Sobral do meu tempo (4/8/12)
Essa investigação é de interesse geral, para que se possa projetar que modelo de sociedade, que classes políticas, que comportamentos sociais, que cultura, enfim, se instalou na região, tendo Sobral como força centralizadora - Lustosa da Costa, maio de 1973. Nasci em Sobral, mas só morei lá até os três meses de idade. Naquele ano de 1955 morreu meu avô, que morava na Messejana, e meu pai se transferiu de Sobral para Fortaleza com toda a filharada para dar mais apoio à mãe viúva. No entanto, a lembrança de Sobral esteve sempre presente pois meu pai parece ter sido muito feliz durante o tempo que morou lá. Foram 13 anos durante os quais muitos filhos nasceram, um morreu e o mais velho completou sua formação.
Não é por acaso que, apesar de quase todos termos Sobral como lugar de nascimento, foi justamente o Lustosa, que ali chegou em 1942, com quatro anos de idade, quem construiu sua história de vida tendo Sobral como ponto de referência. Referência que ele recupera em seus escritos desde 1968. Pelo menos é o que se depreende da leitura de "Sobral de meu tempo", seu primeiro livro, publicado há 30 anos, e que está para ser aparecer em nova edição. Reunião de artigos publicados de forma esparsa ao longo de 14 anos, "Sobral do meu tempo" é a primeira expressão de uma obra literária que teria, quase sempre, aquela cidade como fonte de inspiração.
A descoberta de Sobral como um lugar de memória, rico de possibilidades, parece ter se imposto aos poucos na vida do autor. Testemunha ocular de algumas das histórias que narra, tendo convivido com muitos dos personagens que descreve em seus livros, Lustosa precisou se afastar de Sobral para perceber a riqueza do universo simbólico em que tinha passado a infância e a adolescência. Foi preciso viver em Fortaleza, no Rio de Janeiro e em Brasília para perceber a peculiaridade desse lugar, objeto de vasto anedotário cuja tônica é a enorme presunção de suas elites.
O elenco é encabeçado pelo bispo-conde, D. José Tupinambá da Frota, "herdeiro de grande fortuna, construtor de escolas, fundador de museus, aristocrata e ultra-montano que se gabara, até a véspera de sua morte, de não haver um só protestante em sua Diocese". Deve-se, em grande parte, aos esforços de D. José a conservação de Sobral como um lugar que, apesar de ter perdido sua proeminência econômica, continuava a ter grande prestígio e força política.
Quanto mais o autor remexe o baú da memória mais saltam dele histórias e personagens originais, densos, ricos e divertidos: o duelo em praça pública de Chico Monte com o tenente Castelo Branco; o massacre do jornalista Deolindo Barreto em plena câmera dos vereadores; a eterna rivalidade entre D. José e o aristocrático desembargador José Sabóia; a inacreditável trajetória do padre playboy José Palhano, que cortava as ruas de Sobral pilotando sua lambreta. Tudo isto temperado pela mistura de política com religião, em um momento em que a Igreja Católica intensificava uma militância que tivera início nos anos 1920 e que ia ganhar novo ingrediente com a Guerra Fria. A palavra "comunista" como um anátema definitivo a condenar o adversário ao fogo dos infernos e à desafeição do eleitorado foi francamente usada por D. José contra seus adversários políticos.
Como em toda obra autobiográfica, as páginas de "Sobral de meu tempo" revelam também o menino que, "cabeçudo como um anão de Velásquez", ao amanhecer, montava em um velho e entediado cavalo e rumava para a escola. O mesmo menino ao qual o pai deu uma caderneta onde registrou um "termo de abertura" em que dizia: "Este livro, que contém 50 folhas devidamente numeradas, servirá para o assentamento diário de todas as ocorrências da vida, ainda incipiente, do meu primogênito Francisco José Lustosa da Costa, para o qual invoco, no dia de hoje, a proteção do grande taumaturgo São Francisco de Assis. Sobral, 04 de outubro de 1947. Francisco Ferreira da Costa".
Menino que daria seguimento à vocação de repórter evidenciada aos nove anos, quando registrava nessa mesma caderneta os principais episódios da vida da cidade, iniciando-se ainda adolescente na imprensa de Sobral. Rapazinho que teve a pretensão de escrever para um grande jornal em Fortaleza perguntando quanto lhe pagariam pelos seus escritos. Moço que, ainda em Sobral, teve despertada uma vocação sociológica, infelizmente não realizada, a partir da leitura de "Os Sertões", de Euclides da Cunha, e de "Casa grande e senzala", de Gilberto Freire.
Neste livro recheado de imagens, anotações, recortes de jornal, a narrativa flui de forma agradável, embalada pelo belo estilo do autor. À descrição da paisagem, dos ambientes e do contexto, somam-se a riqueza dos personagens e de suas histórias compondo a sinfonia desta, a um só tempo, aristocrática e rústica metrópole sertaneja.
Aqui também encontramos o sociólogo e o historiador que os tantos afazeres não permitiram se completar. Ele se revela no inconformismo com que o autor questiona a história que se esconde por trás das singularidades da sua cidade. Porque Sobral era assim? Seria porque a riqueza de suas elites se originara na pecuária? Desde quando se estabeleceu que um lado da praça era dos ricos e outro dos pobres? Qual o lugar do negro naquela sociedade? Se não dá respostas às questões que apresenta, o jornalista as oferece como provocação ao pesquisador, sugerindo caminhos, abrindo veredas em artigos onde vai buscar notícias históricas sobre as origens de Sobral. Livro semeador que abriu a trilha para outras obras de Lustosa da Costa que se lhe seguiram, "Sobral do meu tempo" também contribuiu para renovar entre os sobralenses de hoje em dia o orgulho de sua história e de seu rico patrimônio cultural.
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