Me disseram que o Estrigas estava doente, muito mal e fui preparada para vê-lo no fundo da rede como de fato já o tinha visto uma vez. Chegamos, tinha um carro de visitante no jardim e ele não estava em seu alpendre conversando com os convidados como sempre. Mau sinal, pensei. Mas quando entramos casa a dentro, qual não foi a nossa boa surpresa ao encontrar o dono dela naquela cozinha tão característica, conversando prosaicamente com o genro da enteada e um amigo deste.
Não pude deixar de lhe fazer um comentário: “Estrigas toda vez que me dizem que você está muito mal, que dessa vez não escapa, chego aqui e te encontro do mesmo jeito de sempre”. Já tínhamos conversado sobre a morte na última visita que lhe fiz no final do ano passado. Pois o Estrigas não teme a morte. Ele a encara com desassombro e, depois das últimas hospitalizações, disse que para o hospital não volta, segue com os males que tiver e se viver mais um ou dois anos está até no lucro. Quando a indesejada das gentes chegar vai encontrá-lo sereno em seu lugar. Venha do jeito que vier, pois o velho danado não quer ninguém lá para lhe fazer companhia ou lhe garantir a segurança.
Cabeça formidável a desse misantropo, miúdo, magro e sequinho. Que a saúde está rateando ele não nega, mas enquanto der, está no jogo. Na mesa, tomando café e comendo tapioca, com Clélia insistindo para que ele lhe pinte o retrato, disse que só pinta retrato com a pessoa vindo posar. Perguntei se não podia fazer a partir de fotografia e ele me respondeu que o que pinta não é o retrato da pessoa. É a cabeça da pessoa. E fazê-la tem muitas implicações subjetivas que o artista se propõe a revelar. Cita como exemplo o fato de ter pintado recentemente uma cabeça do Zenon. Como conhecera Zenon a vida inteira e pudera pintar-lhe a cabeça inúmeras vezes, esta última fora, por assim dizer, a síntese de todas as outras cabeças daquele velho ranzinza adorável que toda Fortaleza queria bem. Zenon para quem não sabe, é o autor daquela escultura da Iracema com o arco que hoje é símbolo da cidade, apesar de desfigurada pela intervenção infeliz de alguém que resolveu “melhorar” a obra original do artista.
A conversa fluiu animada na cozinha que tanto nos lembra de Nice. Aproveitei para contar ao Estrigas da última proeza de seu velho amigo, Nirez. É que o Nirez resolveu comemorar seus 80 anos pulando de pára-quedas. A notícia tinha feito tanto sucesso que eu soube dela através do blog do Luis Nassif.
Estrigas exclamou incrédulo: mas, tá doido mesmo! Também falamos do livro de Martine Kunz sobre Claudio Pereira que ele acabara de ler. A francesa escreve muito bem, foi seu comentário. Adorou descobrir ali histórias sobre o Claudio que não conhecia. Na verdade nunca foram muito próximos e o Estrigas só conheceu o Pereira quando este já estava na cadeira de rodas. Fora levado pelo Sérgio Pinheiro uma vez até a famosa casa da Beira-Mar. Contou que vira ali um grupo grande de pessoas reunidas em torno de uma mesa em que estavam sentados e se encaravam Claudio Pereira e o jornalista Walter Gomes. Pensou até que os dois estavam travando uma queda de braços. Mas, evidentemente que não era isto. O que rolava ali, talvez algum ajuste de contas boêmio, permanece mistério para o Estrigas.
Depois fiquei sabendo que até o final do ano ele vai lançar um novo livro. O texto, se não me engano foi escrito em 2011 e cada capítulo corresponde a um mês do ano. Foi digitado pela Lourdinha, sua enteada, que nos trouxe uma cópia dos originais para mostrar. Pelo que pude concluir da conversa e da rápida folheada que dei, trata-se de texto feito ao correr da pena, no qual o autor mistura leituras recentes com reminiscências. Ao livro se somam umas tantas páginas que reproduzem o antigo livro de visitas do Mini-Museu Firmeza. Fiquei bem feliz de ver minha assinatura lá, creio que desde 1977 e até mesmo uns desenhinhos meus. Tem muita gente importante assinando aquelas páginas e até um desenho de Millor Fernandes que esteve lá em 1980.
Aliás, fiquei bem impressionada com a atualidade das leituras do Estrigas. Achei ali comentários elogiosos sobre o livro de Eduardo Jardim, “A brasilidade modernista” que, apesar de ser livro de mais de trinta anos, é pouco conhecido fora do circuito acadêmico. E fiquei feliz de confirmar mais esse laço intelectual que me aproxima do meu velho amigo. Eu também gosto muito do Eduardo Jardim, autor que me revelou muito sobre Mario de Andrade neste e em outros trabalhos.
Estrigas não tem problemas de visão e lê tudo com facilidade. Uma coisa interessante que me disse foi que só há pouco tempo, lera a “Divina Comédia” de Dante Alighieri. Eu, que nunca a encarei, achei curioso seu comentário sobre as impressões que lhe causara a leitura tardia dessa obra fundamental.
Inferno e Purgatório horríveis e impressionantes, Céu morninho. Refletimos um pouco sobre como era interessante tomar contato com uma obra assim só na maturidade, sem ter sido contaminado pelas leituras anteriores feitas na juventude. O fato é que quem já leu um livro e volta a ele, nunca mais obtém as sensações da primeira leitura. Serão outras leituras mas serão sempre releituras.
Nenhum comentário:
Postar um comentário