Dê uma chance à Paz (5/6/10)

Uma das canções religiosas mais bonitas é a Oração de São Francisco de Assis. Toda ela é um apelo à paz e a conciliação. Entre outras formas de se fazer um instrumento da paz do Senhor, a Oração de São Francisco recomenda que: “onde houver ódio, que eu leve o amor; onde houver discórdia, que eu leve a união; onde houver ofensa, que eu leve o perdão”. É quase a mesma mensagem do budismo difundida por Mahatma Gandhi que pregava: violência gera a violência, o ódio gera o ódio, só o amor constrói para a eternidade.

É uma mensagem simples que se baseia na fé em uma humanidade em que todos seriam irmãos. Uma mensagem em que a paz se constrói a partir dos sentidos de solidariedade, piedade e perdão que devem orientar a ação dos homens no mundo. Naturalmente que mesmo a Igreja Católica, ao longo de sua história milenar, foi se afastando dessa mensagem simples e se tornando cada vez mais uma entidade política, em um mundo em que a política é tudo menos solidariedade, piedade e perdão.

Mas a mensagem persiste fora da religião nas práticas de um humanismo que continua a apostar nas melhores qualidades do ser humano e a trabalhar para que elas prevaleçam. Mensagem que, em alguns momentos da história da humanidade é superada por um individualismo (de pessoas ou nações) que, associado a uma competitividade ambos selvagens não conhecem limites para a conquista de seus objetivos. Todas as vezes em que essa versão do homem lobo do homem prevaleceu o mundo conheceu guerra, miséria e sofrimento.

Foi a isto que assistimos nas duas últimas décadas do século XX com o predomínio das idéias neoliberais, onde o mercado e competição deram o tom para todas as ações políticas no mundo. Com isto, os ricos abandonaram os pobres e os não competitivos à própria sorte. Foi assim que vimos a África, tão espoliada durante o período colonial por essas mesmas nações ricas, mergulhar em um ciclo de guerra, fome e doença diante do olhar indiferente dos demais povos. Foi assim que, no Oriente Médio, vimos a Palestina e os palestinos se tornarem um povo sem direitos, oprimido por outro povo, em defesa do qual não se ouviram mais vozes do lado do cá.

Tal abandono estimulou a emergência do fundamentalismo islâmico e seu predomínio sobre as formas mais amenas de religiosidade. Afinal as teses neoliberais tinham declarado a ineficácia dos valores do humanismo. Daqueles valores que tinham difundido pelo mundo o ideal de uma única humanidade, em que a imensa diversidade cultural não se contrapunha ao caráter essencial da natureza humana.

Enquanto o Ocidente mergulhava na frenética cultura do individualismo, da valorização do mais esperto, no desconhecimento da ética e da moral em favor do sucesso a qualquer preço, aqueles que não compartilharam essa viagem foram buscar em suas próprias tradições maneiras de entender o novo sistema. A hostilidade contra um Ocidente que não hesitava em usar seu imenso poderio para conquistar o petróleo do Oriente, acabaram dando margem ao ressurgimento do terrorismo em sua forma mais cruel: os atentados suicidas.

A invasão do Iraque pelos EUA foi um crime contra a humanidade que merece sempre ser condenado. Os milhares de mortos e mutilados daquela guerra inútil, motivada apenas pela cupidez das companhias de petróleo, associadas à indústria armamentista - sempre em busca de um conflito para colocar suas mercadorias - não podem ser esquecidos. A mesma coisa se pode dizer dos palestinos confinados em Gaza ou os que vêem a Cisjordânia ser gradativamente ocupada por assentamentos judeus.

O ataque de Israel contra uma frota de ajuda humanitária não foi só um ataque contra a paz. Foi um ataque contra seu próprio povo, contra aqueles que, em Israel buscam a paz, uma vida tranquila para si e seus filhos e sabem que estas só serão possíveis quando os palestinos também tiverem paz e uma vida tranquila para os seus filhos.

Aqueles que lutam pela paz não vão pegar em armas porque sabem que violência gera violência mas sabem que precisam continuar lutando. Sabem que devem continuar opondo uma resistência desarmada mas persistente. Só assim combaterão aquela indiferença que foi fatal nos anos em que o discurso do vale-tudo fez com que os que continuam a acreditar nos valores de humanidade se calassem. Cabe aos homens de boa vontade dar uma chance à Paz, continuando na luta em defesa dos pobres, dos fracos e dos oprimidos como ensinam os princípios de todas as religiões.

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