Pequenas ambições (28/7/12)

Temos um amigo a que apelidamos de "Casebre". Eu não que não sou boa de botar apelido nos outros. Mário Bag, que é um verdadeiro craque nessa matéria, chama assim a um companheiro de profissão que tem mania de se desvalorizar. Conversando com ele sobre questões de trabalho, listou seu nome ao lado de outros colegas de talento, ao que o "casebre" redarguiu: eu não, vocês é que são verdadeiros Mike Tysons do desenho, eu só apenas um rabiscador. O assunto mudou para casa de campo.

Mário Bag que tinha então um pequeno sítio em Paty do Alferes, ouvindo o amigo falar que tinha passado o final de semana na serra, perguntou se ele também tinha casa por lá. Ao que o outro respondeu: casa? Quem tem casa na serra é você, rapaz, o que eu tenho é um casebre. Bom, diante disto, o Bag preferiu não perguntar se o sujeito tinha viajado com a mulher com medo do outro dizer: mulher? Mulher quem tem é você, aquilo que eu tenho lá em casa é uma capivara.

Enfim, o "Casebre", como o chamamos, apesar dessa exagerada modéstia é muito cioso de seus direitos e cheio de restrições aos colegas mais bem sucedidos. Sua atitude humilde esconde um profundo ressentimento expresso na maneira em que se refere à "casa com piscina" onde um fulano morava e que só podia ser fruto de muita roubalheira quando o tal fulano ocupou um cargo público. Engraçado essa expressão "casa com piscina" usada ainda hoje para dizer que alguém é rico quando a gente sabe que isto pode ser tanto uma mansão na barra da Tijuca, quanto uma modesta casa de subúrbio, com piscina de plástico no quintal.

O fato é que o sujeito que se refere a si mesmo como "um nada" está é esperando ouvir do outro lado a negação dessa afirmativa. E, mesmo que não esteja, exercita um pouco o seu lado Tartufo. Pois, como li em algum lugar, creio que em Thomas Mann, a modéstia é uma forma de hipocrisia.

Mas há outra modalidade de atitude diante da vida que não se traduz necessariamente em palavras mas que é a realização desse ideal. O sujeito que se contenta com pouco, o sujeito que acha que assim está bom, de qualquer jeito serve, tanto faz. Não se importa de morar em um lugar feio, encardido e sem encantos. Tanto faz. Não se importa de se vestir sem qualquer distinção. Pois tanto faz. Nem liga de andar com pessoas que possam lhe acrescentar algo mais ou lhe deixar com algo menos. Who cares?

O trabalho? Tanto faz, desde que não lhe encham o saco. Tanto faz ser um cientista bem sucedido quanto um obscuro vendedor atrás do balcão de uma farmácia em cidade do interior. Tem inteligência e talento, podia fazer uma bela carreira mas, prá que? Tanto faz.

O pouco lhe basta. Um teto, um prato de comida, um chinelo e um violão é o que é preciso para ser feliz. De fato, aos vinte anos, a gente é feliz até com menos que isto. Devia bastar e devia ser suficiente. Mas não é. Pois na verdade quem estabelece como marco o pouco acaba com menos ainda.

Não é fácil conquistar seu espaço no mundo do trabalho, fazer uma carreira, comprar uma casa, adquirir um padrão de conforto razoável. Quem já nasceu com essas coisas pensa que é. Relaxa e acha muito estressante a preocupação dos pais com bens materiais. Coisa de gente menor, sem grandeza. Não sabe que aquele padrão de vida que os pais lhe proporcionavam foi o resultado de uma vida de trabalho que começou na juventude deles. Poderiam ter relaxado e se deixado ficar no mesmo lugar em que começaram. Teriam chegado ali, na maturidade, com os filhos crescidos, sem condições de lhes dar uma educação de qualidade que lhes possibilitasse manter pelo menos o padrão em que foram criados.

Uma carreira bem sucedida depende de muito investimento e de investimento feito a longo prazo. São os estudos na faculdade garantindo o ingresso no mestrado; é a dedicação sistemática a um projeto sério permitindo seguir pelo doutorado e, finalmente, depois da defesa da tese, a entrada na carreira. São etapas que se precisa vencer e que, pouco a pouco, vão garantindo a melhora no padrão de vida. Vale para quem faz carreira acadêmica e vale também para quem ingressa no serviço público ou em uma empresa.

A ambição é qualidade no mundo do trabalho. Não a ambição cega e criminosa, mas o desejo de realizar suas melhores qualidades, a vontade de brilhar, de se destacar, de fazer bonito. Não é defeito nem pecado, ao contrário, é algo que estimula quem está em volta, que desperta nos colegas e nos chefes o desejo de se elevar ao mesmo padrão que seu esforço e sua competência acabaram por estabelecer em seu ambiente de trabalho.

A vontade de ter uma bela e confortável casa, de ver seus filhos educados nas melhores escolas; o desejo de viajar, de ir ao teatro, a um bom restaurante, ter belas roupas e um bom carro não estão inscritos no índex dos pecados mortais. Ao contrário, esses desejos servem de impulso para estudar mais, para trabalhar melhor, para seguir em frente. São desejos assim que movem o mundo.

Evidentemente que ter apenas esses desejos não dá grandeza a ninguém. A grandeza vem de associá-los a um trabalho digno, feito com gosto e com vontade. A realização decorre de seguir uma profissão que nos realize tanto profissionalmente quanto espiritualmente. Ao longo da carreira, vamos descobrindo os caminhos e os atalhos que nos levam a este fim. Com bom senso, sem imaginar que, necessariamente, vai-se ser um Einstein, mas apenas que estamos fazendo o que sabemos, com interesse e dedicação. Sem nunca perder de vista a realidade material, o retorno que terá para garantir uma vida digna e confortável para você mesmo e para sua família. Pois isto também é uma forma de realização. Talvez a mais bonita.

Nenhum comentário:

Postar um comentário