De qualquer modo, abril tem 30 dias, nome de um filme que vi no século passado, e é tomado por datas históricas. A quase coincidência da data do descobrimento com a data do enforcamento proporcionou uma página divertida no livro do Mendes Fradique "História do Brasil pelo método confuso", publicado entre o final da década de 1910 e o começo da década de 1920.
Diz Mendes Fradique que uma das coisas que Cabral primeiro viu quando desembarcou foi o corpo de Tiradentes pendurado na forca. Indagando sobre de quem se tratava lhe responderam que era o alferes Joaquim José da Silva Xavier que, na véspera tinha sido enforcado como maximalista. "Maximilistas" era como naquele tempo eles chamavam os comunistas e não tem nada a ver com Marx. É apenas a tradução da palavra russa "bolchevique". Mendes Fradique usa e abusa do termo, misturando revolucionários de várias épocas e lugares sob essa nomenclatura que esteve tão presente nos jornais brasileiros na época da Revolução Russa (1917).
E é esse o espírito do livro de Mendes Fradique que me caiu nas mãos por acaso em 1984, quando, trabalhando no Museu da República, eu pesquisava para o meu primeiro livro: "Histórias de presidentes: a República no Catete". Fiquei realmente fascinada pelo livro de Mendes Fradique e procurei saber mais sobre o personagem.
Correndo os sebos do Rio, acabei encontrando em uma livraria, creio que na Av. Marechal Floriano, Seu Santana, velho livreiro que o tinha conhecido pessoalmente. Contou-me que Mendes Fradique - pseudônimo adotado pelo médico capixaba José Madeira de Freitas, tanto em seus artigos quanto nas caricaturas que também fazia -, fora um ativo militante integralista. Ele fora preso e torturado depois do fracassado "putsch" integralista de 1938. Afastado de seus empregos pela ditadura do Estado Novo, sofrera uma sucessão de AVCs e acabara morrendo, triste e esquecido, em seu apartamento na rua Carlos de Laet, na Tijuca.
Foi lá que fui, na sequência de minha pesquisa, encontrar sua viúva, bem velhinha, e ficar amiga para o resto da vida de sua filha, Apparecida Saramago. Daí em diante, só pensei em Mendes Fradique, dedicando ao estudo de sua vida e obra a minha tese de mestrado. Defendida em 1991, no IUPERJ ela foi publicada em 1993, pela editora Bertrand, com o título de "Brasil pelo método confuso: humor e boêmia em Mendes Fradique".
O tema de minha reflexão era o contraste entre aquele humor tão carnavalizado, tão próximo do humor dos modernistas de 1922 com a opção integralista de Mendes Fradique/Madeira de Freitas, dez anos depois. Se o Modernismo teve uma vertente que desaguou no Integralismo- representada pelo seu principal líder, Plínio Salgado, autor de umas tantos romances de qualidade discutível - o tipo de humor de Mendes Fradique nada tinha a ver com aquilo. É um humor muito próximo do de Oswald de Andrade no movimento antropofágico, (mais até do que da "Poesia Pau-Brasil").
Na "História do Brasil pelo método confuso", a mistura de tempos, lugares e referências culturais proporciona uma narrativa absolutamente viva, divertida, inusitada. Ao fazer Cabral desembarcar em um Rio de Janeiro tal como era a cidade no começo de século XX; ser recepcionado por alguns notáveis do País; metê-lo em desconfortável pensão da Rua São José; pegar o bonde; cair em conto do vigário aplicado por um personagem da vida boêmia e, finalmente, casá-lo com Suzana Casterá, a cafetina mais conhecida do Rio, Mendes Fradique antecipa muito do que o humor brasileiro só faria muito tempo depois.
O exemplo mais conhecido desse recurso é o "Samba do crioulo doido", do Stanislaw Ponte Preta. Sobre o qual, aliás, Artur Xexéo, depois de ser repreendido por citá-lo, pois "crioulo" é politicamente incorreto, pensou em renomeá-lo como "Samba do afro-descendente doido". Mas como, lhe disseram que "doido" é conceito que também já entrou para o índex, seria preciso pensar em outro nome.
Minha intenção na tese, e digo tese e não dissertação, porque no tempo em que a fiz ainda se exigia muito de quem a escrevesse, foi entender - a partir da análise tanto de seus livros quanto de seus artigos publicados na imprensa -, sua maneira de pensar o Brasil. E esta era, a meu ver, herdeira da mentalidade que caracterizava a geração boêmia da qual ele foi uma espécie de "benjamin". Mendes Fradique só chegou ao Rio, em 1910. Pegou os últimos tempos da roda boêmia de Olavo Bilac e de Emílio de Menezes. Desde último, aliás, se tornou uma espécie de pupilo. Tendo mesmo acompanhado Emílio naquele viagem histórica a São Paulo em que o grande satírico, recepcionado por Oswald de Andrade, conheceu a fina flor da juventude culta e rica paulistana, que depois aderiria ao Modernismo.
Oswald depois rejeitaria não só Emílio como também tudo o que ele sua geração tinham representado: a poesia parnasiana, o academicismo, o francesismo, etc, etc. Em meu trabalho procurei mostrar o que aproximava e o que afastava aquelas duas maneiras de fazer humor e cultura no Brasil. Para a geração de Bilac o humor era algo que nada tinha a ver com a verdadeira arte. Para os modernistas, o humor era uma forma de expressão artística tão válida como outra qualquer. Oswald foi, entre estes, o que mais abusou dessa forma de expressão tão característicamente nossa, e da qual a geração anterior só se valia como forma de recreação.
Herdeiro dos valores da geração que desaparecia, Mendes Fradique reagiu, não só ao futurismo, ao futebol e ao jazz, quanto ao carnaval e às manifestações da cultura brasileira mais identificadas com nossas raízes africanas. Ele se apegaria a uma visão do Brasil ultrapassada e conservadora que, junto com seu catolicismo profundo, encontraria no Integralismo a forma de militância mais adequada.