A lição da Montanha (8/10/11)

Em "A Montanha Mágica", Thomas Mann conta a história de Hans Castorp, jovem herdeiro de uma tradicional família de comerciantes de Hamburgo. Mann relata sua infância, a história de suas perdas e de como, a partir delas, a morte passara a ter um significado todo especial para ele. Castorp era fascinado pela história de sua família, mas não via sentido em seguir a mesma profissão que seus avós; respeitava o trabalho, mas não tinha paixão nem interesse por ele. Esse desanimo diante da vida prática provocou o pequeno mal-estar que o levou ao Sanatório de Berghof, em Davos, nos Alpes Suíços.

O sanatório, uma instituição médica típica daqueles tempos em que a tuberculose ainda fazia vítimas fatais, é lugar de isolamento, onde os doentes devem se deixar estar em repouso, como se em férias permanentes estivessem. A grande diferença entre a vida no sanatório e a vida na planície era a forma como se usava o tempo. A economia do tempo no sanatório estava diretamente associado a dois fatores: a proximidade da morte, vivenciada como fenômeno natural, inevitável, liberando, com isto, os vivos dos compromisso morais que normalmente regulavam sua ação no mundo e a rotina do próprio tratamento, onde o repouso obrigatório, a espera do nada acontecer nos dias que escorriam iguais viciava e corrompia os organismos acostumados à disciplina do trabalho.

Aos poucos, a alegre irresponsabilidade com que a morte é encarada no sanatório, a sensualidade que permeava as relações ali, envolvem Castorp. A doença se lhe revela como a grande liberadora dos instintos. Alheio aos apelos de um mundo que perdera, ou que mesmo, nunca tivera encanto e significado para si, ele experimentava códigos novos, atitudes diversas e até mesmo contrárias a tudo o que se permitiria lá embaixo. Na planície, vivera sob a pressão da honra, mas no sanatório concluía que, apesar da honra oferecer consideráveis vantagens, a vergonha não as tinha menores, e que as vantagens desta última eram quase ilimitadas.

O italiano Lodovico Settembrini se empenhará em arrancar Castorp da vida ociosa que levava no sanatório para devolvê-lo ao mundo do trabalho, ao que chama de valores universais da humanidade. Settembrini, exalta a razão e o iluminismo e apela para os brios germânicos de Castorp, realçando o caráter enérgico e fleumático do povo alemão. Para Castorp, no entanto, fleumático e enérgico soavam como frio, duro e cruel. A morte era um elemento de sua natureza pois aprendera cedo a viver com ela. A vida parecia-lhe mais digna quando diante dela nos conduzíamos como que diante da morte: com respeitoso silêncio e contenção. É este argumento que agita em defesa de sua inércia e de seu desencanto do mundo.

O discurso de Settembrini é um chamado à vida contra a morte: a morte é fenômeno racional, fisiologicamente necessário e simpático, perder um tempo excessivo com a sua contemplação é roubar à vida o que lhe cabe. Para Settembrini, a morte só faz sentido como parte, complemento, berço da vida e não contra a vida. Caberia ao espírito soberano, com sua vontade livre que é quem determina o mundo moral, conservá-la em seu lugar.

Um pensamento mais organizado que o de Hans Castorp se erguerá contra o ideário de Settembrini. É o do judeu jesuíta Leo Naphta. Naphta defenderá a morte contra a vida, a doença contra a saúde, a tirania contra a liberdade, a religião contra a ciência, o terror contra o progresso. A seu ver a ciência não ensinara aos homens o caminho da felicidade, ela não respondera às questões essenciais da existência, todas as fórmulas iluministas teriam fracassado. Naphta ataca aqueles que querem curar o homem, obrigá-lo a "voltar à natureza".

Se no mundo das ideias, Castorp hesitava entre esses dois titãs, no plano dos sentimentos quem alterava os seus sentido era a russa Clávdia Chuchat. Na paixão/fixação de Castorp pôr Clávdia repete-se uma dicotomia que persegue grandes personagens da galeria de Mann: o apolíneo e o dionisíaco que se debatiam na natureza do escritor alemão filho de mãe brasileira. Clávdia é o outro, o estrangeiro, o que fascina e assusta, o que seduz e causa repulsa. É, ao mesmo tempo, o lado obscuro da alma do artista, algo que ameaça a estrutura aparentemente sólida dos valores germânicos que, na verdade, estaria suspensa sobre uma base bastante frágil.

É nessa paixão viciosa, irracional e inexplicável pelo outro, é no amor, com suas ambiguidades, com suas angústias, com seu lado de redenção e de danação que Castorp achará a saída. Castorp descobre que o respeito à morte e ao passado, que dominava sua a alma, não deveria se confundir com o repúdio à vida e ao presente, não poderia orientar o futuro sem se confundir com impiedade. O terror, tal como preconizado por Naphta, é o avesso do amor, da bondade. O amor seria a única força viva capaz de enfrentar a morte, derrotar o terror. Só ele, e não a razão, seria mais forte do que a morte; só ele, e não a razão, inspiraria pensamentos bondosos.

Mann começou a escrever "A montanha mágica" antes da Primeira Guerra Mundial e concluiu-o depois. Não é possível afirmar que o livro expresse ou antecipe até mesmo a situação da Alemanha, mas certamente ele reflete uma crise na aplicação do ideário liberal que orientava a vida europeia até então. No entanto, se o autor apresenta uma imagem caricatural destes, através do italiano Setembrini, não faz retrato mais favorável da opção conservadora e anti-liberal de Naphta. O neo-idealismo de Mann se traduz na opção de Castorp pelo amor. O apelo aos valores de humanidade encontrava seu lugar num mundo em frangalhos em que, nem a razão nem a tradição davam as respostas. A resposta para Castorp só viria em meio á barbárie da guerra: era preciso entrar em contato com o horror que o entrechoque das duas opções provocara para concluir que nenhuma delas, sozinhas, seria capaz de iluminar o caminho da humanidade.

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