Meus mortos e sua geografia (8/2/14)

Tem uma esquina na rua Voluntários da Pátria, onde, sempre que por ela passo me lembro de meu falecido amigo Luis Carlos Saroldi. Apenas porque ali, uma ou duas vezes o peguei, eu dirigindo meu carro para irmos a algum lugar. Saroldi voltara a morar ali junto com mãe de seus filhos depois que tivera um câncer. Tratara-se e parecia curado pois também o  via nas manhãs na Lagoa fazendo seus exercícios. Numa das vezes em que o encontrei na Voluntários e fomos a algum lançamento de livro de amigo comum, falamos da morte. Eu falei da morte e do medo da morte. Como se tanto a morte quanto o medo dela tivessem sido espantados da vida dele. Homem da poesia, da música, do teatro e do rádio que o acaso fizera meu amigo, deixou saudosos a mim e a uma legião de outros tantos amigos.
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Também me lembro de Plínio Doyle sempre que passo pelo Jardim de Alah, em Ipanema. Era ali que ficava seu apartamento, com sala ampla o bastante para reunir toda a confraria do Sabadoyle. Muitos dos que tinham sido os primeiros freqüentadores daquelas reuniões singelas já tinham desaparecido mas a tradição se mantinha por determinação do dono da casa. Era bom saber que todos os sábados de tarde naquele ponto do Jardim de Alah estava o Plínio reunido com seus amigos, em animada conversa, seguida da cerimônia de leitura da ata e do cafezinho com biscoitos. Ali voltei algumas vezes durante a semana em companhia de Homero Senna para entrevistar o dono da casa. Íamos fazer um livro reunindo suas memórias. O livro não saiu, acabou sendo feito pelo próprio Plínio que se animou com as conversas mas preferiu escrevê-lo.
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Junto com Homero Senna visitei também a Américo Jacobina Lacombe em seu apartamento na rua 19 de fevereiro, em Botafogo. Era um prédio muito do bonitinho, com janelas verdes se não me engano e de poucos apartamentos. O prédio foi derrubado e em seu lugar ergueu-se um outro e sempre que passo por aquela rua fico pensando em qual lugar mesmo era o prédio do Lacombe. O presidente da Casa de Rui Barbosa, historiador de mão cheia que na narrativa juntava a história do Brasil à historia de seus ancestrais, contou-nos histórias formidáveis que reuni numa pequena publicação da Casa.
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Homero Senna, ele mesmo já partiu e a última lembrança que tenho dele é sentado em um banco do Largo dos Leões, no Humaitá. Vi-o apenas de longe pois há muito se aposentara. Era uma sombra daquele senhor alto, forte e de aparência sóbria e reservada. Alguns golpes da vida o tinham maltratado. Morava ali perto, numa casa muito boa, em rua agradável sombreada por arvores e sempre que passo pelo Largo dos Leões me lembro da última visão que tive desse antigo diretor do Centro de Pesquisas da Casa de Rui Barbosa, último dos velhos servidores que davam ao lugar uma aura tão especial.
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Toda vez que vou na Tijuca e paramos nas Casas Pedro para comprar castanhas-do-pará me lembro de Aparecida Saramago. Nunca a encontrei ali. Mas a casa dela fica em uma rua que passa detrás daquela loja e a qual se pode chegar por um beco que fica entre a mesma e uma igreja. Rua muito simpática, chama-se Carlos de Laet, toda ela de casas boas onde ainda conheci a viúva de José Madeira de Freitas, o Mendes Fradique, pai de Aparecida. Da pesquisa e do livro que escrevi sobre o autor da “Historia do Brasil pelo método confuso” restou uma amizade com essa dama alta, elegante, de pele e olhos muito claros, nariz aquilino e todos os modos de uma aristocrata inglesa associados à bondade e à delicadeza de uma dona de casa carioca. Quando Aparecida morreu eu estava em Caxambu, participando da ANPOCS e senti muito quando me deram a notícia. Ela me queria tanto bem. Era tão grata pelo reconhecimento tardio que o meu trabalho significou para a memória do pai que dizia que eu era o filha mais nova de Mendes Fradique.
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Não passo pela rua André Cavalcanti, na Lapa, sem tentar identificar o prédio onde morou meu amigo Juarez Araújo. Colega de faculdade, gente boa toda a vida, Juarez era o tipo do cara despachado, virador, muito pobre que estava sempre achando uma forma de ganhar algum dinheiro, dessas pequenas oportunidades que só existem em grandes cidades. Coisa que eu não sabia então e por isso aconselhei Juarez e ir tentar a vida em Fortaleza. Apesar da boa acolhida na casa do Pereira, na Beira-Mar, em Fortaleza não havia os expedientes que um cara virador encontra no Rio de Janeiro para sobreviver. A cidade grande assustadora para quase todo o mundo é o espaço onde um tipo assim sempre pode achar o que fazer. Voltou logo e a última coisa que o vi tentando foi vender livros raros. Achava coisa boa no sebo e procurava vender aos conhecidos do tempo da faculdade. A diabete crônica que o deixara desmaiado uma vez na minha casa, acabou levando cedo esse bom camarada do qual todos nós gostávamos.
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Ficava num pedaço de rua meio escondido de Laranjeiras o apartamento da Rejane. Raramente passo por lá pois é uma espécie de atalho para se voltar de Laranjeiras para Botafogo. Mas quando passo, olho os prédios e tento me lembrar em qual deles morava a minha amiga. Em qual deles ficava aquele apartamento arejado, claro, com o piso de taco muito bem cuidado e na porta do qual se lia: “visitas são bem vindas, especialmente as visitas descalças”. Pois para entrar na casa de Rejane a gente tinha que tirar os sapatos. E sua casa era a casa de todos nós e de nossos filhos. Ela que não os teve, fazia com gosto o papel de tia e madrinha. Pequena, magra, loura e valente era também alguém que trabalhava duramente para viver. E se garantia com a competência e a seriedade com que encarava as tarefas que lhe davam. Apesar de ter desistido da vida acadêmica ainda no mestrado, esteve sempre envolvidas em trabalhos que exigiam pesquisa, conhecimento e boa escrita. Coisas nas quais era craque.  

Um comentário:

  1. Excelente texto. Meu pai gostava muito do Mendes Fradique. Os demais (Américo Lacombe, Plínio Doyle, etc.) eram uma geração mais nova para ele.

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