Amor de homem (1/3/14)

Um personagem que eu adorava ver na “Grande família” era o Mendonça, vivido pelo grande ator Tonico Pereira. Para quem é funcionário público desde o século passado, ele lembra muito alguns antigos colegas de repartição. Mas o que eu achava engraçado mesmo era a relação dele com o Lineu, interpretado por Marco Nanini. Principalmente naquelas cenas em que ele diz: “Eu amo esse homem !”, e ficava querendo beijar e abraçar o Lineu a qualquer custo enquanto outro todo reservado, se afastava constrangido. O que torna a cena engraçada é que não há ali qualquer vestígio de uma verdadeira relação homossexual. Ele de fato ama o colega, quer abraçá-lo e beijá-lo mas não pretende ir para a cama com ele.
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É amor de homem. Aquelas amizades ou afeições entre dois cavalheiros que têm todos os componentes do amor: carinho, solidariedade, vontade de estar perto, de não se separar e até mesmo ciúmes, por vezes violentos, de outras amizades. E tem uns sujeitos que despertam essas afeições mais que outros. O violonista Toquinho, por exemplo, parceiro de Vinicius de Moraes, conta que este dizia que a relação dos dois era um "casamento sem sexo". Mas com direito a ciúme, pelo menos por parte do Vinicius que não admitia que Toquinho fizesse parcerias com outros . Para isso,escrevia tantas letras que deixava o parceiro muito ocupado, sem tempo para "traições".
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Amigo meu diz que se fizesse com as mulheres a metade do sucesso que faz com os homens... É que, apesar da sua cara mal-humorada, os amigos gostam dele como o Mendonça gosta do Lineu. Aliás, um velho fotógrafo amigo dele, tipo físico igual o do Mendonça, elogiando a boa estampa do meu amigo lhe disse: “Rapaz tu é tão bonito. Se eu fosse mulher ia rebolar muito pra ti”. E isto na mesa de bar, na frente de outros amigos barrigudos e carecas, entre uma cerveja e outra. 
Outro amigo dele da adolescência, gosta tanto da sua companhia que vive insistindo para que ele vá visitá-lo. Quando o outro alega o problema da distância, ele não se faz de rogado, promete buscá-lo de carro e levar de volta. E insiste para que ele fique para dormir, como amiguinhos de 8 anos que estudam na mesma escola... E não adianta argumentar com o incômodo para a mulher e os filhos que esse alojamento provisório representa. Ele quer é relembrar os velhos tempos, ou apenas as sensações dos velhos tempos. O prazer de estar em sua companhia, jogando conversa fora, ou apenas escutando discos antigos, ou até mesmo calados, olhando para o nada, partilhando o silêncio, como só os velhos amigos podem se dar ao direito.
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E essas amizades, essas comunhões de alma são tão profundas que às vezes são superiores às paixões pelo sexo oposto. Outro conhecido meu é amigo e admirador de um grande intelectual, cuja companhia ele prefere à de qualquer pessoa no mundo. Onde quer que o outro o chame, ele vai. Quando casou, com mulher muito possessiva foi pressionando a não ser tão disponível. Vieram algumas brigas, ele se queixou da mulher aos colegas de trabalho que recomendaram que ele cedesse, afinal, era uma moça ótima e ele, sujeito reservado, tinha demorado a encontrar alguém. “De jeito algum", respondeu ele indignado, "se eu tiver que escolher entre ela e o Fulano, não tenho dúvidas, fico com Fulano.”
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Mario Bag tem um amigo assim. Os dois cresceram na mesma rua e, da infância até o fim da adolescência, foram quase como irmãos: jogaram bola de gude, jogaram futebol no meio da rua e até tocaram na mesma banda de rock. A amizade chegou a ponto do amigo chamar o Bag para ser padrinho da filha. A festa do batizado se prolongou, em meio a muita bebida e gente com quem o Bag não tinha muita intimidade. Quando viu que todos os convidados já tinham indo embora, achou que podia ir também. O amigo que já tinha bebido todas, foi até a porta do apartamento, trancou-a à chave, tirou a chave da fechadura e declarou: "Daqui você não sai! Todo mundo pode ir embora, menos você!" 
Não adiantou reclamar, xingar, o Bag só conseguiu escapar quando o outro tombou desmaiado ao lado do vaso sanitário e a mulher conseguiu tirar a chave do bolso do marido pinguço libertá-lo do cárcere privado...
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E as brigas de "casais de amigos" podem ter lances até mais dramáticos. Um conhecido nosso costuma ser arrastado para o bar por um desses "apaixonados". É sempre a mesma história. Ele liga, insiste no convite para tomar uma cerveja, se encontram, bebem, bebem, bebem e brigam. Em geral o amigo apaixonado acha que o outro está bancando o superior, que ficou importante, da queixa passa às ofensas. Uma vez chegou a rasgar a camisa do outro de alto abaixo. Quando o que teve a camisa rasgada ameaçou ir embora, o outro pediu desculpas, abraçou-o comovido, dizendo o quanto gostava do amigo, etc. fizeram as pazes e voltaram a beber... Mesmo com sua camisa em frangalhos, o sujeito ficou ali, firme, encostado no balcão do botequim durante horas a fio... Até que a mulher (de um ou de outro) apareceu para resgatá-los.
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Otto Lara Resende era outro que atraía esse tipo de amor. Sua companhia era tão disputada pelos amigos que, uma vez, um se queixou de que ele tinha marcado um encontoro no bar e em vez de esperá-lo estava junto com o Rubem Braga, este declarou: "Rapaz, o Otto é que nem passarinho. É de quem pegar primeiro."
Mas certamente, não houve ninguém mais apaixonado pelo Otto do que Nelson Rodrigues. Uma das partes mais divertidas da biografia do Nelson escrita pelo Ruy Castro é a que conta sobre a verdadeira obsessão que ele tinha pelo amigo. Queria o tempo todo estar com o Otto e ia mesmo na casa dele sem avisar, a ponto de, para evitá-lo, Otto mandar dizer pela empregada que não estava em casa.  Não adiantou, a cada meia hora o Nelson reaparecia na porta  perguntando se o outro estava em casa e a empregada dizia: "Desculpe, seu Nelson, o seu Otto não está em casa...". Depois da décima vez, Otto sucumbiu, ele mesmo abriu a porta e disse: "Você tem razão, Nelson, eu estou em casa". 

Nós que nos amávamos tanto (22/2/14)

Praia de Botafogo, 154, apartamento 1202. Foi nesse endereço que passei parte importante de minha vida. Era um edifício que ficava na esquina da Praia de Botafogo com a Marques de Abrantes e que se chamava Audax. Era não, ainda é. E sempre que passo em frente a ele, indo pelo Aterro para o Centro, gosto de olhar para o alto do edifício e pensar na varanda do meu velho apartamento. Morei ali de 1977 a 1987 e sonho sempre que ainda moro ou que vou lá, mesmo não morando. Na verdade no sonho eu vou lá como se ali fosse uma segunda morada, uma morada alternativa e também que estou lá clandestinamente. A pessoa que atualmente é dona do imóvel pode chegar a qualquer momento. E noto que algumas coisas já não são as minhas coisas do tempo em que morei lá e mesmo assim vou ficando, sempre vendo pelo olho mágico se alguém está chegando, se os verdadeiros donos resolveram voltar.

Não sei porque essa história de clandestinidade pois fui morar ali quando a Maura Pacheco, então namorada do cearense Bené que ali tinha vivido anos, dividindo casa com sua amiga Maíra, ambas médicas, resolveu se mudar. Como eu procurava um lugar, elas passaram o apartamento para mim que o aluguei tendo como avalista a Socorro Brito, irmã de meu cunhado e compadre, Edmilson. Tudo direitinho. É um quarto e sala amplo, claro e arejado, com uma ótima varanda de onde se contempla a vista deslumbrante da baía da Guanabara. Tão bem situado que acho que foi por isso que quando comecei a ter amigos cariocas, amigos que fiz no IFCS, minha casa virou um ponto de encontro. Para reduzir as despesas, convidava colegas para dividir. A primeira foi a Valéria Moreira, figura formidável, inteligente, engraçada, transgressora. Ao par da faculdade ela fazia teatro com o grupo Tá na Rua, do Amir Hadad e se vestia de forma arrojada, roupas grandes e coloridas. Me contou que uma vez, no subúrbio, os meninos da rua seguiram atrás dela, zombando das suas meias listradas multicores e de seus vestidos. Tempos depois a Valéria fez mestrado no antigo IESAE da FGV e sua tese sobre educação era tão ousada quanto ela mesma. Uma verdadeira peça literária.

Depois dividi casa com a Sandra. Uma menina que era ligada à Convergência Socialista, de olhos verdes e ar tristonho. Só morando com ela vi que era alguém com problemas. A Sandra fazia faculdade e trabalhava no Banco do Brasil, à tarde. Chegava em casa às seis, vestia um pijama desses masculinos e cedo ia dormir, creio que tomava remédios controlados. Fazia um panelão de sopa para comer durante a semana e aquela sopa ficava ali sobre o fogão para ser esquentada, acabando por virar uma gororoba de péssimo aspecto. Eu tinha medo que a Sandra fizesse alguma bobagem, como depois vim a saber que realmente acabou fazendo. Confesso que fiquei aliviada quando ela se mudou para a casa de um namorado com quem teve um filho. Anos depois, organizou a vida do filho de forma a que ele fosse viver com o pai dele, comprou um revolver, registrou na delegacia, foi para a casa e se matou.

Mas foi com Lucinha que a minha vida se alegrou. Lucia e eu somos da mesma idade e éramos um pouco mais velhas do que a turma que, com ela passou a fazer parte da minha vida daí em diante. Primeiro, foram o Tonho e o Ivan. O Tonho era o namorado da Lucia e o Ivan Velasco, hoje notável historiador, era seu companheiro inseparável. O Tonho também trouxe para a turma um amigo do Paraná chamado José Álvaro Matida, jovem médico filho de japoneses, que morava na rua Silvio Romero, ali na Lapa. Não sei por quais caminhos o Zé Japonês conheceu e começou a namorar a Bebete (Elizabeth Roland) que trabalhava no BANERJ com outro colega nosso do IFCS, o Felipe.

Naquele tempo muita gente morava em Santa Tereza, dividindo apartamento. Lembro de um na Hermenegildo de Barros que o Ivan dividia com o Tonho e com o Bira. O Bira... onde andará aquela bicha baiana que adorava imitar a Maria Betânia e cozinhava maravilhosamente bem? Uma vez fez uma performance em que ele, negro alto, bonito e magro, vestido uma túnica branca, saía de trás de uma daquelas cortinas artesanais feitas de pequenas conchas arranjadas em fios de nylon, cantando: “sete mil vezes...” A gente mangava muito do Bira. E ele nem ligava. Em 1980, a passagem de uma linda francesa, Martine Kunz, pelo Rio antes de ir para Fortaleza e se tornar o grande amor da vida do Pereira, marcou época entre nós.

Depois Lucia começou a namorar um aluno novo da História, com talento para o desenho, muito do bonitinho, Cesar da Matta Machado, o Cesinha. Nos corredores do IFCS ele formo junto com Julio Adiala, Laíres, Juarez, Washington, Macarrão e Prado uma turma para fazer o jornal mais irreverente já feito no IFCS, o “Patuá”. Em torno do Patuá gravitávamos todos nós, em um grupo que também incluía a Rejane, a Denise e uma linda e muito loura gaúcha que depois casou com o Zé Japonês, a Lena. Às vezes se associavam, Dico (Jurandir Leite), Cynthia Dornelles e Paulo Kramer. Kramer: a lembrança de suas tiradas de humor e das imitações impagáveis do Luis Carlos Preste e da Dalva de Oliveira ainda hoje me fazem rir.

Acho que aquele tempo curto em que dividi casa com Lucinha foi um momento fundador nesta história. Hoje penso como é que ela agüentava a minha desordem sendo tão organizada. E a comida? Era um privilégio morar com alguém que de duas ou três coisas que tinham sobrado na geladeira produzia uma sopa ou uma sobremesa maravilhosa. Tudo ela sabe fazer e faz bem. Bordar, costurar, cozinhar, criar pequenos arranjos, lindos acessórios (como uns broches de papier-maché que uma vez inventou), etc. Na casa dela tudo é bonito, organizado e tem sempre um cheiro bom vindo da cozinha. Acho que é a isto que chamam lar. Onde Lucinha viver vai ser sempre um lar. Sou a favor até que se ponha na fachada da casa dela e do Cesinha, lá em Niterói, tal como havia em algumas casas antigas do subúrbio, uma inscrição: Lar de Lucinha. Ela merece.

Paixões e decepções: a velha história (15/2/14)

Outro dia, em uma festa, encontrei com uma amiga, pouco mais nova que eu, que me apresentou ao novo namorado. Sujeito simpático, mais velho que ela (ao contrário do namorado anterior) e muito bem situado na vida. Em momento em que ficamos a sós, perguntei como estava indo o relacionamento e ela disse sem pestanejar que aquele namorado era não só o melhor que já tinha tido como também a pessoa mais legal que ela já conhecera na vida. Naturalmente que o estado de evidente apaixonamento da minha amiga responde por 90% do dito, isto sem demérito do felizardo que é objeto de tanta admiração. É que quando a gente está apaixonada nenhum dos defeitos da pessoa parece evidente. Ou, melhor dizendo, podem até parecer evidentes mas em tudo a gente acha graça.

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Vi na televisão um filme do Ben Stiller, comédia bobinha sobre um sujeito complicado, meio solteirão que o acaso fez encontrar uma garota maravilhosa. Rola um envolvimento, a moça é adorável, adora fazer sexo com ele e eles parecem ter tudo em comum. Ele ainda hesita, mas todo mundo à sua volta diz que ele tem que casar com ela. Casam e partem em lua-de-mel para o México. A viagem começa ótima, com os dois cantando uma canção de que ambos gostavam. Mas foi o restante da trilha musical que começou a marcar a diferença. Não só o repertório que a moça apreciava era insuportável quanto a energia com que ela cantava, aos berros, tornaram o restante da viagem um tormento. E o México ficava longe. Daí para diante o casamento foi ladeira abaixo e não sobreviveu à lua-de-mel.

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A meu ver não é o pouco tempo que dura a relação que define o desastre. Às vezes, uma simples mudança de lugar ou de rotina pode destruir um casamento que vinha sendo, até ali, feliz. Lembro de uma amiga do tempo da faculdade que reencontrei na praia, em Ipanema, muitos anos depois e que vivia há algum tempo com um estrangeiro. Pareciam felizes, o sujeito era meio reservado com os amigos dela, mas entre eles parecia que tudo ia bem. Fui à festa de despedida que os dois promoveram quando, finalmente, depois de anos juntando dinheiro e se preparando, conseguiram comprar e equipar o veleiro onde pretendiam viajar por um ano. Pouco depois, eu soube: o casamento acabou durante o convívio entre o exíguo compartimento que servia de habitação e o tombadilho do veleiro. Não chegaram nem à Bahia.

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Também não foi bom para a relação de 25 anos entre um famoso escritor e uma bela mulher a decisão de viverem juntos. Iam bem, se amavam, mas cada um vivendo na própria casa, cada qual no seu quadrado, como se diz. Daí, resolveram se juntar e a experiência foi tão traumática que se tornaram inimigos para o resto da vida dele, que morreu primeiro e fez questão de apagar o nome da ex-amada de todas as dedicatórias nas novas edições de seus livros.

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Mas há os eternos otimistas, os que não aprendem nunca com a experiência ou talvez tenham uma vontade tão grande de viver de novo o começo de uma paixão que prefiram esquecer tudo o que foi sofrido nas anteriores. Tenho uma amiga que é um verdadeiro fenômeno de repetição. O ciclo já é bem conhecido. Conhece um cara, se encanta por ele, acha que é a pessoa mais incrível do mundo, não sossega enquanto não o conquista e, mais grave ainda, enquanto não casa com o tal sujeito. Aí começa a vida a dois, a compra dos móveis e eletrodoméstico, a decoração da casa, os finais de semana felizes na companhia dos filhos de um e da outra. Mas depois a coisa normaliza, tudo vira rotina e se estabelece o tédio. O marido maravilhoso começa a dar defeito. Quando a gente quer achar defeito em alguém pode procurar que acha mesmo. A infelicidade dela é real e se revela no chorado da voz, no desleixo com a aparência, no aumento de peso e na roupa largada, em meio a um cotidiano de disputas que, com muita frequência, envolvem os filhos. O casamento acaba, ela comemora, começa a se cuidar de novo, fica magra, elegante, bela e, fatalmente, acaba encontrando outro alguém maravilhoso. E a história se repete, se repete, se repete e se repete. Com muito sofrimento para todo os envolvidos.

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Todo o mundo já se apaixonou, se deslumbrou e se decepcionou. E com o tempo isto vai criando um certo ceticismo diante das relações. Aí quando você conhece alguém novo não entra mais de peito aberto e começa a avaliar de forma fria e calculada qualidades e defeitos. Exemplar disto foi uma amiga que me ligou, depois de uma festa de aniversário minha, para pedir referências sobre um ex-namorado meu, que estava lá e com quem iniciara um flerte. Achei a medida muito sensata pois, na verdade, se você pede referências a quem vai trabalhar na sua casa, mais razão ainda tem de pedir sobre um sujeito que vai entrar lá, dormir, conviver com seus amigos e filhos, etc. Nestes tempos de mulheres canalhas como as criadas para o GNT pela sobrinha de Mario Bag, Martha Mendonça, seria o caso mesmo de criar uma tabela como a das escolas de samba, com notas para vários quesitos: evolução, harmonia, bateria. Ou dos dados que se pedem para domésticas: pontualidade, organização, limpeza, confiabilidade, se dorme no emprego...

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Conviver é uma difícil arte. E quem já conviveu muito em relações dos mais diversos estilos sabe que entre o encanto inicial e o tédio de um dia a dia compartilhado não vai uma distância muito grande. Melhor cair das nuvens do que de um terceiro andar, já dizia Machado. O fato é que se o tempo não prepara a gente para tudo nos deixa com a casca mais grossa para suportar as feridas. Mas também marca a nossa vida com uma dose de melancolia e de desencanto. Por isto não pude deixar de invejar a alegria e a confiança de minha amiga com relação ao seu novo amor, o brilho nos seus lindos olhos verdes. Torço por ela que é sensata e inteligente e talvez dê um jeito de não mudar nada do que está dando certo até agora.

Meus mortos e sua geografia (8/2/14)

Tem uma esquina na rua Voluntários da Pátria, onde, sempre que por ela passo me lembro de meu falecido amigo Luis Carlos Saroldi. Apenas porque ali, uma ou duas vezes o peguei, eu dirigindo meu carro para irmos a algum lugar. Saroldi voltara a morar ali junto com mãe de seus filhos depois que tivera um câncer. Tratara-se e parecia curado pois também o  via nas manhãs na Lagoa fazendo seus exercícios. Numa das vezes em que o encontrei na Voluntários e fomos a algum lançamento de livro de amigo comum, falamos da morte. Eu falei da morte e do medo da morte. Como se tanto a morte quanto o medo dela tivessem sido espantados da vida dele. Homem da poesia, da música, do teatro e do rádio que o acaso fizera meu amigo, deixou saudosos a mim e a uma legião de outros tantos amigos.
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Também me lembro de Plínio Doyle sempre que passo pelo Jardim de Alah, em Ipanema. Era ali que ficava seu apartamento, com sala ampla o bastante para reunir toda a confraria do Sabadoyle. Muitos dos que tinham sido os primeiros freqüentadores daquelas reuniões singelas já tinham desaparecido mas a tradição se mantinha por determinação do dono da casa. Era bom saber que todos os sábados de tarde naquele ponto do Jardim de Alah estava o Plínio reunido com seus amigos, em animada conversa, seguida da cerimônia de leitura da ata e do cafezinho com biscoitos. Ali voltei algumas vezes durante a semana em companhia de Homero Senna para entrevistar o dono da casa. Íamos fazer um livro reunindo suas memórias. O livro não saiu, acabou sendo feito pelo próprio Plínio que se animou com as conversas mas preferiu escrevê-lo.
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Junto com Homero Senna visitei também a Américo Jacobina Lacombe em seu apartamento na rua 19 de fevereiro, em Botafogo. Era um prédio muito do bonitinho, com janelas verdes se não me engano e de poucos apartamentos. O prédio foi derrubado e em seu lugar ergueu-se um outro e sempre que passo por aquela rua fico pensando em qual lugar mesmo era o prédio do Lacombe. O presidente da Casa de Rui Barbosa, historiador de mão cheia que na narrativa juntava a história do Brasil à historia de seus ancestrais, contou-nos histórias formidáveis que reuni numa pequena publicação da Casa.
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Homero Senna, ele mesmo já partiu e a última lembrança que tenho dele é sentado em um banco do Largo dos Leões, no Humaitá. Vi-o apenas de longe pois há muito se aposentara. Era uma sombra daquele senhor alto, forte e de aparência sóbria e reservada. Alguns golpes da vida o tinham maltratado. Morava ali perto, numa casa muito boa, em rua agradável sombreada por arvores e sempre que passo pelo Largo dos Leões me lembro da última visão que tive desse antigo diretor do Centro de Pesquisas da Casa de Rui Barbosa, último dos velhos servidores que davam ao lugar uma aura tão especial.
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Toda vez que vou na Tijuca e paramos nas Casas Pedro para comprar castanhas-do-pará me lembro de Aparecida Saramago. Nunca a encontrei ali. Mas a casa dela fica em uma rua que passa detrás daquela loja e a qual se pode chegar por um beco que fica entre a mesma e uma igreja. Rua muito simpática, chama-se Carlos de Laet, toda ela de casas boas onde ainda conheci a viúva de José Madeira de Freitas, o Mendes Fradique, pai de Aparecida. Da pesquisa e do livro que escrevi sobre o autor da “Historia do Brasil pelo método confuso” restou uma amizade com essa dama alta, elegante, de pele e olhos muito claros, nariz aquilino e todos os modos de uma aristocrata inglesa associados à bondade e à delicadeza de uma dona de casa carioca. Quando Aparecida morreu eu estava em Caxambu, participando da ANPOCS e senti muito quando me deram a notícia. Ela me queria tanto bem. Era tão grata pelo reconhecimento tardio que o meu trabalho significou para a memória do pai que dizia que eu era o filha mais nova de Mendes Fradique.
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Não passo pela rua André Cavalcanti, na Lapa, sem tentar identificar o prédio onde morou meu amigo Juarez Araújo. Colega de faculdade, gente boa toda a vida, Juarez era o tipo do cara despachado, virador, muito pobre que estava sempre achando uma forma de ganhar algum dinheiro, dessas pequenas oportunidades que só existem em grandes cidades. Coisa que eu não sabia então e por isso aconselhei Juarez e ir tentar a vida em Fortaleza. Apesar da boa acolhida na casa do Pereira, na Beira-Mar, em Fortaleza não havia os expedientes que um cara virador encontra no Rio de Janeiro para sobreviver. A cidade grande assustadora para quase todo o mundo é o espaço onde um tipo assim sempre pode achar o que fazer. Voltou logo e a última coisa que o vi tentando foi vender livros raros. Achava coisa boa no sebo e procurava vender aos conhecidos do tempo da faculdade. A diabete crônica que o deixara desmaiado uma vez na minha casa, acabou levando cedo esse bom camarada do qual todos nós gostávamos.
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Ficava num pedaço de rua meio escondido de Laranjeiras o apartamento da Rejane. Raramente passo por lá pois é uma espécie de atalho para se voltar de Laranjeiras para Botafogo. Mas quando passo, olho os prédios e tento me lembrar em qual deles morava a minha amiga. Em qual deles ficava aquele apartamento arejado, claro, com o piso de taco muito bem cuidado e na porta do qual se lia: “visitas são bem vindas, especialmente as visitas descalças”. Pois para entrar na casa de Rejane a gente tinha que tirar os sapatos. E sua casa era a casa de todos nós e de nossos filhos. Ela que não os teve, fazia com gosto o papel de tia e madrinha. Pequena, magra, loura e valente era também alguém que trabalhava duramente para viver. E se garantia com a competência e a seriedade com que encarava as tarefas que lhe davam. Apesar de ter desistido da vida acadêmica ainda no mestrado, esteve sempre envolvidas em trabalhos que exigiam pesquisa, conhecimento e boa escrita. Coisas nas quais era craque.