A Garapa e a relatividade da beleza (9/4/11)

Lílian e Luanda tinham uma amiga na adolescência a que chamavam pelo sugestivo apelido de "a Garapa". Para o leitor não familiarizado com o linguajar cearense, explico: garapa é o nome que se dava na minha infância a toda bebida doce - refresco, suco ou caldo de cana - que acompanhasse a refeição. Até hoje, minha mãe, na flor de seus 96 anos, ainda ordena da mesa em direção à cozinha: "Traz a garapa, Amália". Talvez por causa de ser um luxo, ou uma facilidade, o fato é que se costuma dar o nome de "garapeiro" ao sujeito que vive na "garapa", quer dizer, no bem-bom, na "aba", como dizem aqui no Rio.

Pois bem, a história que as meninas me contaram não tinha a ver com essa característica que, certamente, a amiguinha delas devia também possuir. Um grupo de meninas, na faixa dos quinze anos, tinha ido a uma festa e lá a Garapa tinha visto um rapaz com quem estava "ficando" no maior love com outra garota. Ficou bem decepcionada a Garapa e demonstrou isto comentando com minhas sobrinhas: "Imagina se eu fosse feia!"

Quando as meninas me contaram esta história eu fiquei foi admirando muito a Garapa. Lembrei dos meus quinze anos e do quanto eu me sentia insegura com relação à minha aparência. De forma que se qualquer rapaz pelo qual me interessasse não me desse bola, imediatamente eu atribuía isto ao fato de não ser suficiente bonita, ou magra, ou bem-feita. Quanto sofrimento não me teria sido poupado se eu fosse então como a Garapa, totalmente convicta de que era bonita e desejável.

Não sei se a Garapa era bonita mas isto é o de menos. A verdade é que ser realmente bonita é importante mas não serve de nada se você não acredita. Se você não se acha. Se você já chega nos lugares achando que está com a roupa errada, que aquele rapaz charmoso é muita areia pro seu caminhãozinho, que sua amiga é muito mais bonita que você, etc. etc. etc. Você já chega derrotada. E aí, de fato, anda meio curvada, bota uma roupa que esconde os seus supostos defeitos e te desvaloriza. Mas o pior é que você, antecipando a rejeição, nem olha para o rapaz. Até trata ele mal para que ele não pense que você está pensando que tem alguma chance com ele e ria de você.

Que inveja da Garapa!

E quantas outras assim não conheci. Eu ficava perplexa quando as via, tão feias e mal-feitas e absolutamente convencidas. Se achando. Aí botavam roupas interessantes, aí se faziam insinuantes para os rapazes pelos quais se interessavam e ficavam muito à vontade nas festas para mostrar o melhor delas mesmas. E olha que, às vezes, nem eram muito inteligentes. E namoravam os tipos mais desejados. Era revoltante. E você pensava: será que ela não se enxerga? Não vê o quanto é feia?

Talvez até se enxergasse. Ou não. Na verdade só muito mais tarde é que me dei conta de que isto não tinha a menor importância.

Beto, colega da Casa Rui, me contou que a mãe dele, costureira da melhor sociedade de Muriaé, no interior de Minas, tinha um elogio para aquelas freguesas que, apesar de gordas, faziam questão de modelitos ousados, justos e decotados que evidenciavam suas formas avantajadas. Dizia assim: "Tenho tanta admiração por D. Fulana. Não tem complexo". O fato é que, mesmo correndo o risco de ouvir o comentário de alguma amiga com o espírito da mãe do Beto o melhor mesmo é não ter complexo. De que adianta? O complexo só vai te infelicitar e te fazer sentir inadequada e pouco merecedora do amor e da admiração das pessoas. O que importa mesmo é a atitude. É a confiança no próprio taco. É saber chegar bem.

Amigo meu, fã de Lauren Bacall, estava em Nova York quando a viu descer do carro em rua escura, lateral a um bistrô. Parecia uma velhinha, meio encurvada, de passo hesitante. Logo que chegou na parte iluminada, deu-se a transformação. Lauren ergueu a cabeça, jogou os cabelos para trás, alongou a coluna, arrumou a echarpe por cima do ombro e entrou no bistrô gloriosa como sempre. Uma atriz, mais do que ninguém, sabe que a atitude é tudo.

Não que a beleza não seja fundamental. Não que não mereça todos os louvores. Pois alegra os olhos e o coração. É um dom como outro qualquer. Li isto uma vez numa carta lindíssima que Rachel de Queiroz escreveu para a Miss Brasil, Emília Correia Lima. Raquel recomenda ali que a Miss não se sinta inferiorizada por ser bela em uma família de intelectuais na qual a inteligência era o valor absoluto. Diz que a beleza é um dom tão maravilhoso quanto a inteligência e o talento. Nasce-se com eles e não se deve desprezá-los.

Mas o talento de se fazer bela sem ter nascido belo é, para mim, algo realmente notável e essas feiticeiras até hoje me fascinam e merecem toda a minha admiração. E a minha não é do mesmo tipo de admiração irônica que a mãe do Beto tinha por suas freguesas não.

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