"Fulano está?"
"Não, Fulano não está mais entre nós."
"Ah, é? Sabe me dizer onde ele está agora?"
"Passou para o andar de cima."
"Será que dá para você transferir a ligação para lá?"
Mario Bag me garante que o diálogo acima, entre ele e a telefonista de uma agência de propaganda não foi bem assim, mas foi parecido. Pois, de fato esses eufemismos com a morte se prestam a mal-entendidos. Expressões como "foi para um plano superior", "bateu as botas", "esticou as canelas", "partiu desta para a melhor", "está comendo capim pela raiz", não são autoexplicativas.
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Esta foi o Lustosa que me contou: No interior do Ceará, um sujeito estava muito doente, desenganado. O padre de sua paróquia, velho amigo do doente, procurava confortá-lo lembrando das alegrias que ele, que fora um justo, encontraria no reino dos céus. O paraíso era descrito como um lugar claro e alegre, onde o enfermo se encontraria junto de Nossa Senhora e cercado de anjinhos. Mesmo com essa descrição tão favorável da vida eterna o doente argumentou: "Ô, seu vigário, mas Quixeramobim tá tão bonzim..."
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Também devo esta ao Lustosa: Duas comadres se encontram no cemitério de Sobral, uma entrando e outra saindo. A que entrava indagou de onde a outra vinha e ela explicou que fora dar uma arrumada no túmulo de seu falecido pai. A amiga perguntou em que parte do cemitério estava enterrado o pai da outra. "Bem, - foi a resposta - fica ali bem no centro da alameda principal, ao lado do bispo fulano e do general sicrano e bem em frente ao mausoléu da família do senador beltrano". Diante disto a outra exclamou: "Mas é um ponto ótimo!".
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Minha sobrinha, a médica Fabiana Lustosa Corsetti, quando era pequena costumava ir com os pais visitar as velhas tias de sua mãe, no Mondubim. Além de Abigal e Dagmar, irmãs de papai, ainda vivia e ali morava nossa tia-avó, Amélia. Tia Amélia era a irmã solteirona da mãe de papai, D. Vitalina, à qual sobrevivera. Muito velhinha, muito magrinha, ficava quase que o tempo todo deitada na sua pequena cama marca Patente. Fabiana que devia ter então uns oito anos, estava encantada com uma malinha bem pequena, dessas malinhas amarelas de madeira e papelão que se vendem ainda nas feiras do interior e pediu: "Tia Amélia, quando a senhora morrer a senhora deixa essa malinha para mim?". Tia Amélia não gostou e respondeu na lata: "Que morrer o que menina, agora que eu fiz 92 anos".
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Antes de ser casado com nossa tia Abgail, tio Joaquim tivera uma paixão de juventude que, ao que parece, o tinha muito maltratado, antes de morrer queimada em um incêndio. Funcionário da RFFSA ele costumava se hospedar na casa de uma velha senhora, em uma das estações do trem. A amiga conhecia-lhe as desditas amorosas do passado que lhe foram confiadas pelo viajante nas tantas vezes que ali se hospedou. Numa noite em que dormia no quarto vizinho ao da hospedeira, a alma da finada lhe apareceu junto ao pé da rede, chamando e pedindo: "Joaquim! Tu me perdoas, Joaquim?". Do outro lado da parede, a amiga atenta que ouvira o apelo da alma penada, lhe recomendou: "Perdoa não, Joaquim, que essa mulher foi muito ruim contigo".
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Outro dia lembrei à mamãe que seu genro, meu falecido compadre, Francisco Edmilson Brito, gostava de brincar com a falta de aptidão dela para a culinária, anunciando-lhe aos domingos que iria almoçar na casa dos sogros para comer a comidinha feita por dona Dolores. Ela sempre lhe repetia: "Você morre e não come uma comida feita por mim". Aos 98 anos, diante dessa lembrança, mamãe observou: "E não é que ele morreu mesmo". Edmilson também teria rido dessa tirada de humor negro da sogra. Talvez uma forma que ela encontrou de demonstrar que sabe quais os que ainda que estão vivos e os que já se foram.
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Três meninas órfãs, a Chaga, a Lili e a Maria, foram acolhidas pelos meus pais ainda em Sobral. Cresceram conosco, meio irmãs, meio babás, presenças constantes nas nossas vidas. Maria casou-se com quem papai queria, o Antônio Gomes, seu motorista desde o começo dos anos 60, até hoje a serviço de dona Dolores.
Chaga e Lili casaram com dois tipos que papai não aprovava e, como ele previra, não foram muito felizes. Lili, até hoje, de vez em quando, lamenta: "Eu devia ter ouvido o seu Costa, não devia ter me casado com aquele Verdura". Verdura era o apelido do marido dela, de quem eu nunca soube o verdadeiro nome. De fato, a vida da Lili tem sido um rosário de amarguras, apaziguadas até pouco tempo pela bebida, hábito que herdou do longo convívio com o Verdura. O engraçado da história do arrependimento é que seu casamento foi há mais de 50 anos...
Até a morte de papai, quando faltava empregada, a Lili vinha dar uma ajuda à mamãe. Temendo as broncas, ia beber escondido no botequim da esquina, sob o pretexto de comprar cigarros. Papai dizia: "A vida da Lili e desse cachorro é aquele botequim da esquina". É que sempre que ela ia lá, a acompanhava um velho cachorro magro e amarelo, desses cachorros que tem no sertão cearense e que fora parar lá em casa não sei porque, pois não fazia medo a ninguém. Lili vinha embora, mas o cachorro amarelo se deixava ficar lá no boteco sujo em meio aos bêbados que, de tempos em tempos, o enxotavam com um pontapé.
Lili foi a primeira pessoa que sonhou com o papai depois que ele morreu. No seu sonho, ele chegava no portão de nossa casa na Barão de Aracati, bonito, novo, com sua roupa clara, parecendo ter cinquenta anos, e vinha todo alegre falar com dona Dolores. Quando chegou perto, Lili pediu a ele: "Seu Costa, me arrume um trocado para eu comprar um cigarrinho". Ela mesma me contou e contou também do arrependimento que lhe veio quando acordou, porque em vez de pedir uma graça à alma do morto, pedira foi um trocado para comprar cigarro.
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Creio que eu também fui a primeira pessoa a sonhar com o Lustosa, depois que ele morreu. Estava muito bem, alegre e jovial, vestido com um terno claro, xadrezinho azul. Perguntei se ele estava vivo ou morto e ele ficou meio sem graça, talvez porque a mamãe estivesse do lado e ele não quisesse decepcioná-la. Foi bom sonhar com ele.
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