Apelos assim batem no coração de quem desejou mas não pôde ser uma das primeiras a usar a última moda. A liquidação resolve o problema proporcionando a você a posse de coisas antes inacessíveis, ainda a tempo de serem exibidas no finalzinho da estação, que, com sorte, pode se estender por dias que vão além do seu tempo metereologicamente regulamentar. Liquidação é coisa de mulher, ser desejante e determinado, capaz de mergulhar numa caixa de saldos em pleno shopping para resgatar do meio de muita coisa desprezível aquela blusinha maravilhosa da grife do momento.
Folheando revistas antigas achei muitos anúncios de liquidações no Rio de Janeiro do começo do século XX. A primeira revista de moda publicada no Brasil foi A Estação: Jornal ilustrado para a família. Publicação quinzenal, A Estação que saiu regularmente de 1879 a 1904, era a versão em português da revista francesa La Saison que circulara no Brasil até o ano anterior e dividia-se em duas partes: um “Jornal de modas” e um suplemento literário. O primeiro era traduzido da publicação européia, trazia grande quantidade de moldes, riscos e figurinos. Mas o principal problema da revista era o fato de que seus figurinos, concebidos na Europa, estavam sempre em desacordo com as nossas estações climáticas. Problema inevitável sob pena das leitoras não se trajarem de acordo com a última moda de Paris. A Estação prometia, no entanto, dar sugestões para que as toaletes pudessem ser adaptadas. E acreditava que com isto ajudaria a revelar “todo o gosto e engenho de sua gentil leitora.”
Nos anos 1920, o que melhor se vestia no país aparecia primeiro nas lojas da rua do Ouvidor. A via dolorosa dos maridos pobres, como a chamou Machado de Assis, abrigava lojas de roupas e acessórios como a Notre Dame, a Torre Eiffel, a Royal Store, a Casa Raunier e a Sloper. A fama da Ouvidor, no entanto vinha sendo eclipsada desde a inauguração da Avenida Central (Rio Branco), em 1904. Nela ficavam, dentre outras, a Barbosa Freitas & Cia., a Casa Colombo, de roupas e uniformes para crianças e o Ao Barateiro, que, apesar do nome, era especializado em roupas finas para senhoras. No largo de São Francisco de Paula ficavam a Parc Royal, A’ Brazileira e A’ Paulicéa (que, em seu anúncio detalhava a localização: junto aos Fenianos).
Na revista D. Quixote, de 23 de março de 1921, o Parc Royal, “a maior e a melhor casa do Brasil”, anunciava o início de sua grande venda de saldos de fim de estação para o dia 1o de abril. No que fora antecedida pela casa Barbosa Freitas e Cia. que, em “sua venda extraordinária por motivo de excesso de stock” prometia descontos de 20%, 30% e até 50% em todos os artigos sem exceção. A’ Paulicéa, garantia enorme redução no preço de todo o seu “grandioso stock de artigos de verão”: sedas, roupas brancas, morins, cretones, meias e vestidos para crianças. A Casa Isidoro, na Sete de setembro, promovia vendas por preços excepcionais mas apenas por pouco tempo “para dar lugar às grandes entradas de nossos artigos de inverno”.
Já outro anúncio nos advertia que comprar A’ Brazileira era “acompanhar a moda parisiense, fazendo economia e cultuando o bom gosto”. Em número posterior, a loja era ainda mais enfática: “É escusado procurar vantagens em preços iguais aos que oferece A’ Brazileira”. A disputa pela clientela naquele final de verão parece ter pegado fogo, pois, em seguida, A’ Paulicéa, tomada de brios, contra-atacava anunciando que “A’ Paulicéa não anuncia descontos imaginários, mas os seus preços, bem visíveis, provam à evidência que” (assim mesmo, em caixa alta): “NINGUÉM VENDE MAIS BARATO”. E, no final, desafiava: “Confrontem os preços”.
Entre o final de abril e o começo de maio, os anúncios começam a ser substituídos por outros mais elaborados em que se mostram as coleções de inverno. A liquidação de inverno, no entanto, que acontecia entre agosto e setembro, parecia ser bem mais doída para o lojista. Pesarosa, A‘ Paulicéa anunciava “a sensacional venda de todo o seu stock de tecidos de lã, flanelas, boás, cobertores e mais agasalhos, a preços sem precedentes contramarcados pelo custo e outros com grande prejuízo”. Até o Parc Royal, apesar de garantir que ia em “pleno êxito” a sua grande venda de saldos “verdadeiros” (uma alfinetada na concorrência), apelava: “tudo marcado por preços que não nos será possível repetir”.
Os apelos dos lojistas podiam ser sóbrios como em anúncio na revista Careta de setembro 1923 em que a Notre Dame, o Ao Barateiro e A’ Brazileira, juntas prometiam “mais conforto e economia sensível na compra de todos os agasalhos da moda de seu stock: manteaux, costumes, peles e casacos de malha”; podiam prometer descontos modestos, como o da Casa Raunier: 15%, ou serem pretensamente técnicos como o da Casa Colombo, cujo “sistema de venda de saldos uma só vez por ano”, garantia, era único no mercado. O que importa é que apelavam todos para aquele sentimento legitimamente humano, comum a homens e mulheres, que é a vontade de possuir. Ainda que seja de liquidação.