Outros carnavais (16/2/13)


Eu não brinquei o carnaval. Na verdade, faz milênios que eu não brinco carnaval. De verdade mesmo, eu acho que nunca brinquei carnaval. Não com o humor e a alegria com que vejo meus amigos brincando. Todo mundo fantasiado, todo mundo pela rua indo atrás dos blocos. Eu bem que tentei.

Lembro que na adolescência, Angelina Ellery, irmã da Angélica, mulher do Paulo, convidou a mim e à Clélia para entrar em um grupo que ia pular o carnaval, creio que no Náutico. Ela e as amigas, todo o mundo mais ou menos da nossa idade, bolaram uma fantasia que tinha a ver com o uniforme da NASA. Por gentileza, ou talvez pressionada pela irmã que queria agradar as cunhadas, Angelina teve que incluir no seu bloco aquelas duas irmãs tão sem graça, tão matutas como devíamos ser nós no meio da turma de meninas que a gente mal conhecia de vista. E haja complexo. Adolescência é fogo.

Depois disto lembro de dois carnavais que passei na Bahia no final dos anos 1970. Aí eu brinquei. Atrás do trio elétrico e na Praça Castro Alves. Tenho vagas lembranças mas são boas lembranças. Também estive durante um carnaval em São Luis do Maranhão. Um sujeito amigo do meu namorado que contava com ele para farrear ficou um pouco desapontado quanto viu que ele vinha comigo. Ouvi-o comentar com o outro: "mas onde é que já se viu trazer farinha pra farinhada?".

A farinha era eu e a farinhada era o carnaval com suas infinitas possibilidades. Também fui algumas vezes ver o carnaval na Rio Branco, no Rio. Naquele tempo era ali que se fazia o carnaval alternativo pois o resto da cidade era um deserto só. Era muito divertido o carnaval do Centro por conta dos travestis cujas fantasias eram sempre as mais originais. Lembro de um hilário vestido de Chapeuzinho Vermelho.

Quando começaram a renascer os blocos de bairro cheguei a acompanhar alguns mas só me animei mesmo foi com o Bloco das Carmelitas, em Santa Tereza. No começo o bloco era pequeno e você encontrava todo o mundo nele até porque todo o mundo que a gente gostava morava em Santa Teresa. Então o desfile das Carmelitas tinha aquele clima de festa de interior. Outro a que acompanhei arrastada por Ângela Porto foi o Escravos da Mauá. Fui com meu saudoso amigo Luis Carlos Saroldi e me surpreendi com a beleza que era andar à noite pelo Centro vazio do Rio junto com aquele pequeno grupo de foliões saindo do Largo da Prainha, passando pelo final da Rio Branco e terminando no Morro da Conceição. Só uma vez fui assistir ao desfile no Sambódromo, na ótima companhia de meus colegas de Casa Rui, Beto (Roberto Abreu) e Zé Manuel. A boa lembrança que tenho é de ir para o Centro, de encontrar um bando de gente fantasiada no metrô, do movimento do público nas arquibancadas e da volta para casa já com o dia claro.

Eu já desfilei em duas escolas de samba. É verdade que eram de grupos de acesso. A primeira foi a Paraíso do Tuiuti cujo dirigente era o nosso colega da Casa Rui, o Waltinho. Apesar de ser carnaval nossa fantasia era de caipira. Não sei porque o sapato tinha que ser branco. Como na hora eu não tinha sapato branco pintei de branco um velho sapato preto e fui. Quando a escola saiu, chovia a cântaros. Das arquibancadas vazias um espectador solitário debaixo de um guarda-chuva acompanhava nossa performance. As roupas ficaram encharcadas e a tinta do meu sapato começou a descolar. A gente tremia de frio e o Beto falou que o pessoal ia achar que aqueles tremores todos eram efeitos especiais. Tenho a impressão que Luciana Fróes e a então pequena Pat Malta participaram dessa aventura. Também fui na Unidos de Santa Cruz arrastada pela Monica Pimenta Velloso, biógrafa de Mario Lago que era tema do enredo daquele ano.

Quase participei da estréia da Acadêmicos de São Clemente em 1986. O tema era Rui Barbosa mas pelos intrincados caminhos do samba-enredo e pelas ainda mais intrincadas interpretações que deles fazem os carnavalescos, tinha uma ala de gente fantasiada de remédio. Foi nessa ala que a turma da Casa Rui entrou. Eu ganhei uma caixa com tarja preta, muito desconfortável e desgraciosa, mas um convite de última hora para viajar me livrou do mico. Cedi a fantasia ao meu colega Marcos Bretas.

Quando estava para ser selecionado o samba-enredo da São Clemente sobre Rui Barbosa recebi a visita de dois conhecidos do bairro, seu Quintino e seu Papinha. Eram mecânicos de automóvel e eu sempre os via quando saía pela rua Assunção, nos fundos da Casa Rui, onde funcionam muitas dessas oficinas a céu aberto. Um alto, magro, de cara muito amarrota e triste, sempre exalando um inconfundível cheiro de cachaça. Era o seu Papinha. O outro negro forte, ótimos dentes, belos olhos, grisalho e muito simpático. Era o Seu Quintino. Eles queriam dicas para competir com um samba para a São Clemente. Levei-os imediatamente até a Chefe do Setor Ruiano, Rejane de Almeida Magalhães. Rejane se empolgou, deu detalhes da trajetória do Rui, até revelar que ele fora ministro plenipotenciário do Brasil em Haia e na Argentina. Foi por essa parte que os sambistas improvisados mais se interessaram. Do jeito que o pessoal que faz samba-enredo gosta de palavra difícil, se o samba dos meus amigos tivessem emplacado era certamente íamos ver a escola cantando: "Plenipotenciário! Ele foi plenipotenciário..."

Este ano só vi carnaval pela TV e pelo Facebook pois passei-o ao lado de mamãe que tem 98 anos e nunca foi foliã. O carnaval tem um efeito tão contagioso que mesmo que você não seja carnavalesco, o carnaval chega a você. A inesperada renúncia do Papa em plena segunda-feira de carnaval foi uma inspiração a mais para os foliões que logo improvisaram fantasias a partir do tema. Quem diria que um papa tão antipático à causa da diversidade daria assunto para a maior festa da diversidade?

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