Praticando o desapego (26/10/13)

Gosto muito dessa expressão que tem circulado em tom de brincadeira pelo facebook. Como é mesmo que se pratica o desapego? Deixando partir alguém que já não nos quer; abrindo mão de tanta coisa inútil que nos cerca; pedindo ou aceitando desculpas de um amigo... Minha irmã mais velha, a Lúcia diz que guardar coisa quebrada dá azar. Então deve ser por isso que meu livro anda atrasado e a obra aqui em casa não termina. Tenho um monte de coisa quebrada aqui em casa guardada em armários e gavetas e que penso que um dia vou consertar, mas esse dia nunca chega. E olha que a maior parte é coisa inútil, daquele tipo de lembrancinha de viagem que não serve para nada. Está na hora de praticar o desapego com essas coisas e jogar tudo no lixo.

Mas tem os livros, as dezenas de livros que tenho e que nunca vou ler. Não por demérito deles mas porque é preciso ser razoável: se o livro está comigo há décadas, nunca foi lido e não tem nada a ver com a literatura que tem me interessado no últimos anos para que guardá-lo durante as próximas décadas que talvez ainda me restem de vida? É verdade que da última em que pratiquei o desapego com meus livros, me desfiz de uma coleção muito castigada de livros do Somerseth Maughan. Hoje, me lembro com saudades daquelas e de outras tantas obras de ficção que tinha esperança de voltar a ler. Romances, contos e novelas nas ótimas traduções de antigamente que eram feitas por gente como Drummond, Quintana, Veríssimo, Lispector.

De muitos outros livros não tenho idéia quando mandei embora. Em que momento me desapeguei tanto da minha edição de "Cem anos de solidão", aquela bem pobrezinha da Codecri, que li em uma noite de 1968, no quarto que dividia com Clélia, no segundo andar de nosso sobradinho da rua Nossa Senhora da Piedade, 126? Por uma obra do acaso, chegou até os dias de hoje na minha estante a edição da "Nova Seleta" que usei no primário. A esta continuo muito apegada, mesmo não tendo mais utilidade nenhuma.

O engraçado desse negócio que é muito mais fácil se desfazer de coisas dos outros do que das nossas. Nós, os que temos a mania dos papéis velhos, dos livros com páginas se esfarelando, temos muita facilidade de condenar os que têm a mesma mania. Uma vez, tive um namorado alemão que juntava jornais brasileiros que um dia ia ler. Em seu pequeno apartamento de recém divorciado, os velhos jornais se acumulavam, com aquela poeira preta característica, nos armários; nas gavetas; sobre cadeiras; no chão e nos lugares mais improváveis... pois bem, resolvi praticar o desapego no lugar dele e, aproveitando sua ausência, mandei-os para o lixo. A briga foi feia e o namoro desandou dali em diante.

Tenho exemplo pior: uma colega mantinha pastas e pastas de pesquisa que fizera há muitos anos, em um armário comum do trabalho. Ela estava fora e era preciso limpar a área porque o lugar em que trabalhávamos ia ser reduzido, muitos armários teriam que sair. Foi aí que resolvi praticar por ela o desapego e mandei para o lixo aquelas pastas que eu achava que ela não mais ia usar. A reação foi dramática. Quase rompemos. Ela depois me perdoou, acho até que esqueceu. Talvez, de fato, precisasse se livrar daquela carga que a ligava a um passado ao qual ela não pensava em retornar e que seguia guardando, ao longo dos anos, na esperança que aparecesse alguém interessado nos dados armazenados ali. Não sei. De qualquer maneira, não cabia a mim decidir e hoje reconheço a minha falta de critério pois, eu mesma guardo cadernos e mais cadernos com textos dos jornais e livros que utilizei nas minhas teses de mestrado e doutorado. E devo fazê-lo com base na mesma esperança que tinha minha colega de que alguém um dia se interesse por eles.

Até a lembrança de algumas coisas que perdi me persegue. Uma vez, em uma mudança perdi algumas fotos antigas de meu pai. Só de uma delas me lembro e essa lembrança ainda dói. Era uma foto dele, muito jovem, com dois colegas das Casas Pernambucanas, onde começou a vida como caixeiro. Eu a tinha separado, junto com duas outras, em um saco comum de plástico, daqueles azuis, pois tinha a intenção de pintar um quadro a partir dela (era no tempo em que eu pintava, ou achava que ainda ia pintar). Na mudança de um apartamento para outro, o saco azul deve ter sido confundido pelo pessoal da mudança com um saco comum de lixo e jogado fora. Sempre penso nessa foto e onde ela pode estar. Minha maior esperança é que alguém a tenha achado em algum lixão, recolhido e posto para vender junto com outras naquela feira de antiguidades da Praça Quinze. Este é o destino mais nobre que ela poderia ter e é, certamente, a última possibilidade que tenho de rever a imagem ainda que esmaecida, de meu pai, com seu terno branco, em sua primeira juventude.

Eu sou do tipo que até recolhe coisa velha na rua. Confesso. Na minha sala tem uma cadeira que comprei de um mendigo em Botafogo. É verdade que o fiz a partir do expertise do meu então colega de repartição, Angelo Venosa, que atestou que o móvel tinha estilo. Guardo também uma carteira escolar daquelas em que a mesa é integrada com o assento, lembram? Para que serve? Nada, além da nostalgia que desperta em quem a vê. Foi Luciana Fróes quem me deu. Agora que ando praticando o desapego por conta da obra aqui em casa, resolvi passá-la adiante e pedi a Ângela Porto que a leve para a casa do sítio que ela e Heitor Moura estão reformando em Secretário. Acho que é mais fácil praticar o desapego quando você sabe que o objeto a que se é apegado vai ficar mais ou menos perto ou que, pelo menos, será mantido dentro de seu círculo de afeto. Acho que foi por isso também que a Luciana me deu sua carteira escolar, para sabê-la bem pertinho, na casa de sua amiga e vizinha de Fonte da Saudade. Não creio que vá se incomodar ao descobrir, lendo essas linhas, que a mesma vai agora ficar sob a guarda da filha do Stanislaw Ponte Preta, o Sérgio Porto, amigo e colega de seu pai, no Banco do Brasil, o charmoso, irreverente e sempre lembrado, Oldar Fróes.

Lembrança de Américo Jacobina Lacombe (12/10/13)

A pessoa mais elegante que já conheci na vida chamava-se Américo Jacobina Lacombe. Era uma elegância filha do conservadorismo, da coerência e de uma imensa cultura. Elegância que se expressava no tratamento atencioso que dispensava aos seus funcionários; nas amizades sólidas conservadas ao longo de muitos anos; no amor à memória de seus ancestrais; na dedicação ao trabalho e até no hábito de ir à missa aos domingos no Mosteiro de São Bento. Em um país como o nosso, em que as instituições se desfazem da noite para o dia, em que as convicções dos homens públicos são tão voláteis, a presença de Lacombe na Casa de Rui Barbosa, casa que dirigiu durante 54 anos, funcionava como uma âncora que a mantinha firme seu alicerces.

Foi em 1939, que o jovem advogado Américo Jacobina Lacombe sondou o ministro Gustavo Capanema sobre a possibilidade de vir a ser o diretor da Casa de Rui Barbosa. Não era um cargo disputadíssimo - criada em 1928,  a Casa tinha então apenas três funcionários – mas, Lacombe era um estudioso da obra e um admirador de Rui Barbosa. Capanema explicou que a vaga já estava prometida a um protegido de Juraci Magalhães. O decreto já estava pronto, faltando só Getúlio assinar. Mesmo assim, Capanema sugeriu a Américo que encaminhasse uma carta ao presidente falando de seus projetos para a Casa e anexando seu livro sobre Rui Barbosa. Lacombe foi nomeado e, pode-se dizer que, se a Casa de Rui Barbosa chegou aos dias de hoje com o prestígio que tem, deve muito à sua dedicação.

Eu o conheci já no final dessa longa jornada e posso dar testemunho de que, das boas coisas de trabalhar na Fundação, dessas coisas boas que a gente só percebe o quanto eram boas quando as perde, o melhor delas era trocar com o Dr. Américo algumas palavras amenas num encontro casual pelos corredores. Era um prazer contar a ele o que se estava fazendo e obter uma indicação bibliográfica fundamental. Indicação bibliográfica de historiador das antigas, por isso mesmo, conhecedor de livros que a gente mais nova esqueceu ou que não deu o devido valor.

Lacombe tinha sensibilidade para reconhecer novos valores e para, pensando sobretudo no futuro da instituição, estimulá-los em seus trabalhos. Creio que posso me incluir entre os que foram beneficiados por essa intuição do antigo presidente. Durante o tempo em que convivemos, escrevi dois livros: “Histórias de Presidentes” (1989) e “Brasil pelo método confuso” (1992) e, durante a redação dos dois, tive a honra de ter como leitor crítico o Dr. Américo. Ele me deu muitas informações esclarecedoras, dando-me detalhes que ouvira de Tobias Monteiro, de quem fora secretário, ou narrando fatos que assistira pessoalmente.

Foram essas histórias que me estimularam a fazer com ele uma série de entrevistas. Propus a coisa a Homero Senna e juntos passamos tardes de agradáveis conversações na biblioteca da casa de Lacombe. Ao longo de seu depoimento, o que mais encanta é a presença discreta e permanente dos amigos. Em 1926, ainda nos chamados “cursos preparatórios”, conheceu Plínio Doyle e juntos fizeram a Faculdade de Direito. Ali, uma turma inteligente que contava também com San Tiago Dantas, Otávio de Faria, Antonio Gallotti e Hélio Viana criou o CAJU – Centro Acadêmico Jurídico - , de feição conservadora e que se envolveria em animadas disputadas com os colegas e professores de esquerda. Dentre esses últimos o mais destacado era Castro Rebello que Lacombe e seus amigos, em protesto por sua escolha como paraninfo, optaram por colar grau na secretaria. Bem mais tarde, graças a Francisco de Assis Barbosa, se aproximaria do antigo professor, convidando-o a prefaciar volume das obras completas de Rui Barbosa.

O primeiro Lacombe chegou ao Brasil ainda no reinado de D. João VI. Era o “maître de ballet” Louis Lacombe que tive o prazer de reencontrar nas páginas dos jornais da Independência. Os Lacombe mantiveram a tradição francesa na educação das gerações seguintes e o pai de Américo, Domingos, estudou em Paris, foi aluno de Mallarmé e colega de Henri Bergson. O sobrenome Jacobina também se enraíza na história do Brasil. Seu avô, Antonio de Araújo Ferreira Jacobina salvou Rui Barbosa de quem era primo e amigo, de ser preso. Durante o governo de Floriano Peixoto, o dono da confeitaria Pascoal, depois de servir o jantar no Itamarati a Floriano e seus ministros, correu até a casa de Antonio Jacobina para lhe contar que planejavam prender Rui Barbosa tão logo ele chegasse ao Rio, vindo de Buenos Aires. Informado, Rui, em vez de desembarcar, seguiu rumo ao exílio em Londres. As prestações da casa da rua São Clemente, onde hoje fica a Fundação foram sendo quitadas pelo avô de Lacombe. No Rio, o nome Jacobina ficou muito ligado ao famoso Colégio Jacobina, criado pela mãe de Américo em 1912, na Rua Almirante Tamandaré, onde a família residia.

O escotismo foi introduzido no Rio de Janeiro pelo multi-empreendedor Arnaldo Guinle (personagem que está a merecer uma biografia). Da primeira turma a se reunir no Fluminense faziam parte, além de Lacombe, Oscar Niemeyer e Custódio Mesquita. Outra curiosidade biográfica: em sua biblioteca existia um livro de Júlio Verne com a anotação “comprado na tômbola do João Guimarães”. É que o João, seu colega no Colégio Arnaldo, em Minas, depois de ler um livro, rifava-o entre os colegas. Apesar de não ser ainda o consagrado escritor Guimarães Rosa, tinha o hábito de anotar num caderninho as palavras curiosas que descobria.


Histórias como estas estão reunidas no pequeno volume  “Lacombe, narrador” que organizei a partir das entrevistas. Relendo-o, não posso deixar de lamentar o quanto de conhecimento desapareceu junto com Lacombe. Quantas vezes, nesses vinte anos que se passaram desde sua morte, não me peguei pensando: a quem que eu vou perguntar isto? A fonte para saber coisas sobre personagens da história que ninguém hoje sabe, para saber detalhes de como as coisas aconteceram, ou para saber em que livro raro tem isto, não existe mais, nem tem substituto possível.

O encontro com os “bo-bos” em Franca (5/11/13)

Entre 9 e 13 de setembro passado estive em Franca onde pronunciei a conferência de abertura da XIXa. Semana de História. Convite dos mais lisonjeiros pois, organizado por minha colega Valéria Guimarães, aquele encontro foi marcado pela presença de convidados internacionais dos mais ilustres e de uma outra convidada brasileira não menos ilustre: Jerusa Pires Ferreira. Jerusa que, por motivo de saúde, só pode participar através de vídeo conferencia, dividiu a mesa com Loïc Artiaga, professor da Université de Limoges.

Jerusa conversou conosco pela telinha do computador sobre “edições populares e a cultura das bordas”. Segundo Jerusa foi ao fazer um levantamento de editoras, autores e livros populares brasileiros que o tema dos desdobramentos do fenômeno da cultura midiática no Brasil se lhe colocou, sob a forma do que chama Cultura das Bordas. Apesar de relacionada principalmente com o universo do livro e da edição popular, a cultura de bordas abarca diversas outras manifestações das periferias urbanas que trafegam por circuitos não convencionais, valendo-se de imaginários recorrentes e provcando conjunções inesperadas. 

Loïc Artiaga, analisou um fenômeno literário interessante. O da circulação de determinadas obras que fazem imenso sucesso em seu lançamento em comparação com outra que aparecem discretamente e vão ganhando volume ao longo do tempo. Ele comparou a repercussão no mundo de duas obras publicadas no começo do século XX, o primeiro volume da série de romances-folhetins em torno do personagem Fantômas e o “O Caminho de Swan” de Marcel Proust. Artiaga comparou mapas e estatísticas de circulação editorial demonstrando a oposição entre o avassalador sucesso inicial do primeiro e o limitado sucesso do segundo com a progressiva inversão dessas posições. Suas conclusões nos fazem pensar sobre o destino de alguns best-sellers da atualidade. 

Éric Maigret, da Universidade Paris III, falou sobre as novas mídias, no que concerne especialmente à comunicação virtual. A seu ver, existiria hoje uma divisão esquizofrênica no contexto da comunicação de massa entre “cultura” e “Cultura”. Ele observa que, hoje, quase todas as práticas culturais, inclusive as mais “elevadas”, se valem das modernas mídias. Ou seja, essas práticas não correspondem mais à antiga cisão cultural que fazia com que programas de TV, de rádio e outras manifestações menos ortodoxas fossem associadas à “cultura” com letra minúscula. Assim, essa pluralização das ordens de legitimidade ficaria hoje bem compreendia no conceito de “pós-legitimidade cultural”.

Finalmente falou o convidado mais conhecido no Brasil, Dominique Kalifa, da Sorbonne. Segundo Kalifa, desde a metade do século XIX, a questão da produção cultural voltada para a maioria representou um desafio. Hoje, o debate estaria sendo retomado pela História e pelas Ciências Sociais diante de um mundo globalizado pela comunicação virtual. Cultura popular, cultura de massa, cultura midiática tornaram-se novos campos de batalha onde se enfrentam, outra vez, abordagens estéticas, ideológicas e científicas. Kalifa estabelece a cartografia desses debates, com ênfase na História.

Foi um encontro e tanto, especialmente porque, estando em Franca por quase uma semana, todos no mesmo hotel, almoçando juntos, indo e voltando da UNESP nos mesmos carros, pudemos conversar longamente sobre os mais variados assuntos. Durante almoços e jantares nos ótimos restaurantes de Franca ou reunidos na bela casa de meus velhos amigos, Susani e Jean Marcel de Carvalho França, também professores da mesma universidade, rimos à vontade. De fato, foi um luxo, aproveitar a companhia de Kalifa para falar de literatura policial, um dos temas em que é especialista e poder trocar figurinhas com Eric Maigret, dono de sobrenome do meu comissário favorito, que sabe tudo sobre quadrinhos e cultural underground dos anos 1960/70. Foi, aliás, a partir de uma expressão surgida na fala de Maigret que emergiram os papos mais divertidos. Maigret citou, a propósito desses universos sociais sincréticos em que se misturam elementos culturais de origens variadas, os chamados bo-bos, “bourgeois bohemes”. Eu não conhecia a expressão mas, pela quantidade de entradas que achei no Google, vi que ela é bem conhecida. 

O bo-bo é burguês de origem e boêmio por natureza. Não é o tipo do boêmio auto-destrutivo e pessimista. Não. O bo-bo acredita que seja possível viver de igual para igual com pessoas de originadas em classes sociais diferente da sua. Seu otimismo e sua boa-vontade para com o que vem do povo, faz com que ele adote uma atitude benevolente diante de manifestação popular. Essa benevolência cega do bo-bo impede que ele enxergue o quanto é irritante sua elegia da “vida simples da gente do morro” para quem vive mesmo no morro. Daí que, depois de certo tempo de convívio, ambos, o bo-bo e pessoa do povo que ele escolheu para idealizar, quedem decepcionados um com o outro. Afinal, o bo-bo mora ou trabalha em lugares degradados –favela, subúrbio, centro da cidade ou vilazinha no interior – porque escolheu. O fato é que, para onde vai, o bo-bo leva sua atitude elegante, sua boa aparência e sua bagagem cultural subjetiva. E os lugares e as pessoas que antes ali viviam e trabalhavam não serão mais os mesmos depois da chegada do bo-bo. Pois o bo-bo é sempre fashion: da sandália havaiana, passando pela camiseta, até os óculos, nada que o bo-bo use parece comum. Mesmo que seja. 

Como qualquer conceito o de bo-bo é bastante elástico. Nele cabem tanto aqueles nossos amigos de juventude que iam para o interior criar abelhas quanto os que, motivados pela militância política, tornaram-se operários e favelados. Embora tenda sempre para a esquerda, o bo-bo de hoje, tornou-se um defensor radical da natureza e da causa ambiental. Desiludido com os políticos, cujas práticas são a negação de seus ideais românticos, o bo-bo contemporâneo se empolga facilmente com os que agitam bandeiras negando a política. Tal como no passado, os ideais os guiam e os ideais os perdem.