Mendes Fradique (21/4/12)

Hoje é dia do Descobrimento do Brasil. Ou será que é o dia em que enforcaram o Tiradentes? Não é o dia do índio, porque esse foi 19. Eu soube porque vi uns protestos no Facebook.

De qualquer modo, abril tem 30 dias, nome de um filme que vi no século passado, e é tomado por datas históricas. A quase coincidência da data do descobrimento com a data do enforcamento proporcionou uma página divertida no livro do Mendes Fradique "História do Brasil pelo método confuso", publicado entre o final da década de 1910 e o começo da década de 1920.

Diz Mendes Fradique que uma das coisas que Cabral primeiro viu quando desembarcou foi o corpo de Tiradentes pendurado na forca. Indagando sobre de quem se tratava lhe responderam que era o alferes Joaquim José da Silva Xavier que, na véspera tinha sido enforcado como maximalista. "Maximilistas" era como naquele tempo eles chamavam os comunistas e não tem nada a ver com Marx. É apenas a tradução da palavra russa "bolchevique". Mendes Fradique usa e abusa do termo, misturando revolucionários de várias épocas e lugares sob essa nomenclatura que esteve tão presente nos jornais brasileiros na época da Revolução Russa (1917).

E é esse o espírito do livro de Mendes Fradique que me caiu nas mãos por acaso em 1984, quando, trabalhando no Museu da República, eu pesquisava para o meu primeiro livro: "Histórias de presidentes: a República no Catete". Fiquei realmente fascinada pelo livro de Mendes Fradique e procurei saber mais sobre o personagem.

Correndo os sebos do Rio, acabei encontrando em uma livraria, creio que na Av. Marechal Floriano, Seu Santana, velho livreiro que o tinha conhecido pessoalmente. Contou-me que Mendes Fradique - pseudônimo adotado pelo médico capixaba José Madeira de Freitas, tanto em seus artigos quanto nas caricaturas que também fazia -, fora um ativo militante integralista. Ele fora preso e torturado depois do fracassado "putsch" integralista de 1938. Afastado de seus empregos pela ditadura do Estado Novo, sofrera uma sucessão de AVCs e acabara morrendo, triste e esquecido, em seu apartamento na rua Carlos de Laet, na Tijuca.

Foi lá que fui, na sequência de minha pesquisa, encontrar sua viúva, bem velhinha, e ficar amiga para o resto da vida de sua filha, Apparecida Saramago. Daí em diante, só pensei em Mendes Fradique, dedicando ao estudo de sua vida e obra a minha tese de mestrado. Defendida em 1991, no IUPERJ ela foi publicada em 1993, pela editora Bertrand, com o título de "Brasil pelo método confuso: humor e boêmia em Mendes Fradique".

O tema de minha reflexão era o contraste entre aquele humor tão carnavalizado, tão próximo do humor dos modernistas de 1922 com a opção integralista de Mendes Fradique/Madeira de Freitas, dez anos depois. Se o Modernismo teve uma vertente que desaguou no Integralismo- representada pelo seu principal líder, Plínio Salgado, autor de umas tantos romances de qualidade discutível - o tipo de humor de Mendes Fradique nada tinha a ver com aquilo. É um humor muito próximo do de Oswald de Andrade no movimento antropofágico, (mais até do que da "Poesia Pau-Brasil").

Na "História do Brasil pelo método confuso", a mistura de tempos, lugares e referências culturais proporciona uma narrativa absolutamente viva, divertida, inusitada. Ao fazer Cabral desembarcar em um Rio de Janeiro tal como era a cidade no começo de século XX; ser recepcionado por alguns notáveis do País; metê-lo em desconfortável pensão da Rua São José; pegar o bonde; cair em conto do vigário aplicado por um personagem da vida boêmia e, finalmente, casá-lo com Suzana Casterá, a cafetina mais conhecida do Rio, Mendes Fradique antecipa muito do que o humor brasileiro só faria muito tempo depois.

O exemplo mais conhecido desse recurso é o "Samba do crioulo doido", do Stanislaw Ponte Preta. Sobre o qual, aliás, Artur Xexéo, depois de ser repreendido por citá-lo, pois "crioulo" é politicamente incorreto, pensou em renomeá-lo como "Samba do afro-descendente doido". Mas como, lhe disseram que "doido" é conceito que também já entrou para o índex, seria preciso pensar em outro nome.

Minha intenção na tese, e digo tese e não dissertação, porque no tempo em que a fiz ainda se exigia muito de quem a escrevesse, foi entender - a partir da análise tanto de seus livros quanto de seus artigos publicados na imprensa -, sua maneira de pensar o Brasil. E esta era, a meu ver, herdeira da mentalidade que caracterizava a geração boêmia da qual ele foi uma espécie de "benjamin". Mendes Fradique só chegou ao Rio, em 1910. Pegou os últimos tempos da roda boêmia de Olavo Bilac e de Emílio de Menezes. Desde último, aliás, se tornou uma espécie de pupilo. Tendo mesmo acompanhado Emílio naquele viagem histórica a São Paulo em que o grande satírico, recepcionado por Oswald de Andrade, conheceu a fina flor da juventude culta e rica paulistana, que depois aderiria ao Modernismo.

Oswald depois rejeitaria não só Emílio como também tudo o que ele sua geração tinham representado: a poesia parnasiana, o academicismo, o francesismo, etc, etc. Em meu trabalho procurei mostrar o que aproximava e o que afastava aquelas duas maneiras de fazer humor e cultura no Brasil. Para a geração de Bilac o humor era algo que nada tinha a ver com a verdadeira arte. Para os modernistas, o humor era uma forma de expressão artística tão válida como outra qualquer. Oswald foi, entre estes, o que mais abusou dessa forma de expressão tão característicamente nossa, e da qual a geração anterior só se valia como forma de recreação.

Herdeiro dos valores da geração que desaparecia, Mendes Fradique reagiu, não só ao futurismo, ao futebol e ao jazz, quanto ao carnaval e às manifestações da cultura brasileira mais identificadas com nossas raízes africanas. Ele se apegaria a uma visão do Brasil ultrapassada e conservadora que, junto com seu catolicismo profundo, encontraria no Integralismo a forma de militância mais adequada.

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