos no sertão do Ceará uma peça baseada no mesmo roteiro. A apresentação seria em Madalena, distrito de Quixeramobim e sua terra natal. Os atores éramos eu, meu irmão, Fred e creio que a Clélia e a Vevé, Tereza Verônica, irmã do Beto, também participavam. Não me lembro de uma só palavra do tal roteiro por isso desconfio que não houve ensaio. Fizemos sim umas fotos, caracterizados de cangaceiros. Fred, então muito magro, vestido com um hábito de franciscano, fazia o papel de Antonio Conselheiro.
Houve uma apresentação, é certo. Mas tenho certeza que o povo de Madalena não conseguiu ouvir nem ver nada e também tenho a impressão de que nossa única incursão nas artes cênicas foi um retumbante fracasso. O elenco, canhestro, ficou completamente mudo e paralisado diante da plateia, bastante reduzida, que não tinha a menor ideia do que se tratava no palco. Dessa viagem só restaram umas poucos fotos e muitas boas lembranças em que se misturam as canções de Sergio Ricardo e as imagens do interior do Ceará.
Em Madalena tomei contato com aquela paisagem árida do sertão cearense. Terra de barro vermelho, sem nada em volta e que, na sombra das poucas árvores se experimenta um frescor incomparável. Era tudo muito seco no entorno da vilinha de poucas casas, umas de frente para as outras e umas poucas mais afastadas, esparsas. Numa delas viviam os pais do Beto. Ali tomei o melhor café, coado com canela e adoçado com rapadura, feito pela mãe dele. E em alguma casa vizinha comi doce feito de sangue de porco. Uma iguaria especialíssima, tão forte e tão gordurosa que hoje seria impossível de encarar.
Conheci ali um sujeito muito engraçado chamado Nemésio, o fotógrafo da cidade. Lembro até hoje da anedota que me contou. Disse que estava uma vez em Fortaleza, na praça José de Alencar, parou junto a um ambulante, comprou um pedaço de bolo e começou a comer ali mesmo. Apareceu então um conterrâneo que o criticou: "Mas, Nemésio, você comendo bolo no meio da rua, aqui, em plena Praça José de Alencar?". Ao que ele respondeu: "Havia bem de comprar um casa em Fortaleza só para comer bolo dentro dela..."
Foi a minha primeira viagem ao sertão da minha terra e de lá para cá não me lembro de nenhuma outra. O sertão que eu conheço é mais o das narrativas literárias do que o da experiência vivida. O sertão de "Morte e vida Severina" que vi na adolescência duzentas vezes em uma montagem no antigo teatro da EMCETUR, com o Bartolomeu no papel principal e creio que com um elenco que tinha também Olga Paiva. O sertão de Canudos e do Juazeiro que conheci apenas por causa de um trabalho de curso feito no primeiro ano da faculdade, na UFC, em torno de parte de "Os sertões", de Euclides da Cunha e, principalmente, do livro de Rui Facó, "Cangaceiros e Fanáticos".
Agora que tenho me interessado pelo tema me voltaram à lembrança todas essas fontes de inspiração e as imagens daquela viagem única e inesquecível. Viagem e experiência que me proporcionaram também o primeiro contato com o cangaço, assunto este que, como para todo o mundo de minha geração, foi conhecido assim dessa forma romantizada, poetizada pelas canções do disco de Sergio Ricardo. À estrofe que serve de epígrafe a este artigo seguia-se outra que dizia: "O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão. Está contada a minha história verdade-imaginação eu espero que o senhor tenha tomado uma lição que assim mal dividido este mundo anda errado que a terra é do homem não é de Deus\nem do diabo".
"Mais fortes são os poderes do povo!", era a frase exclamada no final da canção. E daquela mélange de elementos com que Glauber constituiu sua narrativa tão confusa, faziam parte tanto o misticismo popular, inspirado em Antonio Conselheiro quanto o cangaço, onde o herói guerreiro era Corisco. O misticismo levava ao conformismo e à inação. O mundo andava mal dividido e cabia a sertanejos como Corisco consertá-lo pela violência.
Só agora, fiquei sabendo um pouco mais sobre Corisco. Para se ter uma ideia de quem ele era basta que se diga que o então governador da Bahia, Juraci Magalhães conseguiu finalmente obter recursos para dar combate ao cangaço quando circulou no sudeste a historia da morte do delegado da vila de Santa Rosa, interior da Bahia, Herculano Borges. No dia 22 de setembro de 1931, Corisco capturou o delegado, pendurou-o pelos pés numa vara e com ele ainda vivo, retirou sua pele do corpo. Depois cortou-lhe as mãos, os pés e as orelhas, esquartejou-o e enfiou as várias partes do seu corpo em estacas.
Não sei que crimes terá cometido o delegado Herculano Borges, mas um sujeito como Corisco que conseguiu perpetrar ação tão bárbara, tão cruel e tão desprovida de humanidade contra outro, não merecia ter figurado como herói da minha juventude. Nada tira a beleza e o encanto da música de Sergio Ricardo, do qual continuo a ser fã. Não só nesse seu primeiro disco que conheci como na trilha sonora do seu lindo filme "Juliana do Amor Perdido". Essas coisas fazem parte da minha bagagem afetiva. Bagagem que, no entanto, na hora de contar a história como de fato aconteceu é preciso deixar de lado.
Heróis e bandidos (15/10/11)
Publiquei há pouco um livro sobre Lampião. Obra que me foi encomendada para uma coleção organizada por Lilia Schawrcz e Lúcia Garcia. A ideia da coleção é convidar escritores, jornalistas e historiadores para traçarem perfis de personagens da história do Brasil, contextualizando-os e propondo no final, alguma atividades a serem desenvolvidas em sala de aula pelo professor. Enfim, um livro paradidático que seja também agradável e útil para qualquer leitor que se interesse pelo assunto.
Há muito tempo eu tinha pensado em escrever um livro para crianças sobre Lampião partindo da história que mamãe me contou sobre a invasão de Cajazeiras na Paraíba. A história era muito boa, pois entre sustos e tiros, os cajazeirenses protegeram seus bens e suas famílias dos bandidos e enxotaram-nos da cidade. Mamãe sempre me dissera que, na verdade, o ataque fora levado a cabo por Sabino, cabra de lampião.
Quando me convidaram para escrever esse livro voltado para um público mais amplo, pensei em incluir a história que mamãe me contou. Ela tinha me dito que a invasão de cajazeiras tinha sido em 1928. Eu procurei e não achei nada sobre o assunto e, mais, vi que na data da suposta invasão, Sabino já tinha morrido.
Achei muita coisa sobre a invasão de Sousa, também na Paraíba e sobre o papel que Sabino desempenhara na mesma. Fiquei achando que mamãe se enganara, que com sua idade avançada talvez estivesse confundindo as histórias. Ou ainda, que o medo que toda a gente da Paraíba tinha dos cangaceiros era tão grande que a história que acontecera em Sousa passara a ser lembrada com tendo acontecido na própria cidade.
Mas foi aí que encontrei o livro do meu saudoso confrade de Sabadoyle, Ivan Bechara: "Carcará". Quando conheci o ex-governador da Paraíba e escritor Ivan Bechara na casa de Plínio Doyle, ele me disse que lembrava bem de mamãe e me deu um de seus livros. Não era "Carcará" e não me lembro se conversamos sobre aquele episódio nos poucos encontros que tivemos ali.
O romance dele relata minuciosamente a invasão, naturalmente incluindo elementos ficcionais. Está tudo lá e mamãe errara só na data: ela trocou o dia, 28, pelo ano, 26. De modo que mamãe tinha 12 anos e lembrava detalhadamente das sensações de pavor que tomou conta de Cajazeiras quando se soube que o bando tinha entrado na cidade. Sua irmã mais velha, Sinhá, tinha ido à igreja com os gêmeos recém-nascidos e ela ficara em casa junto com vovó Chaguinha, de resguardo, os irmãos mais novos e o pai, vovô Piano. Este queria a qualquer custo sair, mas foi convencido a ficar em casa por minha avó. O resto da história, com a corajosa e inteligente reação do povo de Cajazeiras ao ataque está muito bem contada no livro de Bechara.
Mas o que quero falar aqui é o que sempre soube e o que as pessoas da geração de minha mãe sabiam: os cangaceiros eram violentos, cruéis e impiedosos. E isto eu disse em meu livro sobre eles e sobre Lampião em particular. Não disse nada de novo. Em seu excelente livro sobre Lampião, publicado nos anos 1980, Billy Jane Chandler já havia refutado a tese de Hobsbawn sobre o banditismo social no que dizia respeito ao cangaço. Depois do livro de Chandler, inúmeros trabalhos foram publicados e, por mais entusiasta que se seja das teses sobre a necessidade da violência para mudar o mundo, essa extensa bibliografia já deveria ter consolidado a certeza de que não era de jeito nenhum o objetivo de Lampião mudar o mundo no sentido de melhorar a vida do pobre.
Lampião jamais roubou dos ricos para dar aos pobres, a muitos dos quais roubou, torturou e matou com requintes de crueldade. Sua motivação sempre foi pessoal e ele, desde a juventude, junto com os irmãos, se metera em várias brigas na vizinhança, fazendo seus primeiros inimigos entre essas pessoas às quais continuaria a perseguir pela vida afora.
De onde vem a crença de que esse bandido inteligente, astucioso e bom estrategista mas também violento e cruel era uma espécie de Robin Hood? Algumas pessoas que leram meu livro pareceram muito surpreendidas com essa constatação.
Estou convencida que esse mito foi construído no âmbito de uma certa cultura de esquerda que predominou no Brasil entre os anos 1950 e 1970. O fascínio por Lampião surgiu ainda durante o seu longo reinado. A imprensa sensacionalista, tal como ainda hoje faz com alguns bandidos, também contribuiu para fixar a imagem de Lampião, repercutindo seus crimes, batalhas e fugas mais impressionantes. Ela, junto com a literatura de cordel, ajudou a criar e a difundir toda a mítica que cercaria a imagem do cangaceiro rico, poderoso e invencível com o qual, certamente muitos moços pobres sonharam em se equiparar, vendo no cangaço uma chance de vitória sobre o triste destino que lhes estava reservado.
Mas foi só com a emergência da luta pela reforma agrária no final dos anos 1950, as famosas Ligas Camponesas, que o cangaço foi escolhido como símbolo maior da luta do povo sertanejo contra a opressão e a miséria. O herói redentor tinha que vir do meio do povo e, se a violência era o caminho legítimo para o sucesso da luta de classes, o cangaceiro tinha os elementos estéticos mais adequados para preencher a imagem daquele herói. A classe média urbana de esquerda com seu desconhecimento da realidade sertaneja sendo preenchido por imagens românticas da literatura, se traduziria em obras que buscaram sua lírica em elementos da paisagem da caatinga e em uma representação do sertanejo que era herdeira direta da descrição feita por Euclides da Cunha.
Se o sertanejo era antes de tudo um forte, concluía aquela gente bem intencionada, só podia ser com o objetivo de lutar pelos direitos de seu povo que ele se fazia cangaceiro. Quem ler com atenção a história de Virgulino Ferreira da Silva vai constatar que, infelizmente, não era bem assim.
Há muito tempo eu tinha pensado em escrever um livro para crianças sobre Lampião partindo da história que mamãe me contou sobre a invasão de Cajazeiras na Paraíba. A história era muito boa, pois entre sustos e tiros, os cajazeirenses protegeram seus bens e suas famílias dos bandidos e enxotaram-nos da cidade. Mamãe sempre me dissera que, na verdade, o ataque fora levado a cabo por Sabino, cabra de lampião.
Quando me convidaram para escrever esse livro voltado para um público mais amplo, pensei em incluir a história que mamãe me contou. Ela tinha me dito que a invasão de cajazeiras tinha sido em 1928. Eu procurei e não achei nada sobre o assunto e, mais, vi que na data da suposta invasão, Sabino já tinha morrido.
Achei muita coisa sobre a invasão de Sousa, também na Paraíba e sobre o papel que Sabino desempenhara na mesma. Fiquei achando que mamãe se enganara, que com sua idade avançada talvez estivesse confundindo as histórias. Ou ainda, que o medo que toda a gente da Paraíba tinha dos cangaceiros era tão grande que a história que acontecera em Sousa passara a ser lembrada com tendo acontecido na própria cidade.
Mas foi aí que encontrei o livro do meu saudoso confrade de Sabadoyle, Ivan Bechara: "Carcará". Quando conheci o ex-governador da Paraíba e escritor Ivan Bechara na casa de Plínio Doyle, ele me disse que lembrava bem de mamãe e me deu um de seus livros. Não era "Carcará" e não me lembro se conversamos sobre aquele episódio nos poucos encontros que tivemos ali.
O romance dele relata minuciosamente a invasão, naturalmente incluindo elementos ficcionais. Está tudo lá e mamãe errara só na data: ela trocou o dia, 28, pelo ano, 26. De modo que mamãe tinha 12 anos e lembrava detalhadamente das sensações de pavor que tomou conta de Cajazeiras quando se soube que o bando tinha entrado na cidade. Sua irmã mais velha, Sinhá, tinha ido à igreja com os gêmeos recém-nascidos e ela ficara em casa junto com vovó Chaguinha, de resguardo, os irmãos mais novos e o pai, vovô Piano. Este queria a qualquer custo sair, mas foi convencido a ficar em casa por minha avó. O resto da história, com a corajosa e inteligente reação do povo de Cajazeiras ao ataque está muito bem contada no livro de Bechara.
Mas o que quero falar aqui é o que sempre soube e o que as pessoas da geração de minha mãe sabiam: os cangaceiros eram violentos, cruéis e impiedosos. E isto eu disse em meu livro sobre eles e sobre Lampião em particular. Não disse nada de novo. Em seu excelente livro sobre Lampião, publicado nos anos 1980, Billy Jane Chandler já havia refutado a tese de Hobsbawn sobre o banditismo social no que dizia respeito ao cangaço. Depois do livro de Chandler, inúmeros trabalhos foram publicados e, por mais entusiasta que se seja das teses sobre a necessidade da violência para mudar o mundo, essa extensa bibliografia já deveria ter consolidado a certeza de que não era de jeito nenhum o objetivo de Lampião mudar o mundo no sentido de melhorar a vida do pobre.
Lampião jamais roubou dos ricos para dar aos pobres, a muitos dos quais roubou, torturou e matou com requintes de crueldade. Sua motivação sempre foi pessoal e ele, desde a juventude, junto com os irmãos, se metera em várias brigas na vizinhança, fazendo seus primeiros inimigos entre essas pessoas às quais continuaria a perseguir pela vida afora.
De onde vem a crença de que esse bandido inteligente, astucioso e bom estrategista mas também violento e cruel era uma espécie de Robin Hood? Algumas pessoas que leram meu livro pareceram muito surpreendidas com essa constatação.
Estou convencida que esse mito foi construído no âmbito de uma certa cultura de esquerda que predominou no Brasil entre os anos 1950 e 1970. O fascínio por Lampião surgiu ainda durante o seu longo reinado. A imprensa sensacionalista, tal como ainda hoje faz com alguns bandidos, também contribuiu para fixar a imagem de Lampião, repercutindo seus crimes, batalhas e fugas mais impressionantes. Ela, junto com a literatura de cordel, ajudou a criar e a difundir toda a mítica que cercaria a imagem do cangaceiro rico, poderoso e invencível com o qual, certamente muitos moços pobres sonharam em se equiparar, vendo no cangaço uma chance de vitória sobre o triste destino que lhes estava reservado.
Mas foi só com a emergência da luta pela reforma agrária no final dos anos 1950, as famosas Ligas Camponesas, que o cangaço foi escolhido como símbolo maior da luta do povo sertanejo contra a opressão e a miséria. O herói redentor tinha que vir do meio do povo e, se a violência era o caminho legítimo para o sucesso da luta de classes, o cangaceiro tinha os elementos estéticos mais adequados para preencher a imagem daquele herói. A classe média urbana de esquerda com seu desconhecimento da realidade sertaneja sendo preenchido por imagens românticas da literatura, se traduziria em obras que buscaram sua lírica em elementos da paisagem da caatinga e em uma representação do sertanejo que era herdeira direta da descrição feita por Euclides da Cunha.
Se o sertanejo era antes de tudo um forte, concluía aquela gente bem intencionada, só podia ser com o objetivo de lutar pelos direitos de seu povo que ele se fazia cangaceiro. Quem ler com atenção a história de Virgulino Ferreira da Silva vai constatar que, infelizmente, não era bem assim.
A lição da Montanha (8/10/11)
Em "A Montanha Mágica", Thomas Mann conta a história de Hans Castorp, jovem herdeiro de uma tradicional família de comerciantes de Hamburgo. Mann relata sua infância, a história de suas perdas e de como, a partir delas, a morte passara a ter um significado todo especial para ele. Castorp era fascinado pela história de sua família, mas não via sentido em seguir a mesma profissão que seus avós; respeitava o trabalho, mas não tinha paixão nem interesse por ele. Esse desanimo diante da vida prática provocou o pequeno mal-estar que o levou ao Sanatório de Berghof, em Davos, nos Alpes Suíços.
O sanatório, uma instituição médica típica daqueles tempos em que a tuberculose ainda fazia vítimas fatais, é lugar de isolamento, onde os doentes devem se deixar estar em repouso, como se em férias permanentes estivessem. A grande diferença entre a vida no sanatório e a vida na planície era a forma como se usava o tempo. A economia do tempo no sanatório estava diretamente associado a dois fatores: a proximidade da morte, vivenciada como fenômeno natural, inevitável, liberando, com isto, os vivos dos compromisso morais que normalmente regulavam sua ação no mundo e a rotina do próprio tratamento, onde o repouso obrigatório, a espera do nada acontecer nos dias que escorriam iguais viciava e corrompia os organismos acostumados à disciplina do trabalho.
Aos poucos, a alegre irresponsabilidade com que a morte é encarada no sanatório, a sensualidade que permeava as relações ali, envolvem Castorp. A doença se lhe revela como a grande liberadora dos instintos. Alheio aos apelos de um mundo que perdera, ou que mesmo, nunca tivera encanto e significado para si, ele experimentava códigos novos, atitudes diversas e até mesmo contrárias a tudo o que se permitiria lá embaixo. Na planície, vivera sob a pressão da honra, mas no sanatório concluía que, apesar da honra oferecer consideráveis vantagens, a vergonha não as tinha menores, e que as vantagens desta última eram quase ilimitadas.
O italiano Lodovico Settembrini se empenhará em arrancar Castorp da vida ociosa que levava no sanatório para devolvê-lo ao mundo do trabalho, ao que chama de valores universais da humanidade. Settembrini, exalta a razão e o iluminismo e apela para os brios germânicos de Castorp, realçando o caráter enérgico e fleumático do povo alemão. Para Castorp, no entanto, fleumático e enérgico soavam como frio, duro e cruel. A morte era um elemento de sua natureza pois aprendera cedo a viver com ela. A vida parecia-lhe mais digna quando diante dela nos conduzíamos como que diante da morte: com respeitoso silêncio e contenção. É este argumento que agita em defesa de sua inércia e de seu desencanto do mundo.
O discurso de Settembrini é um chamado à vida contra a morte: a morte é fenômeno racional, fisiologicamente necessário e simpático, perder um tempo excessivo com a sua contemplação é roubar à vida o que lhe cabe. Para Settembrini, a morte só faz sentido como parte, complemento, berço da vida e não contra a vida. Caberia ao espírito soberano, com sua vontade livre que é quem determina o mundo moral, conservá-la em seu lugar.
Um pensamento mais organizado que o de Hans Castorp se erguerá contra o ideário de Settembrini. É o do judeu jesuíta Leo Naphta. Naphta defenderá a morte contra a vida, a doença contra a saúde, a tirania contra a liberdade, a religião contra a ciência, o terror contra o progresso. A seu ver a ciência não ensinara aos homens o caminho da felicidade, ela não respondera às questões essenciais da existência, todas as fórmulas iluministas teriam fracassado. Naphta ataca aqueles que querem curar o homem, obrigá-lo a "voltar à natureza".
Se no mundo das ideias, Castorp hesitava entre esses dois titãs, no plano dos sentimentos quem alterava os seus sentido era a russa Clávdia Chuchat. Na paixão/fixação de Castorp pôr Clávdia repete-se uma dicotomia que persegue grandes personagens da galeria de Mann: o apolíneo e o dionisíaco que se debatiam na natureza do escritor alemão filho de mãe brasileira. Clávdia é o outro, o estrangeiro, o que fascina e assusta, o que seduz e causa repulsa. É, ao mesmo tempo, o lado obscuro da alma do artista, algo que ameaça a estrutura aparentemente sólida dos valores germânicos que, na verdade, estaria suspensa sobre uma base bastante frágil.
É nessa paixão viciosa, irracional e inexplicável pelo outro, é no amor, com suas ambiguidades, com suas angústias, com seu lado de redenção e de danação que Castorp achará a saída. Castorp descobre que o respeito à morte e ao passado, que dominava sua a alma, não deveria se confundir com o repúdio à vida e ao presente, não poderia orientar o futuro sem se confundir com impiedade. O terror, tal como preconizado por Naphta, é o avesso do amor, da bondade. O amor seria a única força viva capaz de enfrentar a morte, derrotar o terror. Só ele, e não a razão, seria mais forte do que a morte; só ele, e não a razão, inspiraria pensamentos bondosos.
Mann começou a escrever "A montanha mágica" antes da Primeira Guerra Mundial e concluiu-o depois. Não é possível afirmar que o livro expresse ou antecipe até mesmo a situação da Alemanha, mas certamente ele reflete uma crise na aplicação do ideário liberal que orientava a vida europeia até então. No entanto, se o autor apresenta uma imagem caricatural destes, através do italiano Setembrini, não faz retrato mais favorável da opção conservadora e anti-liberal de Naphta. O neo-idealismo de Mann se traduz na opção de Castorp pelo amor. O apelo aos valores de humanidade encontrava seu lugar num mundo em frangalhos em que, nem a razão nem a tradição davam as respostas. A resposta para Castorp só viria em meio á barbárie da guerra: era preciso entrar em contato com o horror que o entrechoque das duas opções provocara para concluir que nenhuma delas, sozinhas, seria capaz de iluminar o caminho da humanidade.
O sanatório, uma instituição médica típica daqueles tempos em que a tuberculose ainda fazia vítimas fatais, é lugar de isolamento, onde os doentes devem se deixar estar em repouso, como se em férias permanentes estivessem. A grande diferença entre a vida no sanatório e a vida na planície era a forma como se usava o tempo. A economia do tempo no sanatório estava diretamente associado a dois fatores: a proximidade da morte, vivenciada como fenômeno natural, inevitável, liberando, com isto, os vivos dos compromisso morais que normalmente regulavam sua ação no mundo e a rotina do próprio tratamento, onde o repouso obrigatório, a espera do nada acontecer nos dias que escorriam iguais viciava e corrompia os organismos acostumados à disciplina do trabalho.
Aos poucos, a alegre irresponsabilidade com que a morte é encarada no sanatório, a sensualidade que permeava as relações ali, envolvem Castorp. A doença se lhe revela como a grande liberadora dos instintos. Alheio aos apelos de um mundo que perdera, ou que mesmo, nunca tivera encanto e significado para si, ele experimentava códigos novos, atitudes diversas e até mesmo contrárias a tudo o que se permitiria lá embaixo. Na planície, vivera sob a pressão da honra, mas no sanatório concluía que, apesar da honra oferecer consideráveis vantagens, a vergonha não as tinha menores, e que as vantagens desta última eram quase ilimitadas.
O italiano Lodovico Settembrini se empenhará em arrancar Castorp da vida ociosa que levava no sanatório para devolvê-lo ao mundo do trabalho, ao que chama de valores universais da humanidade. Settembrini, exalta a razão e o iluminismo e apela para os brios germânicos de Castorp, realçando o caráter enérgico e fleumático do povo alemão. Para Castorp, no entanto, fleumático e enérgico soavam como frio, duro e cruel. A morte era um elemento de sua natureza pois aprendera cedo a viver com ela. A vida parecia-lhe mais digna quando diante dela nos conduzíamos como que diante da morte: com respeitoso silêncio e contenção. É este argumento que agita em defesa de sua inércia e de seu desencanto do mundo.
O discurso de Settembrini é um chamado à vida contra a morte: a morte é fenômeno racional, fisiologicamente necessário e simpático, perder um tempo excessivo com a sua contemplação é roubar à vida o que lhe cabe. Para Settembrini, a morte só faz sentido como parte, complemento, berço da vida e não contra a vida. Caberia ao espírito soberano, com sua vontade livre que é quem determina o mundo moral, conservá-la em seu lugar.
Um pensamento mais organizado que o de Hans Castorp se erguerá contra o ideário de Settembrini. É o do judeu jesuíta Leo Naphta. Naphta defenderá a morte contra a vida, a doença contra a saúde, a tirania contra a liberdade, a religião contra a ciência, o terror contra o progresso. A seu ver a ciência não ensinara aos homens o caminho da felicidade, ela não respondera às questões essenciais da existência, todas as fórmulas iluministas teriam fracassado. Naphta ataca aqueles que querem curar o homem, obrigá-lo a "voltar à natureza".
Se no mundo das ideias, Castorp hesitava entre esses dois titãs, no plano dos sentimentos quem alterava os seus sentido era a russa Clávdia Chuchat. Na paixão/fixação de Castorp pôr Clávdia repete-se uma dicotomia que persegue grandes personagens da galeria de Mann: o apolíneo e o dionisíaco que se debatiam na natureza do escritor alemão filho de mãe brasileira. Clávdia é o outro, o estrangeiro, o que fascina e assusta, o que seduz e causa repulsa. É, ao mesmo tempo, o lado obscuro da alma do artista, algo que ameaça a estrutura aparentemente sólida dos valores germânicos que, na verdade, estaria suspensa sobre uma base bastante frágil.
É nessa paixão viciosa, irracional e inexplicável pelo outro, é no amor, com suas ambiguidades, com suas angústias, com seu lado de redenção e de danação que Castorp achará a saída. Castorp descobre que o respeito à morte e ao passado, que dominava sua a alma, não deveria se confundir com o repúdio à vida e ao presente, não poderia orientar o futuro sem se confundir com impiedade. O terror, tal como preconizado por Naphta, é o avesso do amor, da bondade. O amor seria a única força viva capaz de enfrentar a morte, derrotar o terror. Só ele, e não a razão, seria mais forte do que a morte; só ele, e não a razão, inspiraria pensamentos bondosos.
Mann começou a escrever "A montanha mágica" antes da Primeira Guerra Mundial e concluiu-o depois. Não é possível afirmar que o livro expresse ou antecipe até mesmo a situação da Alemanha, mas certamente ele reflete uma crise na aplicação do ideário liberal que orientava a vida europeia até então. No entanto, se o autor apresenta uma imagem caricatural destes, através do italiano Setembrini, não faz retrato mais favorável da opção conservadora e anti-liberal de Naphta. O neo-idealismo de Mann se traduz na opção de Castorp pelo amor. O apelo aos valores de humanidade encontrava seu lugar num mundo em frangalhos em que, nem a razão nem a tradição davam as respostas. A resposta para Castorp só viria em meio á barbárie da guerra: era preciso entrar em contato com o horror que o entrechoque das duas opções provocara para concluir que nenhuma delas, sozinhas, seria capaz de iluminar o caminho da humanidade.
Amigos quase familiares (1/10/11)
Esta semana me ligou Maria Helena, neta de Pedro Ernesto Batista. Nos conhecemos desde o começo dos anos 1990 quando eu pensava em fazer minha tese de doutorado sobre o prefeito do Rio. Era em Ciência Política e eu ficara empolgada com a leitura do excelente livro de Michel Conniff. Cheguei mesmo a escrever um "paper" para um das cadeiras que cursava no antigo IUPERJ sobre a relação de Pedro Ernesto com Getúlio Vargas. Pedro Ernesto foi o cara que primeiro adotou as modernas técnicas de propaganda política e foi, no Brasil também um precursor do chamado populismo. Conceito e palavra de essência negativa com que implico pois acho que Pedro Ernesto e outros tantos tidos como populistas foram muito mais do que isto.
Maria Helena quer publicar um livro com imagens lindas Pedro Ernesto que fazem parte do álbum de família. Quer também que eu escreva algo, talvez até uma biografia, pois quando renunciei a tê-lo como tema de tese o fiz convencida de que, em termos de história política o livro do Conniff já tinha resolvido tudo e que o bom mesmo seria contar sua história. Mas, o problema é que hoje, meu Pedro é outro. Antecedendo a Pedro Ernesto, mais de cem anos: Pedro I e seu tempo a que tenho dedicado os meus estudos.
(...)
Também na semana passada falei por telefone com Eduardo de Brito e Cunha, queridíssimo amigo que este ano completou 90 anos de pura alegria e vitalidade. Nos conhecemos através do filho dele, Oscar Henrique, meu colega dos tempos de Museu da República e por causa do pai dele, o grande caricaturista J. Carlos. Eu também quis escrever um livro sobre J. Carlos pois, no primeiro livro que publiquei, "Histórias de Presidentes", a maior parte das caricaturas é deste artista genial. Projeto que também acabei abandonando pois quando me preparava para adotá-lo como tema, descobri a imprensa da Independência e nela mergulhei e nela estou até hoje mergulhada. No entanto, publiquei sobre J. Carlos meu primeiro artigo em revista estrangeira (1985) e, creio que nele elenquei os temas mais importantes a serem trabalhados em sua obra. Assim mesmo, como a história da caricatura é algo que faz parte da minha trajetória acadêmica e sobre ela sempre sou convidada a falar, J. Carlos segue comigo.
Mas o que segue também é a amizade de Eduardo de Brito e Cunha que, desde aqueles anos 1980, quando pedi autorização para usar os desenhos de seu pai em meu livro, se tornou meu amigo. De vez em quando ele me liga para me consultar, vejam só, sobre pessoas que lhe pedem autorização para usar desenhos de J. Carlos. Aí conversamos longamente pois pouco vou a Petrópolis onde ele vive numa linda casinha, cujas paredes são cobertas de desenhos originais do grande artista. A casa de Eduardo é um verdadeiro templo dedicado à memória de J. Carlos e sua vida, desde que se aposentou do Banco do Brasil, não tem tido outro objetivo senão o de conservar o precioso acervo e atender aos que precisam consultá-lo.
(...)
Já não vou mais falar com Aparecida Saramago, bela, elegante e delicada filha de José Madeira de Freitas, o Mendes Fradique. Aparecida morreu há poucos anos vítima de um câncer contra o qual lutou bravamente. Era ainda jovem para os padrões atuais, creio que tinha uns 70 anos. Conservava a beleza na pele muito alva, nos olhos muito claros, no nariz muito afilado e no porte delgado, altivo e bem proporcionado.
Nos conhecemos quando, depois de descobrir a "História do Brasil pelo método confuso" de Mendes Fradique, na biblioteca do Museu da República, eu ficara tão obcecada por ele que correra todos os sebos do Rio de Janeiro atrás de outras obras do autor. Em um deles, creio que no do seu Santana, na Marechal Floriano, o próprio me contou que o conhecera e onde ele morava, informando também que sua viúva ainda vivia. Fui bater lá na Tijuca, na casinha da rua Carlos de Laet, onde conheci, d. Maria Tereza, a velhinha mais bonitinha que já vi e sua filha, Aparecida. A acolhida foi carinhosa e elas ficaram muito contentes de saber do meu interesse por Madeira de Freitas, cuja vida alegre tinha terminado de maneira tão triste.
Demorei anos para escrever minha dissertação de mestrado e, neste meio tempo, morreu dona Maria Tereza, mas a amizade com Aparecida ficou. O livro foi publicado em 1992 e, no ano seguinte eu ainda consegui realizar uma enorme exposição sobre Mendes Fradique no BNDES. Aparecida ficou muito grata pois era o resgate da memória do pai que se achava esquecida. Ela dizia que eu era a filha mais nova de Mendes Fradique e fez questão de doar o pouco que restava de seus papéis ao Arquivo Museu de Literatura da Casa de Rui Barbosa.
(...)
Também nunca mais vou falar com D. Iracema, a viúva do Nássara. Ela viveu uns poucos anos depois da morte dele e nossa amizade fora construída nas visitas que fiz ao Nássara em seu pequeno apartamento na rua Belisário Távora em Laranjeiras. D. Iracema era uma velhinha pequena, muito doce e muito gentil. Ao contrário do Nássara, cuja surdez tornava um tanto irritadiço, era de uma paciência infinita, talvez até para contrabalançar. Quando, depois da morte de Nássara, publiquei sua biografia, escrevi um capítulo sobre D. Iracema.
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Esses amigos feitos a partir da comunhão de afetos por um personagem - do meu lado afeto intelectual, do lado deles afeto familiar - acabaram se tornando de certa forma, meus parentes. Estamos juntos em todos os eventos que dizem respeito ao nosso morto querido; zelamos pela sua memória; nos injuriamos contra os que a desrespeitam e compartilhamos informações sobre qualquer documento novo que desconhecíamos e que é revelado por alguém de fora da "família". São ligações preciosas e tocantes que dizem muito sobre as infinitas formas que a amizade pode assumir.
Maria Helena quer publicar um livro com imagens lindas Pedro Ernesto que fazem parte do álbum de família. Quer também que eu escreva algo, talvez até uma biografia, pois quando renunciei a tê-lo como tema de tese o fiz convencida de que, em termos de história política o livro do Conniff já tinha resolvido tudo e que o bom mesmo seria contar sua história. Mas, o problema é que hoje, meu Pedro é outro. Antecedendo a Pedro Ernesto, mais de cem anos: Pedro I e seu tempo a que tenho dedicado os meus estudos.
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Também na semana passada falei por telefone com Eduardo de Brito e Cunha, queridíssimo amigo que este ano completou 90 anos de pura alegria e vitalidade. Nos conhecemos através do filho dele, Oscar Henrique, meu colega dos tempos de Museu da República e por causa do pai dele, o grande caricaturista J. Carlos. Eu também quis escrever um livro sobre J. Carlos pois, no primeiro livro que publiquei, "Histórias de Presidentes", a maior parte das caricaturas é deste artista genial. Projeto que também acabei abandonando pois quando me preparava para adotá-lo como tema, descobri a imprensa da Independência e nela mergulhei e nela estou até hoje mergulhada. No entanto, publiquei sobre J. Carlos meu primeiro artigo em revista estrangeira (1985) e, creio que nele elenquei os temas mais importantes a serem trabalhados em sua obra. Assim mesmo, como a história da caricatura é algo que faz parte da minha trajetória acadêmica e sobre ela sempre sou convidada a falar, J. Carlos segue comigo.
Mas o que segue também é a amizade de Eduardo de Brito e Cunha que, desde aqueles anos 1980, quando pedi autorização para usar os desenhos de seu pai em meu livro, se tornou meu amigo. De vez em quando ele me liga para me consultar, vejam só, sobre pessoas que lhe pedem autorização para usar desenhos de J. Carlos. Aí conversamos longamente pois pouco vou a Petrópolis onde ele vive numa linda casinha, cujas paredes são cobertas de desenhos originais do grande artista. A casa de Eduardo é um verdadeiro templo dedicado à memória de J. Carlos e sua vida, desde que se aposentou do Banco do Brasil, não tem tido outro objetivo senão o de conservar o precioso acervo e atender aos que precisam consultá-lo.
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Já não vou mais falar com Aparecida Saramago, bela, elegante e delicada filha de José Madeira de Freitas, o Mendes Fradique. Aparecida morreu há poucos anos vítima de um câncer contra o qual lutou bravamente. Era ainda jovem para os padrões atuais, creio que tinha uns 70 anos. Conservava a beleza na pele muito alva, nos olhos muito claros, no nariz muito afilado e no porte delgado, altivo e bem proporcionado.
Nos conhecemos quando, depois de descobrir a "História do Brasil pelo método confuso" de Mendes Fradique, na biblioteca do Museu da República, eu ficara tão obcecada por ele que correra todos os sebos do Rio de Janeiro atrás de outras obras do autor. Em um deles, creio que no do seu Santana, na Marechal Floriano, o próprio me contou que o conhecera e onde ele morava, informando também que sua viúva ainda vivia. Fui bater lá na Tijuca, na casinha da rua Carlos de Laet, onde conheci, d. Maria Tereza, a velhinha mais bonitinha que já vi e sua filha, Aparecida. A acolhida foi carinhosa e elas ficaram muito contentes de saber do meu interesse por Madeira de Freitas, cuja vida alegre tinha terminado de maneira tão triste.
Demorei anos para escrever minha dissertação de mestrado e, neste meio tempo, morreu dona Maria Tereza, mas a amizade com Aparecida ficou. O livro foi publicado em 1992 e, no ano seguinte eu ainda consegui realizar uma enorme exposição sobre Mendes Fradique no BNDES. Aparecida ficou muito grata pois era o resgate da memória do pai que se achava esquecida. Ela dizia que eu era a filha mais nova de Mendes Fradique e fez questão de doar o pouco que restava de seus papéis ao Arquivo Museu de Literatura da Casa de Rui Barbosa.
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Também nunca mais vou falar com D. Iracema, a viúva do Nássara. Ela viveu uns poucos anos depois da morte dele e nossa amizade fora construída nas visitas que fiz ao Nássara em seu pequeno apartamento na rua Belisário Távora em Laranjeiras. D. Iracema era uma velhinha pequena, muito doce e muito gentil. Ao contrário do Nássara, cuja surdez tornava um tanto irritadiço, era de uma paciência infinita, talvez até para contrabalançar. Quando, depois da morte de Nássara, publiquei sua biografia, escrevi um capítulo sobre D. Iracema.
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Esses amigos feitos a partir da comunhão de afetos por um personagem - do meu lado afeto intelectual, do lado deles afeto familiar - acabaram se tornando de certa forma, meus parentes. Estamos juntos em todos os eventos que dizem respeito ao nosso morto querido; zelamos pela sua memória; nos injuriamos contra os que a desrespeitam e compartilhamos informações sobre qualquer documento novo que desconhecíamos e que é revelado por alguém de fora da "família". São ligações preciosas e tocantes que dizem muito sobre as infinitas formas que a amizade pode assumir.
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