O americano tranqüilo (13/7/13)

Existe um povo que a bandeira empresta
Para cobrir tanta infâmia e covardia...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!... 
(Castro Alves)

Dez anos depois do começo da guerra do Iraque, creio que as imagens mais impressionantes que apareceram na imprensa sobre os bastidores do conflito foram aquelas em que soldados norte-americanos torturavam prisioneiros. Nada mais apavorante do que aquela cena de um homem nu, tentando se proteger ou cobrir suas intimidades dos cães ferozes que soldados atiçam contra ele. Ou outra, de um sujeito vestido, sentado, e imobilizado pelo pavor, com o pescoço ferido pelo que poderia ter sido uma mordida, sendo ameaçado também por um cão.

As outras fotos, de corpos nus, empilhados ou simulando atos sexuais, ou ainda de um corpo despido, coberto de excrementos, com  os braços abertos, remetem à violação maior da dignidade humana. Do desrespeito aos valores do povo conquistado. As notícias que as acompanham, de violência sexual, de gente sendo obrigada a tirar sua comida de vasos sanitários, ou sendo obrigada a amaldiçoar seu Deus, são notícias da degradação, notícias de uma guerra suja.

Mas o que mais desconcertava nas terríveis fotos era a carinha marota daquela menina-soldado de 21 anos que arrastava um iraquiano nu pela coleira, ou que sorria, levantando o dedo em sinal positivo diante do corpo morto e desfigurado pela tortura de um outro prisioneiro. Aquela carinha risonha é a carinha das crianças e mocinhas americanas da séries que nos acostumamos a ver na nossa infância. É a cara boa, saudável e bem alimentada da América que aprendemos a amar através dos seriados da sessão da tarde, dos desenhos de Norman Rockwell e dos adoráveis filmes de Frank Capra.

De algum forma as contradições do espírito da América foram bem apreendidas por Grahan Greene em seu O Americano tranqüilo. A história se passa na Saigon de 1952, em meio ao conflito pela libertação do domínio francês. O protagonista é o jornalista inglês, Thomas Fowler, um homem de meia-idade, correspondente do London Times, que se deixara esquecer na Indochina, entre uma garrafa de uísque, umas tragadas de ópio e os cuidados de uma bela oriental. A chegada de Alden Pyle, dos EUA, um jovem idealista, militante da política norte-americana de ajuda aos países em desenvolvimento, altera a situação.

Aproximando-se de Fowler, com aquela simplicidade e boa-fé tão típica de seus compatriotas, o rapaz se choca com o desencantado cinismo com que Fowler conduz sua vida. Movido pelo  mesmo espírito salvacionista que o levara a Indochina o rapaz decide conquistar a namorada de Fowler, prometendo casar-se com ela e levá-la para a América. Fowler era casado na Inglaterra e sua mulher, de quem já vivia separado, lhe recusava o divórcio. A história desse triângulo amoroso se desenrola em meio à uma série de revelações sobre a verdadeira missão de Pyle. Esta era muito menos inocente do que ele quis levar Fowler a acreditar. 

Através das desventuras do seu alter-ego, Greene revela as entranhas do processo, a perversa estratégia americana para convencer o mundo do perigo que representava o avanço comunista no Extremo Oriente. É o começo da grande  campanha midiática para fazer com que a opinião pública mundial apoiasse a intensificação da presença americana no Vietnãn. Para tanto era aceitável criar notícias falsas mesmo que a custa de dezenas de vidas inocentes. Assim é que a trama e Pyle, o americano tranqüilo, revelam suas reais dimensões na cena dramática da bomba explodida numa praça central de Saigon e falsamente atribuída aos comunistas.

O Americano tranqüilo foi escrito em 1953, bem antes do que nós costumamos considerar como a guerra do Vietnã propriamente dita. A guerra dos americanos no Vietnã veio suceder à guerra que os antigos colonizadores franceses combateram lá durante mais de dez anos, sacrificando nela o melhor de sua força militar. Os americanos começavam a entrar no país justamente quando lá chegou Greene para trabalhar como correspondente da revista Life, em 1952. O que torna  o livro tão atual é a repetição da mesma estratégia – com recursos mais sofisticados – agora no Oriente Médio. E também a maneira como Greene conseguiu estabelecer uma associação tão inteligente entre a lógica dessa estratégia e a imagem que os americanos têm de si e de seu papel no mundo.

Em O Americano tranqüilo, Greene conseguiu reunir em um personagem a crença inabalável nas verdade democráticas, a simplicidade do amor à família e à liberdade em luta num mundo em que torpe regime comunista tentava por suas garras. A partir de sua experiência na Indochina, Greene pôde antecipar os caminhos a que conduziam a singela visão de mundo expressa nos tantos seriados ao estilo de “papai-sabe-tudo”, com todos aqueles adoráveis lares americanos para os quais o personagem que justifica o título do livro sonhava um dia voltar.

A América resplandece de ideais humanitários e de ações grandiosas em meio às ilustrações de Norman Rockwell, onde os semblantes rosados e sorridentes de um povo simples e feliz nos encantam e sensibilizam. Nos filmes de Frank Capra, com Jonh Doe – o homem comum deste povo comum – que levanta as massas rumo ao fascinante ideal da solidariedade entre vizinhos de bairro, ou em “Mr. Smith goes to Washington”, em que o super chefe dos escoteiros chega ao senado - como senador, vale acrescentar – para lutar por um campo nacional de escoteiros. Mas, tanto o momento fundador desses ideais, quanto o renascimento deles no New Deal de Roosevelt, estão longe, assim como está longe a época da inocência. E o cidadão comum da America de hoje em dia tem bem menos motivos para estar otimista quanto ao seu futuro do que os daquele tempo.

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