Aproveito o momento em que vivemos para recuperar a leitura de um livro que li há alguns anos e no qual muito aprendi. Trata-se de “A sedução do lugar”, do arquiteto norte-americano Joseph Rykwert. O autor nos conta ali como surgiram as cidades, como se transformaram no que são hoje e que papel os urbanistas desempenharam nesse percurso. A mensagem final de seu texto é altamente positiva pois Rykwert acredita na força da ação comunitária e nas iniciativas dos cidadãos e das ONGS. Ele acha que o poder de protestos coletivos contra agências públicas e empresas do setor privado é instrumento vigoroso e eficaz na solução dos problemas urbanos. Ao contrário dos que pintam a moderna cidade de forma negativa, Rykwert, um apaixonado assumido por New York, acha que são justamente seus conflitos que a tornam tão convidativa e atraente. A seu ver qualquer política urbana deve partir do pressuposto de que não é possível obter uma resolução ideal para todos os conflitos que uma cidade comporta.
As grandes cidades sempre foram vistas como lugares confusos onde o homem, tornado anônimo pela multidão, liberaria seus piores instintos. Foi do contraste com elas que Morus e Campanelli, imaginaram suas utopias. Suas obras proporcionaram uma crítica das práticas urbanas então correntes e se converteram em fonte de sugestões para os reformadores do século XIX. Talvez o fato dessas cidades se localizarem em lugares remotos, tenha levado muita gente a acreditar que esta seria uma das condições para a criação de comunidades organizadas, racionais e benevolentes. A construção de utopias se tornou uma ocupação muito popular nos EUA. Projetos de socialistas utópicos como Robert Owen para cidades nascidas em torno de fábricas, baseavam-se na crença de que uma ordem social racionalmente concebida a partir de uma nova cidade forneceria a cura para o caos urbano. Esta esperança foi sendo repetidamente frustrada ao longo do século XIX.
A disputa entre os que buscavam a beleza e os que se voltavam apenas para os problemas práticos da cidade acompanha a história do urbanismo e da arquitetura no mundo. Ainda no século XVIII, Durand, criticava a inutilidade do ornamento. Primeiro grande mestre da racionalização do planejamento urbano, Durand foi também o primeiro a pensar avenidas como grandes artérias destinadas apenas à circulação. Desde o Palácio de Cristal, em Londres, da Exposição de 1851, até a Torre Eiffel da Exposição de 1889, em Paris, as artes decorativas vinham se transformando. Owen Jones lançou, em 1856, a idéia do ornamento baseado em formas da natureza que iria dar no otimismo do Art Nouveau. Não estilo não sobreviveu ao baixo-astral da Primeira Grande Guerra e, sua versão geometrizada, o Art Decó, surgiu por volta de 1920 e representou uma maneira alegre e cosmopolita de lidar com o modernismo. Nos EUA, onde revelou-se muito adequado para os arranha-céus e transatlânticos, o Art Decó, que parecia a síntese mais apropriada da era do jazz também perdeu sua força após a queda da bolsa de Nova York em 1929.
Com o avanço das transformações tecnológicas, arquitetos e engenheiros começam a dar cada vez mais atenção à planta, à ventilação e à higiene. Uma nova visão sugeria que talvez os prédios não precisassem ter estilo e que suas formas deviam ser projetadas em a partir das funções a que se destinavam e para o melhor aproveitamento dos materiais de construção. Esta mentalidade desembarcaria na Bauhaus, de Walter Gropius e reduziria o arquiteto a um membro de uma equipe cuja atribuição era atender ao gosto do freguês. Com a chegada dos nazistas ao poder, em 1938, o pensamento da Bauhaus transplantou-se para os EUA, onde Ludwig Mies van der Rohe, seu último diretor, reorganizaria o Instituto de Tecnologia de Illinois segundo aqueles princípios.
No final do século XIX, as dificuldades de circulação e os constantes congestionamentos já eram vistos como uma doença urbana. Em 1894, Arturo Soria y Mata, apresentou o projeto da ciudad lineal como solução definitiva para o problema da circulação. A cidade linear teria largura definida mas podia se estender infinitamente. Entre 1929 e 1930, a cidade linear apareceu nos planos urbanísticos de Le Corbusier. Ela também encontrou seguidores na Bauhaus. Com a mudança de alguns deles para Chicago, a idéia foi ali desenvolvida. A aplicação das teses da Bauhaus, sem o talento de seus criadores resultou, na visão de Rytrwik, numa das paisagem urbanas mais desoladas do século.
Na origem dessa paisagem útil esteve também a reunião do Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, o CIAM, em 1933. Foram formuladas ali as 111 teses que compõem a Carta de Atenas e que forneceram as bases para urbanismo que se fez nos cinqüenta anos seguintes. De acordo com a Carta, toda cidade deveria ser analisada em função de quatro funções básicas: Habitação – com preferência por edifícios de apartamentos altos e afastados uns dos outros; Trabalho - repartições, escritórios e fábrica; Lazer – parques e estádios; e circulação. Uma das conseqüências mais dramáticas para as cidades criadas a partir dessa receita foi o radical zoneamento de suas funções com a perda daquela mistura urbana que dá às cidades mais antigas vida, agitação e movimento. O exemplar mais completo da aplicação da Carta de Atenas é, segundo Rykwert, Brasília.
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