O encontro com os “bo-bos” em Franca (5/11/13)

Entre 9 e 13 de setembro passado estive em Franca onde pronunciei a conferência de abertura da XIXa. Semana de História. Convite dos mais lisonjeiros pois, organizado por minha colega Valéria Guimarães, aquele encontro foi marcado pela presença de convidados internacionais dos mais ilustres e de uma outra convidada brasileira não menos ilustre: Jerusa Pires Ferreira. Jerusa que, por motivo de saúde, só pode participar através de vídeo conferencia, dividiu a mesa com Loïc Artiaga, professor da Université de Limoges.

Jerusa conversou conosco pela telinha do computador sobre “edições populares e a cultura das bordas”. Segundo Jerusa foi ao fazer um levantamento de editoras, autores e livros populares brasileiros que o tema dos desdobramentos do fenômeno da cultura midiática no Brasil se lhe colocou, sob a forma do que chama Cultura das Bordas. Apesar de relacionada principalmente com o universo do livro e da edição popular, a cultura de bordas abarca diversas outras manifestações das periferias urbanas que trafegam por circuitos não convencionais, valendo-se de imaginários recorrentes e provcando conjunções inesperadas. 

Loïc Artiaga, analisou um fenômeno literário interessante. O da circulação de determinadas obras que fazem imenso sucesso em seu lançamento em comparação com outra que aparecem discretamente e vão ganhando volume ao longo do tempo. Ele comparou a repercussão no mundo de duas obras publicadas no começo do século XX, o primeiro volume da série de romances-folhetins em torno do personagem Fantômas e o “O Caminho de Swan” de Marcel Proust. Artiaga comparou mapas e estatísticas de circulação editorial demonstrando a oposição entre o avassalador sucesso inicial do primeiro e o limitado sucesso do segundo com a progressiva inversão dessas posições. Suas conclusões nos fazem pensar sobre o destino de alguns best-sellers da atualidade. 

Éric Maigret, da Universidade Paris III, falou sobre as novas mídias, no que concerne especialmente à comunicação virtual. A seu ver, existiria hoje uma divisão esquizofrênica no contexto da comunicação de massa entre “cultura” e “Cultura”. Ele observa que, hoje, quase todas as práticas culturais, inclusive as mais “elevadas”, se valem das modernas mídias. Ou seja, essas práticas não correspondem mais à antiga cisão cultural que fazia com que programas de TV, de rádio e outras manifestações menos ortodoxas fossem associadas à “cultura” com letra minúscula. Assim, essa pluralização das ordens de legitimidade ficaria hoje bem compreendia no conceito de “pós-legitimidade cultural”.

Finalmente falou o convidado mais conhecido no Brasil, Dominique Kalifa, da Sorbonne. Segundo Kalifa, desde a metade do século XIX, a questão da produção cultural voltada para a maioria representou um desafio. Hoje, o debate estaria sendo retomado pela História e pelas Ciências Sociais diante de um mundo globalizado pela comunicação virtual. Cultura popular, cultura de massa, cultura midiática tornaram-se novos campos de batalha onde se enfrentam, outra vez, abordagens estéticas, ideológicas e científicas. Kalifa estabelece a cartografia desses debates, com ênfase na História.

Foi um encontro e tanto, especialmente porque, estando em Franca por quase uma semana, todos no mesmo hotel, almoçando juntos, indo e voltando da UNESP nos mesmos carros, pudemos conversar longamente sobre os mais variados assuntos. Durante almoços e jantares nos ótimos restaurantes de Franca ou reunidos na bela casa de meus velhos amigos, Susani e Jean Marcel de Carvalho França, também professores da mesma universidade, rimos à vontade. De fato, foi um luxo, aproveitar a companhia de Kalifa para falar de literatura policial, um dos temas em que é especialista e poder trocar figurinhas com Eric Maigret, dono de sobrenome do meu comissário favorito, que sabe tudo sobre quadrinhos e cultural underground dos anos 1960/70. Foi, aliás, a partir de uma expressão surgida na fala de Maigret que emergiram os papos mais divertidos. Maigret citou, a propósito desses universos sociais sincréticos em que se misturam elementos culturais de origens variadas, os chamados bo-bos, “bourgeois bohemes”. Eu não conhecia a expressão mas, pela quantidade de entradas que achei no Google, vi que ela é bem conhecida. 

O bo-bo é burguês de origem e boêmio por natureza. Não é o tipo do boêmio auto-destrutivo e pessimista. Não. O bo-bo acredita que seja possível viver de igual para igual com pessoas de originadas em classes sociais diferente da sua. Seu otimismo e sua boa-vontade para com o que vem do povo, faz com que ele adote uma atitude benevolente diante de manifestação popular. Essa benevolência cega do bo-bo impede que ele enxergue o quanto é irritante sua elegia da “vida simples da gente do morro” para quem vive mesmo no morro. Daí que, depois de certo tempo de convívio, ambos, o bo-bo e pessoa do povo que ele escolheu para idealizar, quedem decepcionados um com o outro. Afinal, o bo-bo mora ou trabalha em lugares degradados –favela, subúrbio, centro da cidade ou vilazinha no interior – porque escolheu. O fato é que, para onde vai, o bo-bo leva sua atitude elegante, sua boa aparência e sua bagagem cultural subjetiva. E os lugares e as pessoas que antes ali viviam e trabalhavam não serão mais os mesmos depois da chegada do bo-bo. Pois o bo-bo é sempre fashion: da sandália havaiana, passando pela camiseta, até os óculos, nada que o bo-bo use parece comum. Mesmo que seja. 

Como qualquer conceito o de bo-bo é bastante elástico. Nele cabem tanto aqueles nossos amigos de juventude que iam para o interior criar abelhas quanto os que, motivados pela militância política, tornaram-se operários e favelados. Embora tenda sempre para a esquerda, o bo-bo de hoje, tornou-se um defensor radical da natureza e da causa ambiental. Desiludido com os políticos, cujas práticas são a negação de seus ideais românticos, o bo-bo contemporâneo se empolga facilmente com os que agitam bandeiras negando a política. Tal como no passado, os ideais os guiam e os ideais os perdem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário