O Patuá começou a ser escrito nas escadarias que ligavam o segundo ao terceiro andar do IFCS. O projeto gráfico e quase todos os desenhos eram do Cesar da Mata mas o cérebro por trás daquela perigosa organização criminosa era mesmo o Julio Cesar Adiala. O Pátua tinha sua origem na Frente Alienada do IFCS criada pelo Julio e pelo Dico (Jurandyr Leite). A FA-IFCS era anarquista e costumava anotar na margem dos cartazes pregados nas paredes do corredor. Lembro bem de um que trazia o verso de João Cabral: um galo sozinho não tece uma manhã, abaixo do qual Julio escreveu: Mas dá um bom ensopadinho.
O Patuá trazia como subtítulo: o jornal da Coobagana (braço armado da coosativa), entidade que se auto-intitulava como a maior frente desarticuladora do pensamento formal e metafísico do IFCS. O lema da Coobagana se inspirava na célebre frase do Che: hay que travar-se pero, sin perder la bagana jamás. Sua tiragem era uma ironia com a Hora do Povo: rumo aos 100.000. O jornal oferecia um brinde do mês (coisas como uma bagana, uma seda, um pilão) sempre associado a um slogan do tipo: mais erva ou paramos o Brasil, voar é com os ácidos e outros que tais.
O personagem que dava nome ao jornal, Basílio Patuá, era produto de uma criação coletiva, mas o redator de sua biografia era o Macarrão. O primeiro editorial lembrava uma das bandeiras de Basílio: ópio para o povo e anunciava que sua obra seria divulgada através do Instituto histórico e cultural pela preservação da memória de Basílio Patuá. Para combater a influência perniciosa do Patuá, Luís Carlos Prestes publicaria carta (naturalmente forjada pelos redatores), em que Basílio é apresentado como um agente do imperialismo que vivia a desvirtuar a juventude mundial:
Camaradas patuístas de norte a sul, de leste a oeste, quem aqui vos fala é Luís Carlos Prestes. Quero nesta missiva manifestar minha indignação com o lançamento deste periódico difamador, que se lança contra instituições democráticas arduamente conquistadas pelo proletariado. (...) O grande Stálin, em 1932, denunciava no Comintern a contribuição negativa de Basílio Patuá para o avanço da consciência socialista. Conclamo todos os comunistas a cerrarem fileiras contra esse ser viciado combatendo desde já o jornal Patuá. Saudações Proletárias. L. C. Prestes.
Boa parte da publicação se dedicava a ironizar os colegas da própria equipe. Dentre estes, o alvo preferido era o Washington que se propunha a publicar artigos sérios, invariavelmente atacados (tanto o autor quanto o texto) nos números seguintes. No número dois, foi publicada uma prova de sociologia forjada pelo Julio e atribuída ao Macarrão, onde se liam pérolas como: P: Porque Marx afirma que a consciência não determina o ser social? R: Marx afirma que a consciência não determina o ser social porque ele acredita que a consciência não determina o ser social. Das colunas sociais, a melhor foi a que dava conta do casamento de dois colegas nossos, radicais militantes do Oito: o Tonho e a Lenaura. O jornal explicava: não eles não vão casar um com o outro, amados leitores. Nem eles mesmos agüentariam. O casamento seria realizado na igreja de São Judas Iscariotes, em Duque de Caxias:
Após a cerimônia, os dois casais oferecerão animada festa na redação do jornal “Hora do Povo”, com direito a coquetéis molotov e empadas de gasolina. Haverá também baile animado pela orquestra do maestro Luís Carlos e seus Cavaleiros da Esperança. Lembrete: os casamentos, em caso de revolução, serão adiados para depois da reconstrução nacional.
Uma das vítimas do humor patuísta foi o Aldemísio Cordeiro, o Aldo, um colega mais velho que vendia caramelos e apostava numa política avessa à agressividade do movimento estudantil mas que também nada tinha a ver com o humor cínico e corrosivo daquela turma. Pacifista, Aldemelo Caramísio (como o apelidou o pessoal do Patuá), resolveu lançar um jornal: O Espaço. Segundo os redatores do Patuá, o jornal deveria se chamar Espaço Sideral, “vista a tamanha façanha de materialização do nada”.
“Morte ao deficiente físico” seria o lema de nosso colega Antônio, “o popular Padeiro que, em sua transloucada batalha vencera o primeiro round dando uma rasteira na muleta” de um dos nossos professores. Noticiando o aniversário de Cléber, um dos colaboradores, o jornal dizia que naquela data ele completaria “mais um ano estéril e inútil em sua inútil e estéril vida”. Mas, de todas as maldades do Patuá nenhuma foi mais cruel do que a referência a um nosso colega da História que, no ano anterior surtara e vagava pelos corredores da escola completamente fora de si. A causa fora o concurso O esquerdinha do ano do qual fora vencedor e, quando soube da notícia, diz o Patuá: enlouqueceu de alegria. Aliás, o concurso O esquerdinha do ano, tinha como objetivo premiar o revolucionário mais revolucionário. O texto de apresentação dizia:
“O que mais caracteriza o ano de 1979 no Brasil não é o fato de ele não ser um ano bissexto, mas sim de ser o ano do despertar político da sociedade civil brasileira. (...) Fora do Brasil, o mundo via a liberdade brilhar em raios fúlgidos no horizonte. A Nicarágua conquistava sua liberdade, Reza-Pahlev era expulso do Irã, morria Talcott Parsons.”
Dentro desde clima é que tinha sido criado o concurso. No regulamento havia uma cláusula que dizia: “Proibida a participação de comunistas de mais de oitenta anos.” À qual se acrescentava um único parágrafo: Prestes a completar oitenta pode. Referência naturalmente ao velho Prestes que acabara de voltar do exílio e ia fazer 80 anos. Lembro bem de sua visita ao IFCS: moreno, sequinho, de pequena estatura, vestido com camisa azul clara e calça azul marinho de tecido barato (indústria soviética). Quando Juarez o viu, perguntou: “Aquele é o Prestes?” Pensei que fosse o motorneiro do bonde de Santa Tereza.
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