Nássara: rei do Carnaval (9/2/13)

Quando resolvi reunir em livro as tantas entrevistas que fiz com o Antonio Gabriel Nássara (Nássara: o perfeito fazedor de artes, Relume Dumará, 1999) não imaginava que mais do que o caricaturista quem iria brilhar ali seria o compositor popular. Desde o estrondoso sucesso de "Formosa", no carnaval de 1933 até o começo da década de 1950, Nássara foi quase imbatível como autor das marchinhas que animavam o carnaval carioca desde os anos 1920. Se Lamartine Babo e Braguinha foram compositores com um maior número de sucessos, Nássara foi o campeão dos concursos que, desde que Pedro Ernesto assumiu a prefeitura do Rio, deram mais movimentação ao pré-carnaval.

Na contracapa do disco "Carnaval de Nássara", gravado em 1956, por Pixinguinha, Orestes Barbosa conta da sensação que teve quando ouviu Formosa sendo cantada nas ruas: "Era no Largo da Carioca. (...) Num carnaval que já vai longe... Era um sábado. E era cedo. (...) Vinha um grupo de mascarados à paisana. Na frente dos foliões (uma mescla de vadios e rapazes de família) vinha um magricela simpático, de camisa de meia, calça cinza, cantando e mostrando um sorriso que ostentava os dentes salientes - parecia até que os dentes é que cantavam com o sorriso, esticando o pescoço fino - muito simpático e novo ao meu olhar. O rapaz chamava a atenção, pelo ritmo e pela originalidade com que ´batia´ um chapéu de palha. Era Luís Barbosa. E o estribilho eletrizava a multidão: Foi Deus quem te fez formosa!/ Formosa, oi, formosa!/ Porém, este mundo te tornou/ Presunçosa! Presunçosa!"

Nas vozes de Francisco Alves e Mário Reis, Formosa foi o maior sucesso do carnaval de 1933. No ano seguinte, Tipo sete, de Nássara e Alberto Ribeiro, obteve o primeiro lugar no concurso da prefeitura. Nássara concorria também com Maria Rosa: "Cadê Maria Rosa, tipo acabado de mulher fatal que tem como sinal uma cicatriz, dois olhos muito grandes, uma boca e um nariz" que havia sido desclassificada sob a acusação de plágio. Maria Rosa fora feita como sátira à opereta Rose Marie com que fora inaugurado o Teatro João Caetano. Nássara ficara com a música na cabeça e a partir dali compôs: Maria Rosa... Mas também participava da competição Ride palhaço, de Lamartine Babo. Quando surgiu a acusação de plágio o júri foi alertado para o fato de que, se Maria Rosa era plágio da opereta, Ride Palhaço também era plágio da ópera Il Pagliacci. As duas músicas foram desclassificadas e Tipo sete levou o prêmio.

Segundo Nássara, fora o Lamartine o grande criador daquela fórmula. O compositor descobria uma melodia clássica, arranjava-a em ritmo carnavalesco e atirava no ouvido do povo, com alguma letra maliciosa. "O povo que estava condenado a só cantar marchinhas de melodias portuguesas, passou a solfejar melodias de Chopin, Mozart, e até Wagner compareceu algumas vezes no carnaval carioca, sem receber um níquel de direito autoral".

Em 1937, especulava-se sobre as próximas eleições para a Presidência da República. Entre os possíveis candidatos estavam Oswaldo Aranha e Armando Salles de Oliveira. O jornal A Noite resolveu promover concurso de marchinha sobre as eleições. Luís Peixoto, seu organizador, perguntou ao Nássara: "Você não vai concorrer?" E completou: "Faz aí qualquer coisa... A gente sabe que quem vai ficar é o Getúlio mesmo, não é?". Foi assim que nasceu o refrão da música feita em parceria com Cristóvão de Alencar e que dizia: E o homem quem será?/ Será seu Manduca/ ou será seu Vavá?/ Entre esses dois meu coração balança/ porque na hora agá quem vai ficar é seu Gegê. Foi um sucesso e ganhou o prêmio. Já Seu Manduca e Seu Vavá, virtuais candidatos à Presidência da República, dançaram. Quem ficou mesmo foi o seu Gegê.

Nássara não ganhou o concurso em 1938, quando concorreu com Periquitinho verde, outro grande sucesso. Quem ganhou foi Pastorinhas que João de Barro tinha feito com Noel Rosa, morto naquele ano. Despeitado, Nássara espalhou que quem vencera não fora João de Barro, mas "a alma de Noel". O grande sucesso do carnaval de 1941, e de muitos outros carnavais foi Alá-lá-ô, parceria com Haroldo Lobo, gravada por Carlos Galhardo e com arranjo de Pixinguinha. Nássara dizia que Pixinguinha fora o "verdadeiro responsável" pelo grande sucesso de Alá-la-ô, em virtude da maravilhosa orquestração com que a música foi gravada e chegou às ruas.

Durante a guerra, em 1942, Nássara e Frazão lançaram a engraçadíssima Danúbio azul. A campanha dos alemães no sul da Rússia, culminou com a derrota de Stanlingrado, dando início à derrocada alemã. Com a metafórica invasão do Danúbio pelo Volga, Danúbio azul era uma dupla gozação: tanto aos alemães, derrotados pelos russos, quanto à valsa de Strauss. No refrão, o rio era vaiado: Danúbio azul, fiau, fiau/, mudou de cor, fiau, fiau,/ quis se meter, fiau, fiau,/ a lutador, fiau, fiau. O final dizia: Mas o Volga/ não deu folga/ e o Danúbio... azulou... Rimar "Volga" com "folga" é tudo de bom. Segundo Sérgio Augusto Danúbio azul quase foi incluída entre os números do filme Samba em Berlim, de Luís de Barros mas "ficou de castigo na sala de montagem, por ordem da censura que implicou com a cara de Stálin desenhada no cenário."

No final da década de 1940, Nássara conheceu Wilson Batista de quem se tornou parceiro. A mais famosa composição da dupla, a marcha Balzaquiana, foi gravada em 1950 por Jorge Goulart para o centenário de Balzac. Na biografia de Wilson Batista, Bruno Ferreira Gomes inclui um depoimento onde Batista narra a sobre a forma como ele e Nássara a compuseram. Além de ser um belo registro de como se dava o processo criativo no meio musical carioca daquele tempo, o texto proporciona um passeio pelo centro do Rio, em um tempo em que se podia andar por ali de madrugada, sem medo.

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