Tem uma esquina na rua Voluntários da
Pátria, onde, sempre que por ela passo me lembro de meu falecido amigo Luis
Carlos Saroldi. Apenas porque ali, uma ou duas vezes o peguei, eu dirigindo meu
carro para irmos a algum lugar. Saroldi voltara a morar ali junto com mãe de
seus filhos depois que tivera um câncer. Tratara-se e parecia curado pois
também o via nas manhãs na Lagoa
fazendo seus exercícios. Numa das vezes em que o encontrei na Voluntários e
fomos a algum lançamento de livro de amigo comum, falamos da morte. Eu falei da
morte e do medo da morte. Como se tanto a morte quanto o medo dela tivessem
sido espantados da vida dele. Homem da poesia, da música, do teatro e do rádio
que o acaso fizera meu amigo, deixou saudosos a mim e a uma legião de outros
tantos amigos.
...
Também me lembro de Plínio Doyle
sempre que passo pelo Jardim de Alah, em Ipanema. Era ali que ficava seu
apartamento, com sala ampla o bastante para reunir toda a confraria do
Sabadoyle. Muitos dos que tinham sido os primeiros freqüentadores daquelas
reuniões singelas já tinham desaparecido mas a tradição se mantinha por
determinação do dono da casa. Era bom saber que todos os sábados de tarde
naquele ponto do Jardim de Alah estava o Plínio reunido com seus amigos, em
animada conversa, seguida da cerimônia de leitura da ata e do cafezinho com
biscoitos. Ali voltei algumas vezes durante a semana em companhia de Homero
Senna para entrevistar o dono da casa. Íamos fazer um livro reunindo suas memórias.
O livro não saiu, acabou sendo feito pelo próprio Plínio que se animou com as
conversas mas preferiu escrevê-lo.
...
Junto com Homero Senna visitei também
a Américo Jacobina Lacombe em seu apartamento na rua 19 de fevereiro, em
Botafogo. Era um prédio muito do bonitinho, com janelas verdes se não me engano
e de poucos apartamentos. O prédio foi derrubado e em seu lugar ergueu-se um
outro e sempre que passo por aquela rua fico pensando em qual lugar mesmo era o
prédio do Lacombe. O presidente da Casa de Rui Barbosa, historiador de mão
cheia que na narrativa juntava a história do Brasil à historia de seus
ancestrais, contou-nos histórias formidáveis que reuni numa pequena publicação
da Casa.
...
Homero Senna, ele mesmo já partiu e a
última lembrança que tenho dele é sentado em um banco do Largo dos Leões, no
Humaitá. Vi-o apenas de longe pois há muito se aposentara. Era uma sombra
daquele senhor alto, forte e de aparência sóbria e reservada. Alguns golpes da
vida o tinham maltratado. Morava ali perto, numa casa muito boa, em rua
agradável sombreada por arvores e sempre que passo pelo Largo dos Leões me
lembro da última visão que tive desse antigo diretor do Centro de Pesquisas da
Casa de Rui Barbosa, último dos velhos servidores que davam ao lugar uma aura
tão especial.
...
Toda vez que vou na Tijuca e paramos
nas Casas Pedro para comprar castanhas-do-pará me lembro de Aparecida Saramago.
Nunca a encontrei ali. Mas a casa dela fica em uma rua que passa detrás daquela
loja e a qual se pode chegar por um beco que fica entre a mesma e uma igreja.
Rua muito simpática, chama-se Carlos de Laet, toda ela de casas boas onde ainda
conheci a viúva de José Madeira de Freitas, o Mendes Fradique, pai de
Aparecida. Da pesquisa e do livro que escrevi sobre o autor da “Historia do
Brasil pelo método confuso” restou uma amizade com essa dama alta, elegante, de
pele e olhos muito claros, nariz aquilino e todos os modos de uma aristocrata
inglesa associados à bondade e à delicadeza de uma dona de casa carioca. Quando
Aparecida morreu eu estava em Caxambu, participando da ANPOCS e senti muito
quando me deram a notícia. Ela me queria tanto bem. Era tão grata pelo
reconhecimento tardio que o meu trabalho significou para a memória do pai que
dizia que eu era o filha mais nova de Mendes Fradique.
...
Não passo pela rua André Cavalcanti,
na Lapa, sem tentar identificar o prédio onde morou meu amigo Juarez Araújo.
Colega de faculdade, gente boa toda a vida, Juarez era o tipo do cara
despachado, virador, muito pobre que estava sempre achando uma forma de ganhar
algum dinheiro, dessas pequenas oportunidades que só existem em grandes
cidades. Coisa que eu não sabia então e por isso aconselhei Juarez e ir tentar
a vida em Fortaleza. Apesar da boa acolhida na casa do Pereira, na Beira-Mar, em
Fortaleza não havia os expedientes que um cara virador encontra no Rio de
Janeiro para sobreviver. A cidade grande assustadora para quase todo o mundo é
o espaço onde um tipo assim sempre pode achar o que fazer. Voltou logo e a
última coisa que o vi tentando foi vender livros raros. Achava coisa boa no
sebo e procurava vender aos conhecidos do tempo da faculdade. A diabete crônica
que o deixara desmaiado uma vez na minha casa, acabou levando cedo esse bom
camarada do qual todos nós gostávamos.
...
Ficava num pedaço de rua meio
escondido de Laranjeiras o apartamento da Rejane. Raramente passo por lá pois é
uma espécie de atalho para se voltar de Laranjeiras para Botafogo. Mas quando
passo, olho os prédios e tento me lembrar em qual deles morava a minha amiga.
Em qual deles ficava aquele apartamento arejado, claro, com o piso de taco
muito bem cuidado e na porta do qual se lia: “visitas são bem vindas,
especialmente as visitas descalças”. Pois para entrar na casa de Rejane a gente
tinha que tirar os sapatos. E sua casa era a casa de todos nós e de nossos
filhos. Ela que não os teve, fazia com gosto o papel de tia e madrinha.
Pequena, magra, loura e valente era também alguém que trabalhava duramente para
viver. E se garantia com a competência e a seriedade com que encarava as
tarefas que lhe davam. Apesar de ter desistido da vida acadêmica ainda no
mestrado, esteve sempre envolvidas em trabalhos que exigiam pesquisa,
conhecimento e boa escrita. Coisas nas quais era craque.
Excelente texto. Meu pai gostava muito do Mendes Fradique. Os demais (Américo Lacombe, Plínio Doyle, etc.) eram uma geração mais nova para ele.
ResponderExcluir