Nos últimos tempos tenho pensando muito em Joaquim Gonçalves Ledo. Nome de rua em muitas cidades brasileiras, Gonçalves Ledo teve participação decisiva na nossa Independência. Foi um de nossos primeiros jornalistas e cheio de ideias modernas para o seu tempo, lutou intensamente para que o Brasil tivesse uma constituição feita por uma assembleia reunindo representantes eleitos pelo povo. É bem verdade que esse povo, apesar de ser, em sua maioria, composto de homens negros livres e pardos, não incluía os escravos que correspondiam a quase um terço da população.
Ledo ocupa meus pensamentos não só por conta do sua trajetória, mas também de seu destino. Ele foi praticamente esquecido e isto, pouco depois da Independência, momento em que sua estrela mais brilhou. Penso em Ledo porque ele foi injusta e cruelmente perseguido pelo Patriarca da Independência, José Bonifácio de Andrada e Silva. A atitude do grande Andrada, maior nome da Ilustração Brasileira, com grande prestígio na Europa, homem de visão que, com um pouco mais de ano e meio de ação efetiva no Ministério de D. Pedro, foi capaz de definir o rumo que deveria tomar o Brasil independente, foi de uma mesquinharia atroz no que diz respeito a Gonçalves Ledo.
Ledo era republicano e aderira ao projeto de implantação de uma monarquia constitucional no Brasil depois da Revolução Constitucionalista do Porto, acontecida em agosto de 1820. A onda de progresso que marcara o reinado de D. João no Brasil fora também um fator de arrefecimento do entusiasmo republicano, especialmente no Centro-Sul do Brasil. Rio de Janeiro, Minas e São Paulo tinham se beneficiado imensamente, sobrando até uma beirada para o Rio Grande do Sul. Mesmo no norte do Brasil, a abertura dos portos propiciara mudanças profundas na economia. Insatisfação havia no nordeste, como bem o demonstrou Evaldo Cabral de Mello, contra o predomínio do Rio e o alto custo de manutenção da Corte, que provocara a elevação dos impostos nas outras províncias. E este foi o fator de estímulo à revolução de caráter republicano e separatista ocorrida em 1817, em Pernambucano.
De modo que, os liberais brasileiros (o que havia de mais à esquerda naquele momento) deram total apoio às ações no sentido de fazer com que o rei se submetesse à Constituição que seria produzida pelas Cortes de Lisboa. Acontece que, lá em Portugal, havia mágoa profunda contra o Brasil. Ao projeto de regeneração do País parecia ser necessário o restabelecimento do exclusivo comercial, pois sem ele, a economia portuguesa não teria chance de retomar a pujança que tinha antes da invasão francesa.
Foi Gonçalves Ledo, nas páginas de seu jornal "Revérbero Constitucional Fluminense", a partir de análise do "Manifesto de Portugal aos povos e soberanos da Europa", quem demonstrou como na política das Cortes estava implícita a intenção recolonizadora. Pensamento que impulsionaria o movimento pela Independência e que seria o mesmo de Hipólito da Costa, sendo também adotado por José Bonifácio no texto que redigiu para o "Manifesto dirigido às Nações Amigas por D. Pedro", em 6 de agosto de 1822.
Foi com sua ação intensiva no sentido de que o Brasil tivesse a sua própria Assembleia Constituinte, movimento que contrariava a vontade de José Bonifácio, que Ledo realmente se superou. Sua retórica exaltada, que alcançava nas páginas do "Revérbero" notas talvez excessivamente altas, terá mais força e beleza naqueles documentos. São exemplos de sua poesia: "Assaz te conheci, demasiado te servi", sobre a relação do Brasil com Portugal; "Pequenas considerações só devem estorvar pequenas almas", estimulando D. Pedro a aderir. Ou ainda, a frase que abre o manifesto de 1º de agosto de 1822: "Está acabado o tempo de enganar os homens!"
A disputa entre José Bonifácio e Gonçalves Ledo não teve a ver com uma diferença essencial de projetos para o Brasil. Ambos queriam conservar a unidade do País com as províncias subordinadas a um centro de poder representado pelo príncipe. Ambos queriam que um código de leis regulasse a vida da nação. Ambos propunham uma relativa autonomia das províncias mas conservando-se a liderança do Centro-Sul. Ambos queriam criar uma Marinha de Guerra capaz de proteger o nosso território. Ambos tinham uma visão positiva, moderna e sem preconceitos da miscigenação do povo brasileiro.
A disputa entre José Bonifácio e Gonçalves Ledo foi uma disputa pelo poder em que o paulista levou a melhor. A rivalidade entre os dois vinha se agravando desde a campanha pela Constituinte. Ledo era redator do jornal mais importante, dono de uma retórica capaz de fascinar um jovem como D. Pedro, ao qual atraiu para a Maçonaria da qual era o líder. A inimizade velada se tornaria ostensiva depois da Aclamação. No final de outubro de 1822, José Bonifácio demitiu-se e só voltou ao ministério depois de arrancar do Imperador autorização para processar e prender Ledo e seu grupo sob a falsa denúncia de conspiração republicana.
Dos companheiros de Ledo, alguns foram presos, outros deportados. Ele preferiu fugir para Buenos Aires, pois soube que, se fosse preso, seria enforcado. Quando voltou ao Brasil, no final de 1823, eram José Bonifácio e seus irmãos que partiam para exílio, inimigos que haviam se tornado do Imperador. Não havia o que comemorar. A assembleia pela qual Ledo tanto trabalhara fora dissolvida e a Constituição que queria feita pelos representantes do povo seria outorgada pelo Imperador, em março do ano seguinte.
Consta que Ledo, antes de morrer, em 1847, queimou todos os papéis importantes que guardava. Será? É o que dizem mas me ponho no lugar de Ledo e não me vejo queimando a memória da coisa mais importante que fiz na vida. A ideia que me persegue é que, em algum lugar esquecido do Estado do Rio, alguém tenha uma mala cheia de papéis velhos a que nunca deu importância e que esses sejam os papéis de Gonçalves Ledo.
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