Nós e a América (14/9/13)

No dia 11 de setembro de 1973, caiu o governo Allende e começou a ditadura militar de Pinochet no Chile. Lembro exatamente do momento em que recebi essa notícia. Eu estava indo para um curso de inglês que freqüentava em uma daquelas casinhas tão simpáticas da UFC onde havia (e espero que ainda haja) cursos gratuitos de francês, inglês, espanhol e alemão. Ia completar 18 anos e sabia que o que estava acontecendo no Chile era realmente terrível.

Em plena ditadura militar, gente como eu e alguns amigos torcíamos por Allende. Torcíamos pelo final da ditadura aqui e aquela notícia era como uma derrota da esperança. Apesar de não saber nada sobre o Chile, nem sobre os outros países da América Latina a gente vivia em um ambiente em que predominava uma espécie de corrente espiritual que nos ligava a eles. Corrente que passava pela literatura, pela música e pelas circunstâncias políticas.

Não me lembro se foi a Sipahi, a Mena ou o Beto quem primeiro me falou de Violeta Parra. Nem sei mesmo se é verdadeira a história de que ela compôs “Volver a los dezessiete” porque, já mulher madura, tombara apaixonada por um rapaz de 17 anos. O mais importante é que, tanto essa história que dizia muito do caráter dessa mulher sobre a qual eu nunca soube muita coisa, quanto os versos daquela canção, nos aproximavam daquela outra América. Uma América que tinha algo de mágico e de fascinante com seus índios oriundos de uma civilização milenar. Havia também o prazer todo especial de cantar algo que era politicamente tão significativo em castelhano.

Lembro da noite que passei em claro, ainda na nossa casa da Piedade lendo “Cem anos de solidão”, de Gabriel Garcia Marquez. Imagino que eu devia ter uns 13 ou 14 anos pois o livro foi publicado no Brasil pela CODECRI, editora do pessoal do Pasquim, em 1968 e, certamente foi o Lustosa quem deve ter comprado e deixado lá para nos estimular a ler. Lembro da impressão estranha que tive daquela narrativa em que se misturaram situações irreais, mágicas, com cenas de violência. Enfim, um combinado de coisas que deixava na gente um certo mal estar. Algo que tinha a ver com o destino do personagem central e de sua família. Confesso que nunca mais li “Cem anos de solidão”. Creio que o livro em si não era diretamente associado a essa latinidade que se afirmava, naquele momento, por oposição aos Estados Unidos e à sua ingerência cada vez mais daninha sobre nossos destinos.

De qualquer maneira, estava ali, tal como nas canções de Violeta Parra, uma mensagem intrínseca, de uma beleza doída, exótica que remetia também ao povo brasileiro. Esse povo que nós, na verdade, meninos e meninas de classe média não tínhamos muita noção do que era. A cultura então produzida pelos artistas e intelectuais da esquerda dos anos 1960/70 no Brasil procurava chamar a atenção para o povo das fábricas, do sertão e da Amazônia mas também nos irmanava aos vizinhos da América Latina trazendo-os um pouco para mais perto de nós. Lia-se, além de Garcia Marquez, Cortazar, Carpentier, Vargas Llosa, e, por causa deles e da proximidade que eles nos colocaram com seus países, lemos e gostamos de Borges, que, antes, muito pelo contrário, não tinha nada a ver com aquilo. Mas o livro essencial para compreender a realidade era “As veias abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano. Esse mesmo Galeano que, ao contrário de Vargas Llosa continua aí, do lado do bem.

As canções de Violeta Parra foram cantadas em português pela maior cantora brasileira daquele tempo: Elis Regina. Sua linda e potente voz emprestava aos versos uma alegria, um dinamismo diverso da melancolia de Mercedes Sosa. E este também foi um fenômeno daquele momento em que estivemos mais perto dos nossos hermanos: as gravações de Mercedes Sosa com Milton Nascimento. Da ditadura de Pinochet chegavam os ecos das mil e uma barbaridades cometidas. Delas nenhuma me impressionou mais do que a história de que os torturadores tinha quebrados os dedos de Victor Jarra (havia versão mais dramática em que lhes tinham cortado as mãos) para que ele nunca mais tocasse aquelas musicas subversivas.

Quantas lágrimas. Tempos de dor e de sofrimento são pródigos em inspiração. Do repertório de Violeta Parra, a preferida de todos até hoje é “Gracias a La vida”. Quem não cantou e ainda canta com emoção esse hino que celebra a vida, esse canto otimista? A canção se faz ainda mais bela pela mistura de coisas que têm a ver com a vida em geral, com o trabalho, com a sociedade, com a humanidade ao amor individual de uma mulher por seu homem que pontua o final de cada verso: en las multitudes el hombre que yo amo; la voz tan tierna de mi bien amado; la ruta del alma del que estoy amando; la casa tuya, tu calle y tu patio; el fondo de tus ojos claros…

A música de Violeta Parra se fazia ainda mais tocante também pelo fato de ser cantada em meio a uma atmosfera tão sombria. Sem dúvida a crônica negra das ditaduras latinas, as histórias de desaparecidos argentinos, dos seus filhos seqüestrados pelos militares e dados a criar por famílias solidarias ao regime (como a dos donos do jornal Clarin) é uma conta que nunca vai fechar.

Durante aquelas duas décadas, as ditaduras militares nos irmanaram numa corrente de sofrimento. Neste momento, alguns dos países da America Latina têm governos democráticos que ensaiam políticas econômicas e sociais que beneficiam os mesmos desfavorecidos de sempre. Esses governos se ligam pela memória e pela história àquele momento, enfrentando as mesmas forças do atraso e da reação que, com o apoio dos EUA, promoveram golpes militares que resultaram em ditaduras violentamente repressivas. Cabe agora restabelecer, pela intensificação de ações  culturais, pelas difusão das letras, pelo intercâmbio de jovens estudantes uma nova corrente de idéias, sentimentos e sensibilidades que funcione como um escudo, nos mantendo unidos e coesos contra as tentativas de impedir o avanço da América Latina rumo a um futuro melhor para seus povos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário