“O namorado do ano nunca está sem calças ele usa Rony´s”, este foi o slogan criado por Cláudio Pereira para o concurso “O namorado do ano”, um dos tantos que ele promoveu na Fortaleza dos anos 1970. Não sei que argumentos Pereira usou nem que recursos recebeu do patrocinador – o fabricante dos jeans Rony´s - para os eventos relativos ao concurso. Na verdade, esses eventos resumiam-se aos artigos que o Pereira publicava em sua coluna “Patrulheiros Toddy” e às farras homéricas em sua casa da Beira Mar ou no Bar do Anísio, regados a baldes de Cuba Libre. Pode ser até que o apoio do patrocinador tenha sido apenas o fornecimento desse indispensável combustível.
Os candidatos eram amigos e parentes, que não viam com muito entusiasmo a aparição nas páginas na imprensa. Eu, que era o tema preferido do Pereira naquele ano, já tendo sido eleita Garota Cultural, tinha também um namorado que figurava entre os candidatos, o músico e compositor Stélio Valle. O Stelinho era forte candidato, pois segundo a coluna, fizera para mim uma serenata em que cantava esses versos inspirados: “Isabel, que redentora és tu que escravizaste meu coração?”. É de lascar aparecer no jornal associada a poesia de tal qualidade. Mas em se tratando do Pereira o melhor era não reclamar. De resto, não adiantava nada mesmo.
Arrastando um chinelinho
Creio que foi também nesse tempo que a Clélia namorou o Joaquim Cartaxo. Papai e mamãe tinham a maior implicância com o Cartaxo. É que o Cartaxo andava “arrastando um chileninho” como eles diziam. Vestia-se, aliás, como meu filho e seus amigos se vestem hoje, bolsa a tiracolo e roupas (muito) despojadas. Aspecto pouco apresentável para candidato ao posto de namorado de filha do seu Costa e ainda por cima da queridinha do papai. Papai tinha tanta confiança na Clélia que era ela quem dirigia o carro da família. Uma vez o carro andou apresentando uns problemas de bateria. A água secava logo. O papai, irritado, comentou com o filho caçula: “Não sei por que a água dessa bateria anda secando tão rápido.” O Fred que conhecia a implicância do papai com o Cartaxo, só de molecagem falou: “Sabe o que é, papai? É que o Cartaxo é viciado em água de bateria. De vez em quando ele vai lá co m um canudinho e bebe tudo.”
Brito
Genro mesmo de qualidade, totalmente aprovado pelo sogro era o Edmilson, marido da Socorro. Francisco Edmilson Brito era cabra bom do Juazeiro, gente que gosta da terra, de um tipo de família genuinamente sertaneja, à qual o papai logo se afeiçoou. Papai gostava tanto de ter Socorro e Edmilson por perto que insistiu muito para que eles comprassem a terra contígua ao sítio dele, lá no Camará. Coitado do Brito que, com seu modesto salário do Banco do Nordeste ia ao cinema com a namorada levando os três irmãos mais novos, Clélia, Isabel e Fred. Foi assim que assisti no Cine Art e me apaixonei definitivamente pelo “Mogli” e suas maravilhosas canções adaptadas com a maior competência para o português. “Só uso o necessário”, tema do Balu; a marcha dos elefantes “Esse nosso batalhão, é uma instituição...”; além da música daqueles urubus malandros fantásticos e da do reino dos ma cacos, todas ótimas.
Belo par
Mas o genro mais bonito que pintou no pedaço foi mesmo o Benevides. José Evenilde Benevides Martins, o namorado da Lucia era representante do Laboratório Carlo Erba quando começaram a namorar. Andava em um jipinho azul clarinho, o que, para nós, que tínhamos apenas o carro da família, era o que podia haver de mais bacana no mundo. Aliás, a Lucia e o Zé formaram o casal de namorados mais bonito da família. Ela era lindinha mesmo. De beleza diferente das irmãs, Lucia tem um tipo menos Lustosa e mais Ferreira Costa. Certa semelhança com a tia freira, Clélia, no tipo físico delicado, no tom mate da pele, nos cabelos castanhos levemente encaracolados, nos olhos vivos. Uma amiga que a conheceu, há poucos anos no Rio e que costuma ser muito crítica nesses quesitos observou: “Como ela é bonita. E chique.” Fui eu quem levou as alianças em seu casamento e seu vestido de noiva, criado por ela mes mo, foi o que de mais moderno, elegante e, ao mesmo tempo, discreto, se usou Fortaleza daquele tempo.
Mãos finas
Dentre as histórias de papai que contei para o Mario Bag, uma das que ele mais gosta é a dos critérios dele para identificar se um sujeito é trabalhador ou não. É apertar-lhe a mão e sentir se palma é áspera ou lisinha e macia. No primeiro caso, trata-se de sujeito trabalhador. No segundo, de cabra folgado, incapaz de pregar um prego, de consertar uma pia, de trocar um pneu de carro. E Mario Bag que não conheceu papai imagina que se aqui tivesse vindo no tempo dele ouviria sua ordem ao fiel escudeiro Antonio Gomes: “Antonio, veja a mão desse cabra aí.” E Mario Bag seria logo reprovado, pois desenhar não deixa a mão áspera. É ofício que pede mesmo mãos macias e movimentos leves. Valmir Lopes de Lima, marido da Clélia, com suas mãos de intelectual de hábitos sofisticados também não deve ter merecido boa nota. No entanto, quando casaram, a noiva era mulher independente, cujas sensata s decisões os pais tinham aprendido a respeitar. A entrada da Clélia na igreja conduzida pelos dois, o pai e a mãe, é cena de profundo simbolismo.
“Devolva-me”
De resto, já não se fazem mais namorados nem namoros como antigamente. Namoro era coisa séria que envolvia a família da namorada sempre atenta na preservação da boa imagem da moça. Acabado o namoro devolviam-se cartas e presentes. Aliás, não poderia terminar essa crônica sem contar o caso daquele namorado da mamãe que, na Paraíba do começo dos anos 1930 mandou-lhe muitas cartas e que, findo o namoro, como era de praxe, as obteve de volta. Voltaram cheias de correções em vermelho. Mamãe que era professora nunca perdoou erro de português. Coitado desse namorado, além de levar um fora ainda foi reprovado naquela matéria.
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