Mas, parece que tem gente que precisa delas para viver. Tem gente que só curte uma festa se tiver algum barato, se puder ficar doidão. Tem gente que só trabalha ligado e precisa de um combustível para alimentar a energia que seu trabalho exige. Tem gente que desenvolveu uma dependência, precisa da sua droga e fica muito infeliz se não obtiver.
Tem gente que ficou totalmente viciado, se desespera se não conseguir a droga que aplaca o seu vício e é capaz de fazer qualquer loucura para a conseguir. Tem gente que fica tão desesperado pela droga que acaba mesmo se tornando traficante para poder ter acesso fácil.
Felizmente é uma parte pequena da humanidade. Não conheço as estatísticas mas creio que a maior parte das pessoas toca a vida sem necessidade de estimulantes. A maior parte nem bebe, nem fuma. Outra parte expressiva consome álcool de forma moderada ou apenas em ocasiões especiais.
E, mesmo aqueles que não dispensam uma cervejinha no final do dia não representam o maior grupo. Claro que é grande desgraça quando alguém faz deste pequeno prazer que é tomar uma cervejinha, ou uma dose de uísque de vez em quando, um vício. Quando uma cervejinha só já não basta. Quando é preciso beber todos os dias. Quando a vontade de beber já começa ao acordar. Quando se torna um impulso incontrolável e o sujeito tem que dar uma escapada do trabalho para ir na esquina tomar uma.
Quando esconde garrafas em todos os lugares a que tem acesso. Quando as pessoas fazem pelas suas costas aquele sinal com o polegar apontando na direção da boca. Quando o ar em torno dela cheira a álcool para quem está a metros de distância. Quando relaxa totalmente e já não liga mais para o que pensam nem para o que dizem. Quando a bebida se torna a coisa mais importante e tudo o mais, família, trabalho, amigos, lazer passa a ser secundário.
O alcoolismo é fator de destruição de muitas vidas e de muitas famílias. No entanto, será que a melhor forma de impedir essas tragédias pessoais seria a proibição do álcool? Será que criminalizando a venda e o consumo do álcool evitar-se-iam esses dramas?
Imagine que o álcool fosse proibido no Brasil. Quem desejasse tomar uma cerveja, um vinho, uma cachaça ou um uísque teria que recorrer aos contrabandistas que se esconderiam em lugares perigosos. Seriam contrabandistas ou fabricantes que cobrariam altos preços pela mercadoria de baixa qualidade. Esses criminosos teriam que organizar seu esquema de segurança para não serem presos e para evitar isto pagariam elevadas propinas a policiais corruptos.
Ao mesmo tempo, quando um dos fregueses não pagasse a mercadoria ou quando alguém tentasse competir junto à sua clientela, ao invés de recorrer aos mecanismos legais de Justiça teriam que agir por conta própria criando sua própria polícia. E, em um ambiente sem lei, o assassinato, o sequestro e a tortura se tornariam práticas corriqueiras.
Beber, fumar, cheirar, tomar estimulantes são ações individuais que, tal como pular de asa-delta, por exemplo, têm que ser baseadas no livre arbítrio. Você faz porque quer e arca com as consequências. A natureza e o caráter de cada um é que define se o sujeito é propenso a se tornar ou não um dependente. E se tiver essa tendência, nenhuma lei do mundo vai impedi-lo de se tornar.
O custo da repressão ao tráfico de drogas tem sido comparado com a época da Lei Seca nos EUA quando a máfia siciliana controlava o comércio clandestino de bebidas e a violência de suas ações associada à corrupção da polícia demonstrou o equívoco daquela política. Hoje em dia, o drama do dependente e de sua família é consideravelmente aumentado quando seu vício está associado a uma d roga ilícita. Aí, os sofrimentos físicos e psicológicos são agravados pelo medo da violência latente que envolve a relação com o traficante.
Está na hora da sociedade se conscientizar de que as leis atuais, além de não terem conseguido impedir que as pessoas que queriam usar drogas usassem, a fazem pagar um alto preço para financiar uma política ineficaz. O custo da guerra às drogas atinge a toda a sociedade, as despesas com a segurança pública são imensamente aumentadas pelo combate ao tráfico; a violência das quadrilhas atinge indiscriminadamente os trabalhadores pobres que têm a infelicidade de viver em sua área de influência. Para impedir que um pequeno grupo se divirta ou se destrua, o resto da sociedade está sendo sacrificado. E mesmo o tratamento dos viciados fica prejudicado pois o dinheiro que poderia ser investido nele está sendo gasto com o dispendiosíssimo combate ao tráfico.
Legalizem as drogas. Todas elas. Deixem que empresas como as que hoje fabricam bebidas, cigarros e medicamentos cuidem do negócio, garantindo que não venderão seus produtos para menores de idade e que estes só serão comercializados com o selo de aprovação da Anvisa. A qualidade delas melhorará, o controle sobre quem consome e quem não consome também.
Com isto diminuirão os riscos de quem consome morrer por conta de uma droga misturada com qualquer coisa, pois os produtos dos traficantes, por serem ilegais não estão sujeitos a nenhuma fiscalização. Com a legalização, sanções serão definidas para lidar com aqueles que se apresentarem drogadas para o trabalho, tal como hoje são ao que se apresenta bêbado. Nenhum médico pode operar alcoolizado, nem nenhum caixa de banco pode atender embriagado. Tal como hoje há lugares em que não se pode fumar, haverá lugares onde não se poderá consumir drogas.
E quando o acesso às drogas não for mais proibido, quando poder consumi-las for coisa tão banal quanto tomar um uísque no bar favorito, será que seu apelo não será também grandemente reduzido?
Na minha opinião, vale a comparação com pular de asa delta. Não acredito que a liberação das drogas diminua o seu consumo, mas, creio, diminuirá a guerra. Já é uma conquista.
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