Meu pai era um
grande narrador. As histórias que contava de sua infância, da Fortaleza que
conhecera no começo do século XX, tornavam-se mais fascinantes pela forma como
as contava. Um detalhe de uma dessas narrativas dá bem a marca do seu estilo: a
primeira impressão que guardou de Fortaleza quando aqui chegou de trem, durante
a seca de 1915, junto com pais. A lembrança mais viva que ficara nas retinas do
menino era a das grandes pedras polidas que ladrilhavam a calçada da estação. A
grandes pedras que formavam um conjunto urbano bonito e luxuoso, elemento que
certamente não se encontravam as ruas do seu Canindé.
Ao contrário do papai, um narrador vivo e detalhista, cujas histórias sobre Sobral foram fonte importante para a grande obra que Lustosa da Costa produziu sobre aquela nossa cidade, com mamãe as respostas tem que ser arrancadas a fórceps. Sempre foi assim. Ela que é a dona das resposta curtas e secas, pontuadas pela ironia, não é boa de contar histórias. É preciso puxar por ela para obter alguma coisa sobre o que foi sua vida em Cajazeiras, na Paraíba, onde viveu infância e mocidade. É preciso puxar por ela para entender um pouco aquelas fotografias de uma família de gente elegante, bem vestida, bem penteada, com alguns elementos de cores carregadas, cabelos muito lisos e escuros, na mistura mameluca do índio com o branco, resultado evidente da união dos meus avós maternos, ele, o branco e, ela a índia.
E perguntando daqui
e dali a gente fica sabendo, aos poucos, um pouco sobre seus pais tão
diferentes dos nossos, ela mesma e papai. Talvez porque suas histórias tenham
que ser resgatadas assim meio a força é que sempre me surpreendem com uma
novidade ou despertam uma corrente especulativa sobre seu passado. Foi assim
com a história que mamãe me contou há poucos dias de como o pai dela não
aprovara a vocação sacerdotal de tio Oscar, seu irmão mais novo, recentemente
desaparecido, que fez brilhante trajetória na Ordem dos Dominicanos em São
Paulo e como professor e especialista em história da igreja pela USP, com
vários livros publicados. Parece que vovô Piano achava esse negócio de ser
padre uma grande besteira, um desperdício.
E esse aspecto me
intrigou porque do lado do papai, as vocações religiosas eram muito estimuladas
tanto que da família Ferreira Costa saíram duas freiras e um frade. E se tia
Dagmar não tivesse que cuidar da minha avó Vitalina, teria também entrado para
o convento. Fiquei especulando como deveriam ser diferentes as vidas na casa do
velho Cipriano de Figueiredo Lustosa, lá em Cajazeiras, na Paraíba e na casa de
meu avó paterno, Francisco Bento, em Fortaleza, Ceará. Fiquei com a impressão
que o ambiente na primeira era mais livre, pois esse avô que não conheci e
cujos fragmentos recupero aqui e ali nas conversas com mamãe, tinha algo de
boêmio, de homem de negócios sertanejo que especulava com o algodão e que foi
arruinado pelo crise de 1929. Pelas fotografias, a gente constata que ele dava
boa vida e boas roupas a filhos e filhas. Parece que lhes dava também liberdade
e que não ligava muito para os estudos dos filhos. Quem cobrava as notas e se
preocupava com tudo era minha avó. Pragmático e tendo vencido nos negócios onde
mais que instrução vale mesmo é a intuição, o velho Piano achava graça na farra
em que viveram alguns de seus filhos homens.
Mas parece que vovô
Piano também não criava empecilhos para que as filhas se instruíssem e, foi por
isso que todas se tornaram professoras. Foi por isso também que mamãe, ainda
mocinha, junto com irmãs e amigas chegou a produzir uma revista chamada “Flor
de Liz” e pensou em cursar a
faculdade de Direito. Só não o fez por impedida por minha avó que não consentiu
que a filha fosse viver em Fortaleza ou em Recife para realizar seu sonho.
Tenho a impressão, pelo pouco que sei de meu avô que, se dependesse dele, ela
teria ido. Pois ele também não criou nenhum empecilho para que a filha cassasse
com aquele rapaz cearense bonito e bem falante das Casas Pernambucanas. Gostou
dele, autorizou o casamento e ponto.
Mas na vida da
gente, aqui dentro de casa, e dentro de nossas mentes, o que predominou mais
foi o espírito dos Ferreira Costa do que o dos Lustosa. O que predominou foi
aquela moral rígida do menino sertanejo que meu pai foi, sertão que sempre
levou na alma mesmo tendo chegado a Fortaleza com seis anos. Sertão que amava e
que o atraia com seus alimentos exóticos que sempre gostara de preparar. Foi a
religiosidade sertaneja, aquela que nos obrigava a comparecer à missa das sete
no Canindé, terra dele, que também predominou. Foi também uma cultura baseada
na pobreza honesta, numa visão muito negativa de tudo que era boêmio e
irresponsável. Um certo sentimento de culpa e vergonha pela dependência do álcool que marcara a vida de
meu avô paterno com uma nota humilhante sempre a ser escondida pelo que
representara de ruína para a família. Foi um sentido muito forte de poupança,
de controle, de construção lenta e determinada de uma pequeno patrimônio e de
um nome honrado, aliado ao sonho do emprego público e da casa própria
redentores.
Penso como mamãe
deve ter se sentido estrangeira, com suas roupas, chapéus e sapatos bons, seu
porte altivo de moça fina, no meio das cunhadas, também professoras, mas moças
simples, criadas na modéstia e na discrição de uma vida muito ligada à igreja,
à paróquia, que foi sempre a vida de papai. Ele que aprendera com a mãe,
Vitalina, como a Igreja, tal como o Estado, eram instituições sólidas à sombra
das quais um rapaz modesto mas talentoso podia crescer. E foi mesmo assim, como
Congregado Mariano, estabelecendo relações que atravessavam as classes sociais
em Fortaleza e depois em Sobral que ele se fez. E assim nos criamos todos,
mesmo nós, os mais novos, que tivemos na Piedade, em Fortaleza, para onde meus
pais voltaram depois de 15 nos de vida sobralense, a reprodução de um convívio
intenso com os padres salesianos da nossa paróquia que se tornaram gente de
dentro de casa.
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