Luxo da aldeia (25/8/12)

Fazia muito tempo que não via Ednardo. Não sei mesmo se, quando cheguei no Rio de Janeiro, em 1977, nos vimos muito. Na verdade, naquele tempo, Ednardo já era famoso, creio que também como, ao contrário da maioria, já fosse casado, não era muito habitué da turma do Ceará que andava pelo Baixo Leblon e que tinha em Fausto Nilo sua figura central. Certamente, como toda a turma frequentava a praia no Posto Nove, em Ipanema, nos encontramos por lá. Também não estive na grande farra que foi o Massafeira, em Santa Teresa, a não ser uma vez, junto com Sérgio Pinheiro, e me demorei pouco, pois, apesar dos tantos amigos músicos que tinha, eu não era do meio - aquele encontro foi sobretudo deles - e quem não era se sentia um pouco intrusa se metendo lá. De modo que a imagem de Ednardo, para mim, era a do artista talentoso, bonito, elegante e discreto, um pouco triste, e que fazia um tremendo sucesso tendo mesmo emplacado algumas de suas músicas nas trilhas de novelas da Globo. 

Mas Ednardo era também o artista cearense preferido de meus colegas da faculdade de Ciências Sociais da UFRJ, que adoravam a sonoridade de sua música e a grande beleza que havia nos versos de suas composições. Era o que tinha o maior numero de canções conhecidas, daquelas que a gente sabe cantar por inteiro. Por isso tem um gostinho especial para os que, no final dos anos 1970 andavam pelos vinte anos e amavam as musicas do Ednardo, ver agora o entusiasmo que ela desperta na juventude de hoje em dia. Basta dizer que o bloco mais querido da rapaziada de Fortaleza chama-se Luxo da Aldeia, por causa da letra de "Terral", que começa dizendo "eu venho das dunas brancas" para terminar com a formidável sequencia: "eu tenho a mão que aperreia/eu tenho o sol e areia/eu sou da América/sou da América/ Shouth América/eu sou a nata do lixo/ eu sou do luxo da aldeia/ eu sou do Ceará".

Voltei a encontrar Ednardo esta semana, depois de muitos anos sem vê-lo. Foi durante o belíssimo show de Mona Gadelha no "Seis e Meia", da Sala Funarte, no centro do Rio. O show em si, último trabalho dessa cantora tão especial, tão inteligente e culta, é uma viagem pela memória musical afetiva dos que viveram aquele momento em que o Ceará entrou no mapa da MPB através do seu Pessoal. Se o ápice da apresentação de Mona é com "Retrato Marrom", do Fausto Nilo e do Rodger Rogério, o show se anima ainda mais com a entrada do Ednardo, em um pot-pourri de algumas de suas canções que incluem, entre outras, "Terral" e "Longarinas".

A gente nem sempre lembra de quem é uma música da qual gosta muito e costuma cantarolar. Assim é "Longarinas" que diz: "Faz muito tempo/ Que eu não vejo/O verde daquele mar quebrar/Nas longarinas da ponte velha/Que ainda não caiu". Essa canção também tem construções preciosas do tipo: "Uma a uma, as coisas vão sumindo/ Uma a uma, se desmilinguindo". Mais adiante a imagem da Fortaleza moderna chocando-se com o bucolismo das noites de luar: "E a lua viu desconfiada/A noiva do Sol com mais/Um supermercado".

Também foi bom ouvir de novo na voz do autor, "Ingazeiras": "Nasci pela Ingazeiras/ Criado no oco do mundo...". O show era curtinho e contemplava músicas de outros autores de modo que ficaram de fora as mais conhecidas como "Pavão Misterioso", "Berro" ("do boi só se perde o berro...") e "Cavalo Ferro". Houve na plateia quem lembrasse também daquela música que fala de Barbara de Alencar e seu aprisionamento na Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção, berço da cidade e que está situada ali do lado do Passeio Público que dá nome a essa canção.

Eu fiquei com pena que não cantassem uma canção que, por acaso relembrei há pouco tempo: "Beira-mar". Alguém postou no Facebook uma imagem da Praia de Iracema e incluiu o verso: "Na Beira-Mar, entre luzes que lhe escondem/ Só sorrisos me respondem/Que eu me perco de você...". Aí me dei conta da beleza melancólica dessa primeira estrofe. Na verdade, creio eu, a imagem está muito mais associada àquela Beira-Mar do bar do Anísio, da agitação boemia que havia naquele trecho do que com a paisagem praieira. Era naquela beira-mar que se desenrolavam alguns dramas sentimentais, encontros e desencontros como o que sugere a música. Bonita toda a vida é também "Ausência", até pelo movimento que letra e música fazem juntas ao enunciar: "Tu lembras, a rua estreita estrada tão antiga,/ e eu mostrava a ti uma cantiga/ Uma cantiga antiga do lugar". Lugar que volta no final da canção, de poucos e bons versos que termina dizendo: "Sorrias e a tua voz estranha estrada antiga, perdeu-se ao longe na partida/E não ficou ninguém no seu lugar..."

Foi bom ver a figura bonita de Ednardo, magro e delicado em sua bata branca, como um monge oriental, com seus longos cabelos grisalhos e sua boina. Foi bom ver a emoção dele e o carinho paternal que demonstrou por Mona Gadelha e por Fernando Moura, músico e arranjador do show, confessando que os conhecera ambos com 17 anos e que tinha responsabilidade direta pela carreira dos dois que estimulara desde o começo. Bom também porque, quem foi público no tempo em que aquelas musicas todas, aquele verdadeiro patrimônio cultural, foram gestadas, quem partilhou da emoção de ver em Fortaleza os shows do Pessoal do Ceará, se sente orgulhoso também de ter feito parte daquele momento tão especial de nossa história.

Enfim, "recordar é viver" e cantar é a melhor forma de recordar e reviver momentos felizes. Essa alegria foi ampliada pelo gosto de ir - como a gente costumava fazer no tempo do Baixo Leblon - dividir com os artistas, depois do show, mesa em bar da Lapa, regada a muitos chopes e embalada por velhas e divertidas histórias.

Nenhum comentário:

Postar um comentário