Trabalho de encomenda (16/6/12)

Não sei quem me contou. Mas sei que não foi Fausto Nilo. A história de que ele e Alceu Valença conversavam em um bar do Baixo Leblon em meados dos anos 1970s. Alceu falava de quanto não gostava de trabalhar por encomenda, que o trabalho por encomenda sempre resultava medíocre, que não era nunca a expressão verdadeira da alma do artista. Fausto, que discordava daquela maneira de pensar, teria então indagado: "Ô, Alceu, você já foi na Capela Sixtina? Viu aquelas pinturas do teto? Achou bacana? Pois bem, aquilo tudo foi feito por encomenda".

Adoro repetir essa história pois ela combina bem com a minha visão do trabalho. Um trabalho feito por encomenda pode começar bem aborrecido, pode começar sem muita paixão, mas se for algo de acordo com a sua competência e com os seus talentos pode resultar em algo realmente bom e bem realizado. Eu já fiz muito trabalho por encomenda. E, de quase todos eles, me orgulho. O trabalho de pesquisa tem esse aspecto da descoberta que faz com que você vá se envolvendo a cada nova revelação, que vá aprendendo na medida em que o desenvolve. Na verdade, um trabalho assim é bem mais estimulante do que quando me pedem para escrever sobre algum assunto sobre o qual já escrevi muito. Aí é duro achar um gancho para tirar dali algo novo e interessante - para mim - e que me dê a sensação de estar produzindo e não me repetindo.

Muita gente boa, aliás, começou trabalhando por encomenda. Começou escrevendo para atender a uma demanda do jornal. Como naquele filme com o Montgomery Clift, "Miss Corações Solitários", em que ele é obrigado a escrever uma coluna sob esse título, respondendo a cartas de leitoras e leitores solitários ou, de alguma forma, desfavorecidos. Ele acaba se envolvendo tanto com aquele trabalho que passa a sofrer o sofrimento dos seus missivistas e começa ali sua carreira jornalística.

Dizem que o Borges começou fazendo textos para publicidade e que isto foi um grande estímulo para a sua criatividade. Norman Rockwell fez sua carreira inteira desenhando as capas da Saturday Evening Post, e, certamente muitas das coisas geniais que desenhou foram sugeridas pelos editores.

Ser provocado é bom. Ser obrigado a enfrentar uma tarefa que você não imaginava fazer, acaba sendo estimulante e revelando a você qualidades que nem imaginou que tinha. É como quem nunca coordenou um trabalho de equipe e, tendo que fazê-lo, se descobre com a maior capacidade para gerenciar, para ordenar e para inspirar o trabalhos dos seus liderados.

Muitas carreiras são na verdade fruto de acasos assim. Seu sonho era trabalhar com psicologia, mas apareceu uma oportunidade na área de administração. O que você faz? Deixa passar e diz que está esperando uma colocação na sua área ou pega e faz uma tentativa? Oportunidades são como os cavalos encilhados da frase do Getúlio Vargas: "sou um homem das oportunidades. Se um cavalo passar encilhado na minha frente, eu monto". Ou seja, não é toda hora que passa um cavalo encilhado na nossa frente e é preciso estar atento para não deixá-lo passar e ficar na beira do caminho esperando o resto da vida pelo próximo.

Na verdade, essas escolhas tão minuciosas só podem ser feitas por uns poucos privilegiados. Aqueles bem nascidos que sempre tiveram quem pagasse suas contas. Aqueles que podem se dar ao luxo de ver passar tudo o mais na sua frente pois não têm que correr atrás de recursos para a própria subsistência, aqueles que podem adiar eternamente a entrada no mundo dos adultos. Aí o sujeito começa um curso universitário e, logo nos primeiros dias, acha que não tem nada a ver. Muda para outro mas descobre que também não tem graça nenhuma. Vai para um terceiro e, talvez, só aí se dê conta de que a universidade, na verdade, não tem graça nenhuma, é a continuação da escola com a desvantagem de que agora não tem ninguém para te cobrar nada. Tem as calouradas, chopadas e o movimento estudantil mas o dia a dia na sala de aula é monótono e repetitivo. Como será monótono e repetitivo o dia a dia em qualquer emprego que você tiver. Mesmo os mais criativos.

Tive um amigo músico que fazia uma carreira relativamente bem sucedida como baixista, acompanhando os cantores mais famosos e que, um belo dia, largou tudo para estudar informática e conseguir um emprego fixo. Quando lhe questionaram, ele disse que o cotidiano do músico era tão ou mais fatigante e repetitivo que qualquer outra atividade. Com a desvantagem que não tinha nenhuma das garantias trabalhistas.

Naturalmente que esse meu amigo era ainda relativamente jovem e podia recomeçar. Às vezes uma vida inteira passada em trabalhos irregulares inviabiliza a entrada em um trabalho regular. Aos cinquenta anos, sem nunca ter passado um dia em uma sala diante do computador trabalhando, vai ser muito difícil conseguir suportar começar. Tudo o que pareceu penoso aos vinte anos na universidade, ou aos trinta no emprego da Petrobras e que você jogou para o alto, será infinitamente mais penoso quando você tiver vivido uma vida de trabalhos alternativos.

Vendo tantas trajetórias assim, a gente teme pela dos nossos filhos. Filhos cada vez mais mimados, filhos aos quais nada pode faltar: carro, celular, internet, telefone, dinheiro para o lazer... Filhos que não tem que prestar conta de nada e para os quais os genitores são apenas uns maçantes e intrometidos que só merecem alguma atenção quando a grana acabou e eles precisam de um suplemento.

Aí é preciso coragem para dar um sacode na relação, estabelecer limites, lembrar que quem paga a conta é você e que você tem todo o direito de exigir uma contrapartida. Um trabalho de encomenda. Seja um mestrado ou um concurso público. Um trabalho monótono, exaustivo e tedioso mas que, ao final vai resultar em algo do qual seu filho acabará por também se orgulhar.

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