Aproveite: esta oferta é por tempo limitado (23/11/13)

Uma daquelas coisas que me ficaram presas na memória, ocupando espaço no HD sem nenhuma utilidade aparente foi o slogan de uma liquidação de loja de tecidos na Fortaleza de minha infância: Loucuras de setembro. Até começar a escrever essas mal traçadas nunca havia parado para pensar no sentido oculto desse tipo de mensagem que os lojistas mandam aos seus usuais ou virtuais fregueses: liquidação, queima, venda extraordinária, ocasião única, vá correndo aproveitar. Todas remetem a uma situação limite, à possibilidade iminente de perda de uma oportunidade que pode ser a última. O dono enlouqueceu, quer vender por preço irrisório, quer acabar de qualquer maneira com o seu estoque, cabe a você aproveitar, pois o estado de insânia é momentâneo. Dura, em geral, um mês, tempo para mudar as vitrines e apresentar a nova coleção. 
 
Apelos assim batem no coração de quem desejou mas não pôde ser uma das primeiras a usar a última moda. A liquidação resolve o problema proporcionando a você a posse de coisas antes inacessíveis, ainda a tempo de serem exibidas no finalzinho da estação, que, com sorte, pode se estender por dias que vão além do seu tempo metereologicamente regulamentar. Liquidação é coisa de mulher, ser desejante e determinado, capaz de mergulhar numa caixa de saldos em pleno shopping para resgatar do meio de muita coisa desprezível aquela blusinha maravilhosa da grife do momento.

Folheando revistas antigas achei muitos anúncios de liquidações no Rio de Janeiro do começo do século XX. A primeira revista de moda publicada no Brasil foi A Estação: Jornal ilustrado para a família. Publicação quinzenal, A Estação que saiu regularmente de 1879 a 1904, era a versão em português da revista francesa La Saison que circulara no Brasil até o ano anterior e dividia-se em duas partes: um “Jornal de modas” e um suplemento literário. O primeiro era traduzido da publicação européia, trazia grande quantidade de moldes, riscos e figurinos. Mas o principal problema da revista era o fato de que seus figurinos, concebidos na Europa, estavam sempre em desacordo com as nossas estações climáticas. Problema inevitável sob pena das leitoras não se trajarem de acordo com a última moda de Paris. A Estação prometia, no entanto, dar sugestões para que as toaletes pudessem ser adaptadas. E acreditava que com isto ajudaria a revelar “todo o gosto e engenho de sua gentil leitora.”

Nos anos 1920, o que melhor se vestia no país aparecia primeiro nas lojas da rua do Ouvidor. A via dolorosa dos maridos pobres, como a chamou Machado de Assis, abrigava lojas de roupas e acessórios como a Notre Dame, a Torre Eiffel, a Royal Store, a Casa Raunier e a Sloper. A fama da Ouvidor, no entanto vinha sendo eclipsada desde a inauguração da Avenida Central (Rio Branco), em 1904. Nela ficavam, dentre outras, a Barbosa Freitas & Cia., a Casa Colombo, de roupas e uniformes para crianças e o Ao Barateiro, que, apesar do nome, era especializado em roupas finas para senhoras. No largo de São Francisco de Paula ficavam a Parc Royal, A’ Brazileira e A’ Paulicéa (que, em seu anúncio detalhava a localização: junto aos Fenianos).

Na revista D. Quixote, de 23 de março de 1921, o Parc Royal, “a maior e a melhor casa do Brasil”, anunciava o início de sua grande venda de saldos de fim de estação para o dia 1o de abril. No que fora antecedida pela casa Barbosa Freitas e Cia. que, em “sua venda extraordinária por motivo de excesso de stock” prometia descontos de 20%, 30% e até 50% em todos os artigos sem exceção. A’ Paulicéa, garantia enorme redução no preço de todo o seu “grandioso stock de artigos de verão”: sedas, roupas brancas, morins, cretones, meias e vestidos para crianças. A Casa Isidoro, na Sete de setembro, promovia vendas por preços excepcionais mas apenas por pouco tempo “para dar lugar às grandes entradas de nossos artigos de inverno”.

Já outro anúncio nos advertia que comprar A’ Brazileira era “acompanhar a moda parisiense, fazendo economia e cultuando o bom gosto”. Em número posterior, a loja era ainda mais enfática: “É escusado procurar vantagens em preços iguais aos que oferece A’ Brazileira”. A disputa pela clientela naquele final de verão parece ter pegado fogo, pois, em seguida, A’ Paulicéa, tomada de brios, contra-atacava anunciando que “A’ Paulicéa não anuncia descontos imaginários, mas os seus preços, bem visíveis, provam à evidência que” (assim mesmo, em caixa alta): “NINGUÉM VENDE MAIS BARATO”. E, no final, desafiava: “Confrontem os preços”.

Entre o final de abril e o começo de maio, os anúncios começam a ser substituídos por outros mais elaborados em que se mostram as coleções de inverno. A liquidação de inverno, no entanto, que acontecia entre agosto e setembro, parecia ser bem mais doída para o lojista. Pesarosa, A‘ Paulicéa anunciava “a sensacional venda de todo o seu stock de tecidos de lã, flanelas, boás, cobertores e mais agasalhos, a preços sem precedentes contramarcados pelo custo e outros com grande prejuízo”. Até o Parc Royal, apesar de garantir que ia em “pleno êxito” a sua grande venda de saldos “verdadeiros” (uma alfinetada na concorrência), apelava: “tudo marcado por preços que não nos será possível repetir”.

Os apelos dos lojistas podiam ser sóbrios como em anúncio na revista Careta de setembro 1923 em que a Notre Dame, o Ao Barateiro e A’ Brazileira, juntas prometiam “mais conforto e economia sensível na compra de todos os agasalhos da moda de seu stock: manteaux, costumes, peles e casacos de malha”; podiam prometer descontos modestos, como o da Casa Raunier: 15%, ou serem pretensamente técnicos como o da Casa Colombo, cujo “sistema de venda de saldos uma só vez por ano”, garantia, era único no mercado. O que importa é que apelavam todos para aquele sentimento legitimamente humano, comum a homens e mulheres, que é a vontade de possuir. Ainda que seja de liquidação.

Historiadores x jornalistas: um falso conflito (16/11/13)

De vez em quando se tenta estabelecer uma polêmica entre jornalistas e historiadores no que diz respeito ao resultado final de seus trabalhos quando tratam da História. A meu ver essa é uma falsa polêmica pois não vejo manifestações hostis da parte de historiadores contra jornalistas que se aventuram em obras históricas, nem vice-versa. Creio que essa ausência de conflito se deve a uma diferença importante entre os livros de historiadores e de jornalistas. Ela diz respeito à questão que o historiador se propõe a responder quando começa a fazer seu trabalho. Ou seja, a escolha do tema de um trabalho acadêmico tem como elemento detonador uma questão e é em torno daquela questão que ele se desenvolverá. Isto pode tornar a leitura do texto final do historiador menos interessante do que a de um livro-reportagem, por exemplo, no qual muitos e variados caminhos podem ser percorridos pelo redator sem que isto comprometa a qualidade da obra. Ao contrário, essa variedade é que torna alguns desses livros tão empolgantes. No caso do livro do historiador (ou do autor de trabalho acadêmico em geral), sua maior qualidade estará associada não só à quantidade e à qualidade do novo conhecimento que ele agrega mas também ao tratamento analítico que deu ao tema. Fazer isto e ainda produzir texto final capaz de interessar e ser compreensível a um público mais amplo do que o de seus pares continua a ser um desafio para a maior parte desses autores. 

Outro aspecto que merece reflexão diz respeito aos prazos oficiais para a realização de teses e dissertações que foram encurtados há alguns anos. Antigamente uma tese de doutorado era considerada o trabalho final que coroava a carreira universitária. Muita gente levava dezenas de anos para concluir a sua que devia ser uma obra de excelência capaz de modificar a visão que se tinha até então sobre o tema analisado. Hoje, os mestrandos tem que estar com a dissertação pronta em dois anos e os doutorandos com a teses defendida em quatro. A pressão para que teses de doutorado sejam concluídas dentro do prazo, me parece, tem resultado em muitos trabalhos insatisfatórios ou mesmo incompletos. Mesmo assim, sendo uma produção em que estão implicadas muitas questões subjetivas, é difícil avaliar se, com um prazo maior, aqueles trabalhos teriam saído melhores. Até porque, a tese, o livro, o artigo, são apenas produtos de um “self” que um intelectual passa a vida construindo e a pós-graduação é apenas um dos primeiros degraus dessa escada. Isto também, com as devidas ressalvas, torna diferentes os trabalhos de historiadores e jornalistas. Afinal se o trabalho acadêmico hoje pode ser sempre melhorado, modificado, revisto a partir do diálogo com a obra de outros colegas, o livro do jornalista pretende ser, até por razões comerciais, a última e definitiva palavra sobre aquele assunto.

Atualmente, com a ampliação das pós-graduções, com a obrigatoriedade da publicação de trabalhos para pontuar o Currículo Lattes, há uma verdadeira montanha de textos acadêmicos produzidos ou em vias de produção que nem mesmo as editoras universitárias conseguem atender. Por outro lado, aada vez menos as editoras comerciais embarcam na publicação de obras acadêmicas e, quando o fazem estabelecem restrições que descaracterizam a obra para livrá-la do chamado “ranço acadêmico”. Com tais cortes o imenso trabalho investido nas notas e nas discussões teóricas se perde e isto, muitas vezes, compromete o resultado do livro editado. Muitas obras “difíceis” perdem muito de seu valor se apresentadas sob a forma de “vulgatas”.

É preciso preservar, estimular e garantir a divulgação desse tipo de trabalho que é o que, de fato, promove o desenvolvimento cientifico do país. É preciso que haja espaço para que obras que pensam o Brasil como as de Oliveira Viana, Sergio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre,Viana Moog, Caio Prado Junior, Florestan Fernandes, Guerreiro Ramos e Celso Furtado venham à luz. Por isso, me parece que o futuro editorial desse tipo de obra está na exclusiva publicação on-line. Hoje, através dos sites de grandes universidades e bibliotecas brasileiras e estrangeiras já se tem acesso a um grande volumes de trabalhos acadêmicas especializados, com um alcance e uma agilidade que nenhuma editora de livros impressos consegue atingir.  Se essas obras não têm tantos leitores é grande seu poder transformador e multiplicador, através da divulgação que delas os professores nas universidades ou outros autores de trabalhos acadêmicos ao citá-las e comentá-las, ou mesmo os formadores de opinião em seus artigos na imprensa. É evidente que, por caminhos variados, as idéias de alguns dos clássicos citados acima estão presentes também na forma com que jornalistas e escritores apresentam a História do Brasil em seus livros voltados para o grande público.


Acredito que há lugar para todos e a cada livro corresponde um tipo de leitor. Há livros de história escritos por não historiadores que atendem perfeitamente a um leitor de cultura mediana e, ao meu ver, suprem o nível de conhecimento que o não especialista precisa ter sobre o assunto. Muitas deles, aliás, são corretamente pesquisados, bem escritos e, por vezes, representam o primeiro ou o único contato que o leitor vai ter com aquele assunto. Outros são trabalhos que apresentam análises discussões tão consistentes quanto as que se desenvolvem na academia. Aliás, é sempre bom lembrar que, no Brasil, antes da criação dos cursos de História, grande parte da produção historiográfica era feita por jornalistas. Jornalistas como Raimundo de Magalhães Júnior e Francisco de Assis Barbosa produziram obra de fôlego como as biografias - nunca superadas em qualidade - de Deodoro da Fonseca, o primeiro, e de Lima Barreto, o segundo. Qualquer historiador deve se sentir honrado com tão boas companhias.

Pequenos assaltos (2/11/13)

Bato três vezes na madeira antes de dizer que, nestes 36 anos de Rio de Janeiro nunca fui assaltada. Quer dizer, isto se não contar aquele dia em que passando de carro em frente da Cobal de Botafogo, numa retenção de trânsito, fui abordada por um garoto de seus 14 anos, magro, amarelo, muito franzino, como um desses personagens de filme sobre a seca no Nordeste. A diferença é que havia nele algo de gasto, de desmoralizado, de cínico e aquela ousadia do que sabe que não tem nada a perder, tão característica dos meninos de rua da cidade grande. Ele encostou na janela do carro e me disse alguma coisa que me pareceu “isto é um assalto”. Ou nem precisou dizer pois, por conta das tantas histórias que a gente ouve de meninos assaltando carros armados com caco de vidro, eu lhe dei o dinheiro que tinha em um movimento automático. Isto faz tanto tempo que o carro nem tinha ar condicionado, pois ainda não tinha virado uma regra essencial de sobrevivência na selva andar com os vidros fechados.

Por causa desse história de ar condicionado me lembrei de outra. Foi em São Paulo, numa breve viagem, daquelas bate e volta, para participar do júri de um concurso da Folha. Eu ia para o aeroporto e o taxi contratado pelo jornal para me levar não tinha ou estava com o ar condicionado quebrado. Por alguma razão que só a realidade paulistana pode explicar, os taxistas que pego ali não costumam ligar o ar. O fato é que o calor do dia abafado me fez ficar de janelas abertas, durante um daqueles engarrafamentos tradicionais da cidade. Estávamos em cima de um viaduto, eu tinha posto a maleta com notebook no chão, justamente temendo um roubo, mas conservava a bolsa no colo. Eis que, senão quando, dois jovens magros, altos e claros que vinham andando pela margem, passaram por mim e, de repente, um deles meteu a mão pela janela, arrancou minha bolsa e saiu correndo. O susto foi grande mas o medo de ficar sem os documentos para voltar para casa foi maior.

Abri a porta do taxi e corri atrás deles. Ainda os vi de cima do viaduto, lá em baixo, correndo para uma das ruas daquela região, creio que Bela Vista, e de lá fiquei gritando para eles: devolve, devolve! Eles me viram, me ouviram, creio até que sorriram e seguiram caminho. Pedi ajuda a dois guardas de trânsito mas eles não me deram a menor bola. Não era da alçada deles, eu acho. O taxi teve que seguir adiante pois o trânsito andou e eu me vi ali em cima de um viaduto daquela estranha cidade (como os cariocas gostam de chamar) sem dinheiro, sem documentos, sem celular, pensando no que fazer. Confesso que não entrei em pânico. Lá de baixo, enquanto eu esperava alguma coisa acontecer, alguém me chamou: Isabel, Isabel! Olhei e vi um sujeito moreno, junto com outras pessoas, todas com cara de gente trabalhadora que, lá de baixo, acenavam para mim perguntando: Você é Isabel? Desci. Ele estava com os meus documentos, por isso me chamava pelo nome.

Os ladrões tinham largado minha bolsa na calçada em frente da oficina dele. Era uma oficina de conserto de bombas d’água, creio eu e a turma que trabalhava lá era super simpática. Pareciam personagens de música do Adoniran Barbosa, aquela mistura popular tão paulistana que inclui sempre um italiano, um negro e um nordestino e mais um que mistura isto tudo. Minha bolsa estava esvaziada, sem dinheiro, sem celular, sem óculos, sem... enfim, só sobrou o que não valia nada. Para o ladrão, claro, porque para mim foi ótimo achar o telefone do pessoal da Folha que, acionado, logo entrou em contato com o taxi dizendo onde eu estava. Chegou o taxi junto com uma patrulhinha. O policial – sem muito interesse - perguntou se eu queria ir à delegacia prestar queixa. Imagine. Eu só queria conseguir chegar em casa. Fui para o aeroporto com o número do bilhete e embarquei sem um tostão e com um medo danado que acontecesse mais algum imprevisto.

Mas isto não vale porque foi em São Paulo. No Rio, além do episódio do menino amarelo, uma vez me levaram cinqüenta reais. Não foi exatamente um roubo. Estacionei meu carro atrás do Circo Voador, ali na Lapa. Era de noite mas era relativamente cedo, o lugar estava cheio de carros mas meio vazio de gente. O rapaz disse que olharia o carro para mim e me pediu adiantado os dois reais de praxe, eu abri a bolsa peguei uma nota de cinqüenta que era o que eu tinha e, estupidamente disse, com a nota na mão, não tenho dois reais, só cinqüenta. Ele rapidamente respondeu: eu troco. Pegou a nota e saiu correndo pelos becos escuros do entorno da rua do Lavradio e nunca mais foi visto. Eu fiquei com cara de trouxa. Ainda procurei uns guardas que estavam no Largo conversando com os ambulantes, para reclamar. Afinal cinqüenta reais ainda eram alguma coisa e, nem era tanto pelo dinheiro, mas pela forma como me tinha sido levado. Os guardas me olharam como quem olha para alguma marciana, como quem diz: Hellôôô, isto é a Lapa, madame, se toca. Só mesmo sendo muito otária para ficar ali à noite, numa esquina deserta, com uma nota de cinqüenta na mão.


Essas histórias me voltaram agora que sou atormentada por uma dúvida. Desconfio que me cobraram preço extorsivo pelo serviço de colocação das minhas janelas de guilhotina. O sujeito que cortava a madeira indicou o que colocava a janela que indicou o que fazia os pesos. O que cortava cobrou um preço muito elevado, o que colocou cobrou outro tanto e o dos pesos foi na mesma toada. A alegação de todos é de que era um serviço exclusivo, ninguém mais fazia. Como não pude fazer uma profunda pesquisa de mercado, fiquei com o que me disseram e paguei o que me pediram. Mesmo assim, restou a dúvida: será que eles não combinaram tudo entre si, incorrendo no artigo do código penal que tipifica a formação de quadrilha? De qualquer maneira, como não posso fazer nada mesmo fico com sensação igual a que tive naquela esquina da Lapa, vendo o garoto que se escafedia lépido e certamente feliz com a minha nota de cinqüenta muito bem presa em uma das mãos.