"Quem seus inimigos poupa... (22/9/12)
Nas mãos lhes morre” – é esse o complemento do adágio popular que achei
em um dos jornais da Independência. Refrões, adágios, provérbios ou
aforismos, são os nomes que, com ligeiras variações de sentido, designam
aquela expressão sucinta, quase sempre doutrinal ou sentenciosa, cuja
legitimidade se baseia na antiguidade e na aprovação pelo senso comum.
Formula sintética e direta, o que dá titulo a este artigo, como alguns
de seus congêneres, é repleto de significados e fornece uma lição digna
de Maquiavel que analisaremos no final.
Don José Maria Sbarbi,
presbítero premiado pela Biblioteca Nacional de Espanha, em 1871, por
sua monografia sobre “Los refranes, adagios e proverbios castellanos”,
acreditava que estudar os provérbios era adquirir ciência de modo “más
llevadero, consumando el difícil maridaje de lo útil com lo agradable”.
Segundo Monsenhor Sbarbi, Aristóteles já os definia como “preciosas
relíquias da venerável antiguidade preservadas pela memória dos homens”.
Atribui-se a Horácio aquele que se usa até hoje: “quando
vires as barbas do teu vizinho arder, deita as tuas de molho”. E a
Sêneca, um de que muita gostava o Visconde de Cairu: “Quem bate
primeiro, bate duas vezes”. Os que mais apareciam nos jornais
brasileiros de 1822 eram mesmo os de origem obscura: “palavras loucas,
orelhas moucas”; “quem não tem padrinho morre mouro”; “na barba do tolo
aprende o barbeiro novo”; “cada louco com sua teima”, etc.
Analisando a cultura do século XVI, na Europa do Norte, Natalie Zemon
Davis mostra que, apesar da distância que havia entre a linguagem
clerical e/ou literária e a fala do homem do campo, elas tinham algo em
comum: ambas compartilhavam o uso do provérbio. Isso se deveria, entre
outras coisas, ao fato de que o nível de alfabetização entre os leigos
na Europa do Norte se conservara baixo até o século XV.
Para
os padres, os provérbios comuns eram uma maneira de invocar um universo
de discurso familiar e de ajudar as pessoas a lembrarem a mensagem do
sermão. Os advogados, por sua vez, se encantavam com a estrutura
harmoniosa e a brevidade, acreditando que, por sua densidade, os
provérbios ajudavam a persuadir.
Mas, segundo Davis, com o
advento do Racionalismo e do Iluminismo, os provérbios foram postos de
lado: passaram a ser vistos como produto de falsas associações. Não
sendo passíveis de provas adequadas, não se recomendavam nem por sua
concisão nem por sua familiaridade, tampouco por sua longa existência.
Talvez seu uso não tenha sido tão deixado de lado assim. Em meu livro
“Insultos impressos” (Cia. das Letras, 2000) demonstro como eram
frequentemente usados pelos jornalistas que fizeram a Independência do
Brasil.
Muito me impressionou o uso que todos os que escreviam
nos jornais daquele tempo – de Hipólito da Costa, passando por
Gonçalves Ledo e o Visconde de Cairu, até chegar aos jornalistas mais
populares, como João Soares Lisboa e Luís Augusto May – faziam deles. E,
vindo mais perto, nos surpreendemos ao verificar que Rui
Barbosa parece ter sido senão um estudioso pelo menos um colecionador de obras que tratavam do assunto.
De sua admirável biblioteca constam 15 títulos relacionados a aforismos, provérbios ou refrões. Um deles, de Gustave Le Bon.
Acreditava Don José Sbarbi que o império dos provérbios era universal e
tão antigo como o mundo e que sua duração alcançaria até o fim das
gerações. Decerto esse império não é tão poderoso hoje quanto em seu
tempo. Mas um dicionário de provérbios lançado há poucos anos pela
Lacerda Editores, ao estabelecer as diversas formas que um mesmo
provérbio pode assumir em vários idiomas, surpreende ao nos revelar a
universalidade de alguns que considerávamos tipicamente brasileiros.
O que escolhi para dar titulo a esse artigo, “quem seus inimigos poupa
nas mãos lhes morre”, me veio à mente a propósito exatamente da
política. Neste terreno, mais do que em outros, a lição curta e direta
daquele provérbio deve ser sempre lembrada. Especialmente pelos bons,
aqueles que veem a política e a humanidade com olhos diversos dos de
Maquiavel. Seu sentido é de que se você tem o poder e a oportunidade de
neutralizar forças que estão empenhadas em lhe destruir e não o faz, não
tenha dúvida, quando a situação se inverter, você será destruído.
Os bem intencionados e os abnegados que só veem na política uma forma
de fazer o bem, de ajudar aos que mais precisam, esquecem essa lição
fundamental: para os que já são ricos e poderosos e estão se lixando
para o destino dos outros, o dinheiro e o poder nunca são demais. Há no
mundo um contingente considerável de pessoas para as quais o sofrimento,
a miséria e a degradação do próximo são perfeitamente indiferentes. Aí
vale outro refrão: não tome os outros por si.
Proteja o seu
legado, neutralize os inimigos de seu projeto, faça o que estiver ao seu
alcance para impedi-los de destruir o que foi conquistado. Quem conhece
a história das lutas sociais sabe que foi um processo longo, sofrido e
difícil cujo resultado precisa ser guardado dia e noite contra os que
estão empenhados em vê-lo naufragar. “O preço da liberdade é a eterna
vigilância”, já foi um slogan do liberalismo de direita mas que vale
para qualquer situação.
Na verdade não só o da liberdade mas
também o preço da igualdade, dos direitos, da distribuição mais justa
das riquezas, da manutenção de um estado de bem-estar social. O que
vemos hoje acontecer nos países desenvolvidos é exatamente o resultado
da falta de vigilância dos que estavam acostumados a ter tudo e não se
deram conta do valor do que lhes estava sendo tirado. As novas gerações
não tinham ideia do quanto aquelas conquistas tinham custado aos seus
pais e avós. Leva-se muito tempo para erguer uma nação mais justa e
igualitária. Reduzi-la rapidamente à situação anterior é só questão de
recursos e de oportunidade.
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