Dias desses no nosso almoço diário no Eco´s, Joëlle Rouchou me perguntou se eu acreditava em Deus.
Joëlle, historiadora e jornalista, nascida em Alexandria, no Egito, minha colega na Casa de Rui Barbosa, dedicou sua tese de doutorado ao estudo do grupo de judeus que foi expulso do Egito nos anos 1950 e veio se estabelecer no Rio de Janeiro. Desse grupo faziam parte seus pais. Joëlle é fiel praticando dos ritos tradicionais da religião de seu povo. Na Casa Rui, o principal interlocutor de Joëlle é Marcos Veneu, que vem se dedicando ao estudo da historiografia com especial interesse pela obra de Philipe Ariès. Veneu é um católico convicto e atua como Ministro da Eucaristia em sua paróquia. Para os dois, religião é coisa séria.
No dia da pergunta de Joëlle, Veneu não tinha ido almoçar conosco. Estávamos eu, Antonio Herculano e Angelo Venosa, católicos pouco católicos, incapazes de levar adiante uma discussão mais consistente sobre religião.
De qualquer maneira, a pergunta me pegou de surpresa e eu, no automático disse que não.
Para, em seguida, ponderar. De fato, eu tinha essa resposta pronta aos quinze anos quando as freiras do meu colégio, irmãs Dorotéias, me levaram a um cursilho em São Paulo. Naquela época os cursilhos eram uma verdadeira febre e estimulavam uma religiosidade que andava meio adormecida no seio da classe média brasileira. Foi bom ter ido mas, na hora em que um padre perguntou sobre a minha religiosidade respondi que tinha dúvidas sobre a existência de Deus. Respondi assim apenas por educação e também para não deixar claro que aproveitara o convite das freiras para fazer, pela primeira vez, uma viagem ao sul do país. Eu tinha a convicção de que Deus não existia e de que todas as religiões eram pura superstição. Depois da faculdade, por influência de Max Weber, dei uma aliviada no radicalismo e passei a ver a religião como algo necessário ao conforto espiritual do homem.
Nasci em um lar católico. Casa sempre cheia de padres. Missa aos domingos. Promessas e procissões. Éramos muitos e o terço rezado em família, com todos ajoelhados diante do pequeno altar do quarto de meus pais, acabava sendo uma cerimônia de algum significado. Era diante desse altar, aliás, que mamãe acendia uma vela cada vez que algum de nós tinha alguma coisa importante a ser decidida: vestibular, concurso e prova de final de ano. Os casos mais desesperados pediam uma ida à missa das 7 em Canindé. Íamos todos juntos na rural-willys que partia de madrugada para poder estar lá na hora certa.
A religião católica faz parte da minha memória afetiva. Sei todas as canções que eram cantadas nas missas da minha infância: "Coração Santo", "Com minha mãe estarei", "Queremos Deus", etc. Lembro como me emocionei quando vi uma vez na TV, Carmen Costa cantando "Coração Santo".
Tenho de admitir que à noite, sempre que me assalta o medo de perder alguém querido, na mesma hora, me benzo e rezo logo um Pai-Nosso e uma Ave-Maria. Se o medo for grande mesmo, ainda arremato com uma "Salve Rainha", a oração mais bonita que existe. Uma vez em que estive assombrada pela possibilidade de uma doença terrível, anunciada por alguns exames, me caiu nas mãos uma oração a Santa Rita de Cássia. Era uma dessas correntes que tenho horror a fazer. Mas naquela hora, não tive dúvidas, mandei para algumas pessoas que me queriam bem. O fato é que, logo depois obtive um diagnóstico que me deixou completamente aliviada. Deste então: mexeu com Santa Rita mexeu comigo.
Na casa de minha mãe, graças a presença generosa e ativa de minha prima Ceci Lustosa, o tema da religião está sempre na ordem do dia. Professora aposentada e escritora de deliciosas histórias passadas em Cazajeiras, na Paraíba, Ceci é ministra da Eucaristia naquela igrejinha que fica ali na Joaquim Nabuco, pertinho lá de casa. Nos últimos tempos, os almoços diários tem sido animados pelos debates entre Ceci e meu filho, Chico Bento. Neto, por parte de pai, de Osny Duarte Pereira, Chico herdou do avô a fé no materialismo dialético.
Recentemente, eu e Mario Bag estivemos em Fortaleza. Bag atormentado por uma violenta crise de hérnia de disco, ouvia Ceci lhe garantir que seu problema poderia ser superado pela oração. Chico não se conteve e interviu, dizendo que não havia base científica que provasse aquele tese. O argumento da Ceci evoluiu, não sei porque caminhos, para os milagres do falecido Papa João 2º. "Quais?" Indagou o Chico. "Sabe a queda do muro de Berlim? 85 % se deveu a João Paulo 2º". Esperta, vendo a incredulidade nos olhos do quase convertido Mario Bag, Ceci preferiu recuar e reconhecer que a estatística não era exata.
Valorosa militante na religião católica, com sua fé genuína, Ceci certamente ajuda a preencher a vida de D. Dolores. A oração das Sete Chagas de Cristo, na sua voz de sotaque carregado, é algo que certamente nunca esquecerei. Bem-humorada, ela ri quando o Bag diz que se ela continuar a rezar mil ave-marias a cada coisa que perder logo entrará no livro dos recordes.
O Bag, aliás, continua martirizado pela hérnia de disco. Mas, como Ceci - e a religião - agora estão na internet, ele acaba de receber por e-mail um power-point com o título "clique na mão de Santa Terezinha". Me disse que, se os remédios não adiantarem, vai clicar. Caso fique curado, Ceci vai poder creditar na sua folha de serviço a salvação dessa empedernida alma tijucana.
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