Tive uma vez um amigo importante que nunca se esquecia do dia do meu aniversário. Creio que foi, durante alguns anos, o primeiro telefonema que eu recebi nas manhãs do dia 23 de setembro, antes mesmo do de minha mãe. Chamava-se Plínio Doyle e hoje, passados quase onze anos de sua morte, quero relembrar sua figura simpática, inteligente e gentil.
Conheci Plínio Doyle na casa de Rui Barbosa por volta de 1985, quando eu ainda estava trabalhando em meu livro "Histórias de presidentes", que começara a escrever no Museu da República e terminaria na Casa. Plínio conhecia histórias e conhecia pessoas que tinham vivido as histórias. Ele também conhecia os livros onde eu poderia encontrar as coisas mais interessantes. Mas, eu não teria acesso a nada disto se o Plínio não fosse quem era: simples, acessível, bem humorado, sempre disposto a fazer novos amigos, independente da idade dos mesmos. Aos 79 anos, vítima de um AVC que o tinha deixado hemiplégico, ele estava todos os dias na casa Rui, no seu AMLB (Arquivo Museu de Literatura), que criara e ao qual dedicava boa parte do seu tempo. Logo eu era sua amiga e convidada para as reuniões do famoso Sabadoyle. O nome dessa reunião semanal, sempre aos sábados e na casa do Plínio fora inventado por um dos seus frequentadores: Raul Bopp. Nelas, se recuperava uma tradição antiga: a dos salões literários.
Advogado de grande prestígio no Rio, Plínio foi um obsessivo colecionador de livros e revistas raros. Sua coleção, hoje pertencente ao acervo da Casa de Rui Barbosa, cobre quase toda história literária do Brasil. Sempre ligado ao meio intelectual carioca, tendo sido colega na faculdade de Américo Jacobina Lacombe, Helio Viana, Octavio de Faria, Santiago Dantas, Antônio Galloti, Plínio aproximou-se de muitos outros escritores e poetas, depois de se tornar advogado do editor José Olympio. Assim, os encontros na livraria José Olympio, que ficava então no centro do Rio, passaram a ter um desdobramento nos finais de semana, em Ipanema, onde Plínio morava.
O Sabadoyle teve origem nas visitas que o poeta Carlos Drummond de Andrade fazia aos sábados a Plínio Doyle para consultar a vasta biblioteca do Plínio. Américo Jacobina Lacombe também aparecia por lá para rever o velho amigo e esses encontros, certamente muito agradáveis, foram se tornando um hábito. Aos poucos, agregaram-se outros amigos à sombra daquelas estantes acolhedoras: Raul Bopp, Pedro Nava, Joaquim Inojosa, Afonso Arinos, Alphonsus Guimaraens Filho, Prudente de Moraes Neto, Wilson Martins, Mario da Silva Brito, Silvio Meira, Ivan Bechara, Clara Ramos e muitos outros. As reuniões, propriamente, começaram em dezembro de 1964 na casa de Plínio, que ficava na rua Barão de Jaguaripe, número 62, em Ipanema. Depois ele adquiriu um apartamento no segundo andar do número 74, transferindo para lá a biblioteca de 20 mil volumes e as reuniões do Sabadoyle.
Como bem descreve outro frequentador, Homero Senna, ("Sabadoyle: historias de uma confraria literária", reeditado em 2000 pela Casa da Palavra), o grande charme daqueles encontros era o de ser um espaço da pura, simples, fantasista, descompromissada conversa. Para Wilson Martins, que sempre que vinha ao Rio batia ponto por lá, o encanto especial da reunião estava na absoluta espontaneidade e na ausência completa de pedantismo. Os que comparecem para brilhar mal podem esconder a decepção debaixo de um silêncio emburrado. De fato, o Sabadoyle não é um salão de preciosos pontificando sobre as próprias excelências; não é, tampouco, um viveiro de gênios autodesignados, repletos da própria suficiência.
As memórias dessa confraria literária puderam ser melhor recuperadas por Homero Senna graças à instituição do livro de atas. A primeira ata, feita em versos, foi do poeta Alphonsus de Guimaraes Filho e inaugurou o livro em onze de novembro de 1972. Logo instituiu-se a prática: depois do café com biscoitos, Plínio pedia silêncio e o autor previamente escolhido por ele fazia a leitura da ata. Eu creio que redigi umas duas ou três atas. A última delas em homenagem a Américo Jacobina Lacombe, que morreu em 1993 deixando tristes os amigos do Sabadoyle e os funcionários da Casa de Rui Barbosa, da qual era o presidente desde 1936.
Creio que, aos poucos, o desaparecimento de amigos queridos como Pedro Nava, Drummond e, finalmente, Lacombe, foram tirando o ânimo do Plínio para as reuniões. No entanto, quando morreu, em novembro de 2000, aos 96 anos, era perfeitamente lúcido e sua conversa continuava divertida e ilustrada. Visitei-o uma última vez naquele ano em sua casa e ele me contou histórias ótimas sobre Rosário Fusco que conhecera bem e sobre o qual eu não sabia nada. Por isso quando a gente perde um amigo assim, não perde só o amigo mas um verdadeiro tesouro de histórias e referências importantes acumulados e selecionadas pela sua privilegiada memória e pela aguda percepção que ele tinha do que foi interessante na vida que viveu, nas pessoas que conheceu e nos livros que leu.
Recorto do livro de Homero Senna, trechos de poema de Alphonsus de Guimaraens Filho, registrado em ata do dia 1º de outubro de 1975 por ocasião do aniversário do Plínio, para saudá-lo, hoje, onde quer que ele esteja (e espero que esteja junto com todos esses amigos acima citados) nas vésperas dos seus 105 anos de vida.
"Plínio, o Moço,
Plínio, o ameno,
Sorri com mansuetude contemplando
Livros que o contemplam.
(...)
De sua parte os livros lhe reservam
Sua ternura seca,
Sigilosa, mas plena de uma luz que alvoroça,
De um sossego tão bom de se viver.
(...)
Memórias diluídas
Como os dias que vão numa vertigem,
Cuidemos só de repetir a Plínio,
O Moço, Plínio, o Ameno,
Que, como os livros, todos
Lhe queremos um bem
Tão forte e vigoroso
Como - meu Deus, escapuliu-me!
Como a dose de anos que viveu".
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