Uma coisa que aprendi quando fui morar no Rio foi a fazer o orçamento detalhado das minhas despesas. É que o dinheiro era curto e para que durasse até o final do mês era preciso saber exatamente em que estava gastando. Não adiantava simplesmente estabelecer que ia gastar tanto com transporte, tanto com alimentação, tanto com aluguel e tanto com lazer.
Era preciso ser minuciosa. Fazer quase um diário das despesas. Por exemplo: no dia X peguei cinco ônibus a tantos cruzeiros (isto foi no século passado quando a moeda brasileira era o cruzeiro, imagine!); tomo meio litro de leite por dia, logo tenho que comprar quatro litros por semana; hoje vou sair e reservo alguma coisa para tomar um chope (só um)....
Vantagem de quem mora em uma cidade de praia é que o lazer é gratuito. Fora a passagem de ônibus, o resto é grátis: o mar, a areia, o sol e os tantos amigos, conhecidos e desconhecidos, que se encontra por lá, garantem a diversão do final de semana com pouco dinheiro. E você ainda pode levar seus sanduíches e seu suco de casa.
Outra coisa que a gente aprende quando tem que viver com o dinheiro contado e controlando os próprios gastos é a ser menos desprendido com as coisas materiais do que éramos quando vivíamos às custas de nossos pais. Aquele colega que chega na tua casa e vai direto na geladeira come teu pão, tua manteiga, tua mortadela e ainda bebe teu refrigerante se torna o tipo da visita indesejável. Eu que achava minha mãe tão mesquinha quando eu chegava com várias amigas para lanchar e ela reclamava, me tornei uma verdadeira guardiã da minha geladeira contra esses invasores.
Por isso achei muito engraçado relendo "La peau de chagrin", de Balzac, ver o protagonista explicar a um amigo como fazia para viver com o modestíssimo legado que recebera do pai. Determinado a escrever uma grande obra de pensamento (Balzac cria toda uma trama em torno da tal obra mas não diz do que ela trataria) Raphael de Valentin escolhe um lugar modesto para viver e se organiza.
Animado com a perspectiva de se dedicar exclusivamente à sua obra, de viver durante três anos mergulhado no mundo dos livros e ideias, ele imaginava que, como as crisálidas, sairia daquele casulo em que ia se meter diretamente para um renascimento brilhante e glorioso.
Assim, ao reduzir a vida às suas necessidades básicas, nosso herói, apresenta ao amigo seu orçamento. O que gastava diariamente com pão, leite e carne; querosene da lâmpada para a noite; carvão para o aquecimento no inverno; o que pagava para lavar a roupa; além do preço diário do aluguel de seu modesto quarto de pensão.
Suas roupas e sapatos eram compradas e usados com o máximo de economia para durarem o maior tempo possível. Ele não comprava água mas ia todas as manhãs, junto com as lavadeiras e donas de casa, se abastecer na fonte Saint Michel. Ele ainda tinha que guardar alguma coisa para as despesas imprevistas e torcer para não ficar doente pois teria mesmo que recorrer aos hospitais de caridade.
Tudo ia muito bem para o nosso amigo até ele encontrar o diabo tentador na figura de Rastignac. Diante da descrição do sistema e do projeto de vida de Raphael, este último riu e começou a narrar o que seria o destino de nosso herói: a morte em um hospital de caridade, desconhecido de tudo e de todos; um funeral melancólico e o sepultamente na vala comum destinada aos pobres. Você trabalha? Rastagnac perguntou a Raphael, para concluir em seguida: você nunca vai ser nada na vida. Veja o meu exemplo: je suis propre à tout et bon à rien (eu sou próprio para tudo e bom para nada). "Preguiçoso como uma lagosta, eu, no entanto, sei me impor, me espalho e ocupo meu lugar. Eu me gabo e eles acreditam. Eu me endivido e eles pagam."
Que Raphael acabaria por se convencer do que lhe dissera Rastignac, o leitor já sabia, pois algumas páginas antes ele já revelara com amargura a consciência de que o sucesso e a glória não eram para os homens superiores que gastavam a juventude estudando. Pois, pelo contrário, "deve ser leve a bagagem daquele que persegue a fortuna". Enquanto o sábio se fecha em seu gabinete com seus livros, os intrigantes, ricos de palavras e desprovidos de ideias, vão e vêm, surpreendendo os tolos e conquistando a confiança dos medíocres. Os sábios estudam, os outros agem; aqueles são modestos, os outros são audaciosos; o homem de gênio cala seu orgulho; os intrigantes arvoram o seu.
É verdade e vale tanto para o tempo de Balzac quanto para o nosso. Mas, e daí? O próprio herói também nos fala do quando o estudo faz bem. O estudo, diz ele, é tão maternalmente bom que fica parecendo um crime pedir a ele outras recompensas além das puras alegrias com que ele nos alimenta. E isto também é verdade quando pensamos no quanto, ainda hoje, os verdadeiros intelectuais, aqueles que estão em suas universidades e centros de pesquisas realizando trabalhos que não vão lhes dar a glória nem os ganhos de um best-seller, têm dificuldade de lidar com fama e dinheiro.
Não são maus, nem um nem outra. Nem são pecados que devem ser punidos com a demolição da obra dos que, por um motivo ou por outro, apesar de suas reais qualidades, caíram no gosto do grande público. Nem tanto ao mar nem tanto à terra: nem a academia pode execrar os que aliam um pensamento verdadeiramente original com objetividade, clareza e estilo, nem os que acreditam em listas de mais vendidos, podem desconhecer o valor de obras que se destinam a um público diminuto mas cujo impacto sobre aquele ramo do conhecimento só se fará sentir no médio e o no longo prazo.
De qualquer maneira nosso assunto começou com a economia que deve orientar a vida material no começo da idade adulta e caiu em outro terreno que diz respeito também à uma certa economia: à economia da vontade de sucesso e dos meios para obtê-lo. Aí, acho que o velho Balzac, mais uma vez, acertou na pinta.
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