Na verdade somos quatro irmãs separadas por alguns tantos anos uma da outras. Estamos entre os 50 e tantos e os 70 e poucos, justamente naquela fase em que essas idades se confundem. Ou seja, é aquela fase da vida em que um dia você está bem, com ótimo visual que chega a parecer dez anos menos, mas dias depois você pode estar meio pra baixo, cansada e de mau-humor e aí passa por ter dez anos mais. Assim foi que o tempo nos uniu e nos aproximou. Eu e Clélia, a dupla mais nova sempre esteve perto. Diferença pequena de dois anos com a vantagem para ela de que todo o mundo sempre pensou e pensa até hoje que é a mais nova. Diferença média para a Dadal, Socorro Lustosa que eu chamo assim desde pequena e nem sei mais por que. No Colégio das Irmãs Dorotéias quando ela estava no Normal, a gente ainda estava no Primário. Dadal tinha poderes sobre nós, delegados por nossos pais, de modo que então, aos nossos olhos infantis, parecia muito mais velha que nós. Dava bronca, mandava tomar banho, reclamava de nosso desleixo. Até porque sempre foi muito arrumadinha.
Lúcia esteve estudando em colégio de Minas Gerais e, algum tempo depois de voltar, já estava noiva do Zé Benevides com quem se casou. De modo que esteve um tanto distante de nós naquele começo da vida. Mesmo assim, o momento mais emocionante daquela fase foi para mim aquele em que, creio, aos nove anos, atravessei a nave da igreja da Piedade levando as alianças em seu casamento. Momentos de tensão. Foi a primeira minha missão de grande responsabilidade. Enfim, o fato serve para mostrar como a diferença então parecia enorme. Era a irmã mais velha que se casava enquanto a gente ainda brincava de bonecas.
Pois bem, o tempo foi passando, cada uma seguiu com a sua vida mas em um lugar sempre nos encontramos: a casa de papai e mamãe. Dizia o Fred que quando a pessoa apontava lá no começo do longo corredor da casa da Barão de Aracati, só via as cabeças se inclinando nas cadeiras de balanço para verificar quem estava chegando. Éramos nós e mamãe que, segundo ele, estávamos lá falando dos irmãos e das cunhadas. Com aquele excesso de crítica que as mulheres tem umas com as outras ficávamos falando das criaturas que o destino colocara na vida dos nossos irmãozinhos, tão bonzinhos, ingênuos e despreparados que tínhamos que proteger. Pobres cunhadas. O tempo também cuidou de aplainar essas diferenças e hoje, atuais e ex-cunhadas fazem parte da família estendida que nas noites de Natal e no aniversário de mamãe celebram conosco uma vida que foi enriquecida pelos tantos sobrinhos bacanas que nos deram.
A morte de papai mais nos uniu em torno de dona Dolores. Ao longo do tempo, esses encontros de irmãs, ao cair da tarde, na sala de visitas dela foram adquirindo um sabor tão especial, um gosto de quero mais que foram fazendo do grupo, um grupo de amigas próximas e queridas. A evolução dessa amizade pode ser acompanhada pelas fotos que obrigatoriamente fazemos a cada reunião familiar. A foto das quatro irmãs. Seria bom compará-las ao longo dos anos para ver como foi que fomos ficando tão parecidas, tão próximas que parecemos ter todas a mesma idade.
A dor também nos uniu. A longa doença do Edmilson, mostrou a grande mulher que é a nossa Dadal. Socorro esteve ao lado de seu leito na UTI todos os dias, em pé horas a fio velando pelo companheiro de uma vida, não medindo esforços para confortá-lo. E imagino como sua presença deve ter sido tranquilizadora para ele. Ele que não hesitava em dizer que das quatro irmãs, a sua era a mais bonita. Chico de Brito, sertanejo valente que tinha medo da morte. Lembro tanto da última vez que o vi, no leito do hospital, com a doença já irreversível que o consumia. Entramos eu e Clélia na UTI, ficamos um pouco ao seu lado, conversamos amenidades e quando me despedi, pois estava em Fortaleza apenas para o feriado, me olhou com tristeza e perguntou: "Quer dizer que eu nunca mais vou te ver?" Ele sabia que ia morrer. Eu é que não sabia que aquele cunhado que tinha me visto menina, que era obrigada a levar os três irmãos caçula da namorada ao cinema com seu magro salário do BNB, dava tanta importância assim a me ver. Um acaso me fez estar em Fortaleza durante os últimos dias de sua vida. Já incomunicável, fora do ar. Fomos ao hospital e Dadal quando me viu, me abraçou apertado e chorou dizendo: seu compadre está muito mal.
A dor também nos uniu em torno da Lúcia no ano que passou. A linda família que formou com Benevides ao longo de 50 anos que a fatalidade que se abateu sobre eles não permitiu comemorar, floresceu em um elenco de netos maravilhosos. Nos almoços felizes do Icaraí, encontro habitual da família no final do ano, suas filhas, Evelucia, Sellene e Fabiana, tornam-se membros também desse grupo feminino tão cúmplice. A alegria e a força extraordinária de Lúcia sofreram tremendo baque com a partida do neto João Felipe, o Felipe Melo. A dor que revela o que temos de mais autêntico mostrou a avó frágil amparada pela filha, Evelucia, mãe-coragem que fez da passagem do filho caçula um momento de iluminação mística que salvou toda a família do naufrágio.
Sem dúvida, a partida do Lustosa pouco depois, filho que era presença constante ao lado da mãe, mais unidas nos fez ficar em torno de dona Dolores. Conforta o coração sabermos que temos umas as outras, que podemos contar essa permanente solidariedade construída ao longo de uma vida feita de alegrias e tristezas, mas uma bela vida.
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