Gosto muito dessa expressão que tem circulado em tom de brincadeira pelo facebook. Como é mesmo que se pratica o desapego? Deixando partir alguém que já não nos quer; abrindo mão de tanta coisa inútil que nos cerca; pedindo ou aceitando desculpas de um amigo... Minha irmã mais velha, a Lúcia diz que guardar coisa quebrada dá azar. Então deve ser por isso que meu livro anda atrasado e a obra aqui em casa não termina. Tenho um monte de coisa quebrada aqui em casa guardada em armários e gavetas e que penso que um dia vou consertar, mas esse dia nunca chega. E olha que a maior parte é coisa inútil, daquele tipo de lembrancinha de viagem que não serve para nada. Está na hora de praticar o desapego com essas coisas e jogar tudo no lixo.
Mas tem os livros, as dezenas de livros que tenho e que nunca vou ler. Não por demérito deles mas porque é preciso ser razoável: se o livro está comigo há décadas, nunca foi lido e não tem nada a ver com a literatura que tem me interessado no últimos anos para que guardá-lo durante as próximas décadas que talvez ainda me restem de vida? É verdade que da última em que pratiquei o desapego com meus livros, me desfiz de uma coleção muito castigada de livros do Somerseth Maughan. Hoje, me lembro com saudades daquelas e de outras tantas obras de ficção que tinha esperança de voltar a ler. Romances, contos e novelas nas ótimas traduções de antigamente que eram feitas por gente como Drummond, Quintana, Veríssimo, Lispector.
De muitos outros livros não tenho idéia quando mandei embora. Em que momento me desapeguei tanto da minha edição de "Cem anos de solidão", aquela bem pobrezinha da Codecri, que li em uma noite de 1968, no quarto que dividia com Clélia, no segundo andar de nosso sobradinho da rua Nossa Senhora da Piedade, 126? Por uma obra do acaso, chegou até os dias de hoje na minha estante a edição da "Nova Seleta" que usei no primário. A esta continuo muito apegada, mesmo não tendo mais utilidade nenhuma.
O engraçado desse negócio que é muito mais fácil se desfazer de coisas dos outros do que das nossas. Nós, os que temos a mania dos papéis velhos, dos livros com páginas se esfarelando, temos muita facilidade de condenar os que têm a mesma mania. Uma vez, tive um namorado alemão que juntava jornais brasileiros que um dia ia ler. Em seu pequeno apartamento de recém divorciado, os velhos jornais se acumulavam, com aquela poeira preta característica, nos armários; nas gavetas; sobre cadeiras; no chão e nos lugares mais improváveis... pois bem, resolvi praticar o desapego no lugar dele e, aproveitando sua ausência, mandei-os para o lixo. A briga foi feia e o namoro desandou dali em diante.
Tenho exemplo pior: uma colega mantinha pastas e pastas de pesquisa que fizera há muitos anos, em um armário comum do trabalho. Ela estava fora e era preciso limpar a área porque o lugar em que trabalhávamos ia ser reduzido, muitos armários teriam que sair. Foi aí que resolvi praticar por ela o desapego e mandei para o lixo aquelas pastas que eu achava que ela não mais ia usar. A reação foi dramática. Quase rompemos. Ela depois me perdoou, acho até que esqueceu. Talvez, de fato, precisasse se livrar daquela carga que a ligava a um passado ao qual ela não pensava em retornar e que seguia guardando, ao longo dos anos, na esperança que aparecesse alguém interessado nos dados armazenados ali. Não sei. De qualquer maneira, não cabia a mim decidir e hoje reconheço a minha falta de critério pois, eu mesma guardo cadernos e mais cadernos com textos dos jornais e livros que utilizei nas minhas teses de mestrado e doutorado. E devo fazê-lo com base na mesma esperança que tinha minha colega de que alguém um dia se interesse por eles.
Até a lembrança de algumas coisas que perdi me persegue. Uma vez, em uma mudança perdi algumas fotos antigas de meu pai. Só de uma delas me lembro e essa lembrança ainda dói. Era uma foto dele, muito jovem, com dois colegas das Casas Pernambucanas, onde começou a vida como caixeiro. Eu a tinha separado, junto com duas outras, em um saco comum de plástico, daqueles azuis, pois tinha a intenção de pintar um quadro a partir dela (era no tempo em que eu pintava, ou achava que ainda ia pintar). Na mudança de um apartamento para outro, o saco azul deve ter sido confundido pelo pessoal da mudança com um saco comum de lixo e jogado fora. Sempre penso nessa foto e onde ela pode estar. Minha maior esperança é que alguém a tenha achado em algum lixão, recolhido e posto para vender junto com outras naquela feira de antiguidades da Praça Quinze. Este é o destino mais nobre que ela poderia ter e é, certamente, a última possibilidade que tenho de rever a imagem ainda que esmaecida, de meu pai, com seu terno branco, em sua primeira juventude.