Nós que nos amávamos tanto (22/2/14)

Praia de Botafogo, 154, apartamento 1202. Foi nesse endereço que passei parte importante de minha vida. Era um edifício que ficava na esquina da Praia de Botafogo com a Marques de Abrantes e que se chamava Audax. Era não, ainda é. E sempre que passo em frente a ele, indo pelo Aterro para o Centro, gosto de olhar para o alto do edifício e pensar na varanda do meu velho apartamento. Morei ali de 1977 a 1987 e sonho sempre que ainda moro ou que vou lá, mesmo não morando. Na verdade no sonho eu vou lá como se ali fosse uma segunda morada, uma morada alternativa e também que estou lá clandestinamente. A pessoa que atualmente é dona do imóvel pode chegar a qualquer momento. E noto que algumas coisas já não são as minhas coisas do tempo em que morei lá e mesmo assim vou ficando, sempre vendo pelo olho mágico se alguém está chegando, se os verdadeiros donos resolveram voltar.

Não sei porque essa história de clandestinidade pois fui morar ali quando a Maura Pacheco, então namorada do cearense Bené que ali tinha vivido anos, dividindo casa com sua amiga Maíra, ambas médicas, resolveu se mudar. Como eu procurava um lugar, elas passaram o apartamento para mim que o aluguei tendo como avalista a Socorro Brito, irmã de meu cunhado e compadre, Edmilson. Tudo direitinho. É um quarto e sala amplo, claro e arejado, com uma ótima varanda de onde se contempla a vista deslumbrante da baía da Guanabara. Tão bem situado que acho que foi por isso que quando comecei a ter amigos cariocas, amigos que fiz no IFCS, minha casa virou um ponto de encontro. Para reduzir as despesas, convidava colegas para dividir. A primeira foi a Valéria Moreira, figura formidável, inteligente, engraçada, transgressora. Ao par da faculdade ela fazia teatro com o grupo Tá na Rua, do Amir Hadad e se vestia de forma arrojada, roupas grandes e coloridas. Me contou que uma vez, no subúrbio, os meninos da rua seguiram atrás dela, zombando das suas meias listradas multicores e de seus vestidos. Tempos depois a Valéria fez mestrado no antigo IESAE da FGV e sua tese sobre educação era tão ousada quanto ela mesma. Uma verdadeira peça literária.

Depois dividi casa com a Sandra. Uma menina que era ligada à Convergência Socialista, de olhos verdes e ar tristonho. Só morando com ela vi que era alguém com problemas. A Sandra fazia faculdade e trabalhava no Banco do Brasil, à tarde. Chegava em casa às seis, vestia um pijama desses masculinos e cedo ia dormir, creio que tomava remédios controlados. Fazia um panelão de sopa para comer durante a semana e aquela sopa ficava ali sobre o fogão para ser esquentada, acabando por virar uma gororoba de péssimo aspecto. Eu tinha medo que a Sandra fizesse alguma bobagem, como depois vim a saber que realmente acabou fazendo. Confesso que fiquei aliviada quando ela se mudou para a casa de um namorado com quem teve um filho. Anos depois, organizou a vida do filho de forma a que ele fosse viver com o pai dele, comprou um revolver, registrou na delegacia, foi para a casa e se matou.

Mas foi com Lucinha que a minha vida se alegrou. Lucia e eu somos da mesma idade e éramos um pouco mais velhas do que a turma que, com ela passou a fazer parte da minha vida daí em diante. Primeiro, foram o Tonho e o Ivan. O Tonho era o namorado da Lucia e o Ivan Velasco, hoje notável historiador, era seu companheiro inseparável. O Tonho também trouxe para a turma um amigo do Paraná chamado José Álvaro Matida, jovem médico filho de japoneses, que morava na rua Silvio Romero, ali na Lapa. Não sei por quais caminhos o Zé Japonês conheceu e começou a namorar a Bebete (Elizabeth Roland) que trabalhava no BANERJ com outro colega nosso do IFCS, o Felipe.

Naquele tempo muita gente morava em Santa Tereza, dividindo apartamento. Lembro de um na Hermenegildo de Barros que o Ivan dividia com o Tonho e com o Bira. O Bira... onde andará aquela bicha baiana que adorava imitar a Maria Betânia e cozinhava maravilhosamente bem? Uma vez fez uma performance em que ele, negro alto, bonito e magro, vestido uma túnica branca, saía de trás de uma daquelas cortinas artesanais feitas de pequenas conchas arranjadas em fios de nylon, cantando: “sete mil vezes...” A gente mangava muito do Bira. E ele nem ligava. Em 1980, a passagem de uma linda francesa, Martine Kunz, pelo Rio antes de ir para Fortaleza e se tornar o grande amor da vida do Pereira, marcou época entre nós.

Depois Lucia começou a namorar um aluno novo da História, com talento para o desenho, muito do bonitinho, Cesar da Matta Machado, o Cesinha. Nos corredores do IFCS ele formo junto com Julio Adiala, Laíres, Juarez, Washington, Macarrão e Prado uma turma para fazer o jornal mais irreverente já feito no IFCS, o “Patuá”. Em torno do Patuá gravitávamos todos nós, em um grupo que também incluía a Rejane, a Denise e uma linda e muito loura gaúcha que depois casou com o Zé Japonês, a Lena. Às vezes se associavam, Dico (Jurandir Leite), Cynthia Dornelles e Paulo Kramer. Kramer: a lembrança de suas tiradas de humor e das imitações impagáveis do Luis Carlos Preste e da Dalva de Oliveira ainda hoje me fazem rir.

Acho que aquele tempo curto em que dividi casa com Lucinha foi um momento fundador nesta história. Hoje penso como é que ela agüentava a minha desordem sendo tão organizada. E a comida? Era um privilégio morar com alguém que de duas ou três coisas que tinham sobrado na geladeira produzia uma sopa ou uma sobremesa maravilhosa. Tudo ela sabe fazer e faz bem. Bordar, costurar, cozinhar, criar pequenos arranjos, lindos acessórios (como uns broches de papier-maché que uma vez inventou), etc. Na casa dela tudo é bonito, organizado e tem sempre um cheiro bom vindo da cozinha. Acho que é a isto que chamam lar. Onde Lucinha viver vai ser sempre um lar. Sou a favor até que se ponha na fachada da casa dela e do Cesinha, lá em Niterói, tal como havia em algumas casas antigas do subúrbio, uma inscrição: Lar de Lucinha. Ela merece.

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