Lustosa da Costa, meu irmão (6/10/12)

No dia em que o Lustosa morreu, minha amiga de adolescência, Juraci Bessa Maia, hoje professora da UFC, lembrou que foi por influência dele que nós duas escolhemos fazer o curso de Ciências Sociais. Eu não me lembrava disto. Lembrava sim do seu entusiasmo pela Sociologia, do fato de que, quando entrei na universidade, em 1977, ele me deu logo um livro de sua biblioteca "A redução sociológica", de Guerreiro Ramos, e a nova edição do "Raízes do Brasil", de Sergio Buarque de Holanda. Eu me esquecera desse dado tão importante. De que meu primeiro contato não só com as Ciências Sociais mas também com a grande literatura francesa, graças ao acesso fácil aos livros de sua maravilhosa biblioteca, me foram proporcionado por meu irmão. Graças também aos tantos outros livros que comprava para nós, e aos artigos de jornal que gostaria que lêssemos, anotadas com nosso nome em sua letra tão característica.

Porque a influência do Lustosa sobre minha vida é feita de coisas assim essenciais. Acredito que, como, na bela e banalizada sentença do "Pequeno Príncipe": o essencial é invisível ao olhos, só se vê bem com o coração. E só agora com o coração ferido pela perda do meu irmão e amigo posso ver coisas essenciais. Posso lembrar de que, na minha infância, com um talento razoável para o desenho, fui levada por ele a estudar pintura no centro de artes de Heloísa Juaçaba, onde tive o privilégio de ter aulas com o pintor e cineasta J. Siqueira. Posso lembrar também que, antes disto mesmo, convenceu papai a nos comprar um piano e nos pagar aulas pois era de bom tom que mocinhas bem educadas tivessem uma educação musical. O investimento não prosperou porque eu e Clélia éramos totalmente desprovidas de dotes musicais.

Certamente foi ele ainda que convenceu nossos pais a me deixar entrar nas Bandeirantes, movimento que então era o que havia de mais moderno e que integrava meninas de várias classe sociais. Lembro do meu deslumbramento ao participar de atividade na casa de Edson Queiroz, com seus lindos jardins, pois uma das filhas dele, Lenise, era minha colega das fadinhas. Na adolescência, ainda preocupado em fazer de nós, meninas chucras da Piedade, encabuladas, matutésimas, tão desenvoltas e elegantes como as mocinhas da Aldeota, nos matriculou em curso que a Socila estava oferecendo no Ideal Club.

Era assim, o irmão mais velho, o amigo de seus irmãos, o tio e o pai empolgado pelo sucesso dos filhos e dos sobrinhos. Mas, principalmente, o filho que esteve sempre ao lado do pai e da mãe. O filho que honrou a memória do pai, fazendo das histórias que este lhe contou elemento base de sua obra sobre Sobral. Pois foram personalidades complementares: o Lustosa e seu Costa. Tão diferentes entre si e tão próximos, tão amigos. Respeitando-se e amando-se, pai e filho. O pai amável, todo doçura, todo sedução, todo habilidade para as coisas práticas e para as costuras da vida em família e na sociedade local. O filho mais sério, mais zangado, estabanado como a mãe, capaz de guardar mágoas profundas, mas também homem do mundo e da sociedade, construtor de amizades sólidas e duradouras. Amizades da vida inteira: Dorian Sampaio, Lúcio Alcântara, Paulo Elpídio, Helio Barros, Lúcio Brasileiro, Antenor Barros Leal, Claudio Castelo. Essa gente andou lá em casa desde que eu era pequena, eram os amigos-irmãos, como ele chamava. Essa gente esteve na rua Nossa Senhora da Piedade, 126, para a festa de 15 anos de Maria Clélia. Festa hippie, cujo convite foi desenhado pelo então já famoso Mino. Coisa que só o enorme prestígio do Lustosa poderia angariar para a família.

Pois foi ele que fez do sobrenome Lustosa da Costa uma marca e uma legenda que todos nós que viemos depois procuramos espelhar e valorizar. Sermos irmãos do grande jornalista, conhecido de todo o mundo no Ceará, não só por sua presença na imprensa, mas por fazer dessa presença espaço de boa literatura nos fez importantes, nos fez altaneiros. Ele nos pertencia e nós a ele. Sua crônica diária, quase sempre intimista, quase sempre falava da família. Era até motivo de piada. Mas é que o Lustosa era a sua família. Ele vibrava com nossas conquistas mais até do que nós mesmos. E tudo que fazíamos era para ele sempre como a confirmação de que aqueles irmãozinhos menores, lá do Beco da Piedade, valiam alguma coisa.

Na hora em que a gente perde alguém tão importante na vida, a culpa do que não fizemos é o complemento amargo das boas lembranças. Se minhas dívidas com meu irmão são imensas, a culpa de não tê-lo dito e demonstrado enquanto ele estava aqui, pertinho, entre nós, disponível e doido para estar perto, é enorme. Ele queria sempre me levar para estar com seus amigos. Amigos que eu não conhecia bem e que eram da geração dele. Blasé, eu preferia estar com aquela turma boemia do Pereira, nos bares da vida, contando histórias da minha própria mocidade. Eu não fui tantas vezes em que ele me convidou. E me custava tão pouco ter ido.

Quando a gente tem na vida alguém assim, que sempre esteve entre nós, que sempre pairou sobre nós, com o qual divergimos e com cujas manias implicamos, a gente não dá valor. A gente acha que vai ter muito tempo para atender ao que ele nos pede. Que da próxima a gente vai... etc. etc. Só que agora sabemos que não vai ter próxima, que na próxima vez que formos a Fortaleza ficar uns dias com mamãe não vamos ter a presença dele por lá. Companhia mais constante da mãe nonagenária, Lustosa era cada vez mais caseiro, cada vez mais família e cada vez mais feliz de poder participar daqueles animados e barulhentos almoços de domingo da casa de D. Dolores.

Depois de nos despedirmos dele, em Brasília, fomos eu, Roberto e Fred, junto com um grupo grande de sobrinhos e sobrinhas, almoçar. Barulhentos, cheios de histórias, os primos reencontravam primos que não se viam há muito tempo, apesar de viverem na mesa cidade. Não pude deixar de agradecer ao Lustosa me proporcionar mais esse encontro feliz. Não pude também deixar de lamentar que ele, que gostava tanto de ver a família toda reunida, não estivesse ali para rir conosco como fizemos tantas vezes.

2 comentários:

  1. Meus sentimentos, Isabel!
    Sempre fui grande admiradora do Lustosa. Lia sempre suas crônicas.Achava (acho) um encanto, seu grande amor por Sobral. Meu irmão Carlos Paiva, sempre me falou muito dele, por admirá-lo, também. Só o conheci pessoalmente no ano em que o B.de Paiva(meu irmão) recebeu a Sereia de Ouro, na década de 1990.
    Tive um grande prazer em ser apresentada a ele.
    Deixou um grande legado, viveu bem e dignamente a sua bela vida. Parabéns, pelo irmão, de quem teremos grandes e boas lembranças.

    Um forte e conterrâneo abraço,
    da Lúcia

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  2. obrigada, Lúcia, é sempre bom receber um retorno sobre o que a gente escreve. ainda mais em se tratando do meu querido irmão. sou grande admirador do B. de Paiva, conheci há muitos anos atrás uma filha que namorava um colega meu do museu da republica. era muito bonita. um grande abraço para vc da Isabel

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