Durante a Ditadura Militar o sonho de liberdade foi alimentado por muitas correntes de pensamento e de desejo. De um lado, a repressão do regime contra as liberdades políticas e individuais revoltava e estimulava a vontade de se lutar contra ela, de outro lado, a própria transformação que o mundo vivia impulsionado e impulsionando os momentos feministas, gay e negro, tornava o desejo de liberdade um ideal bem mais abrangente e inclusivo.
Esses movimentos mundiais foram tão importantes para mudar o Brasil quanto o foi o fim da ditadura. A revolução nos costumes que marcou esse tempo teve início ainda nos anos sessenta, a partir de atitudes de ousadia aparentemente fúteis mas que tinham grande significado simbólico como o escândalo causado pela mini-saia de Mary Quant; ou pela magreza andrógina da modelo Twigg ou ainda pelos sussurros eróticos de Jane Birkin na gravação de “Je t´aime”. A filosofia “paz e amor” dos hippies mesclava elementos de religiões orientais com uma negação dos valores da sociedade de consumo. Com ela recuperou-se o culto de uma vida simples e comunitário. Foram coisas importantes para a mudança de atitude de homens e mulheres com relação ao próprio corpo e à própria sexualidade como os movimento feminista e gay e o advento da pílula anticoncepcional.
Quem foi jovem entre os anos 1950 e 1970 sabe a distância que aqueles comportamentos tinham da educação moral e cristã que quase todos recebíamos em casa. A pesada tradição católica da família brasileira foi duramente atingida por essas mudanças. A disputa nos lares entre pais e filhos foi dura e penosa e implicou em muito sofrimento de parte a parte. Pois nossos pais, como na canção de Belchior, vinham de uma época em que filho e filha tinham uma educação bem diferente. Eles ainda achavam que o destino da mulher era o casamento e que seu trabalho, quando lhe era permitido trabalhar, era trabalho complementar ao do marido. Eles vinham de um época em que a virgindade era um valor essencial e definidor da validade de uma matrimonio. Eles vinham de uma época em que não se falava absolutamente em sexo e em que homossexualismo era uma doença ou uma aberração.
Quem foi jovem naquele tempo teve que brigar muito para fazer valer o direito de decidir sobre o próprio destino e sobre a forma como queria viver. Quem foi jovem naquele tempo teve que romper com os pais e sair de casa para realizar seu direito o seu desejo de liberdade. Foi uma luta sofrida e, passados tantos anos, já maduros, com a vida feita, saradas as feridas, constatamos nós e nossos velhos pais que relações construídas a partir do respeito à liberdade de escolha, do diálogo e da amizade são relações muito mais verdadeiras e felizes. O saldo positivo dessas conquistas foi que hoje as relações entre pais e filhos são mais francas e implicam em menos sofrimento e menos culpa de parte a parte.
A grande mudança em termos de comportamento sexual foi provocada pela AIDS. A doença fatal que começou a se disseminar no Brasil nos anos 1980 interrompeu esse ciclo de liberdade e trouxe com ela a volta do preconceito contra os homossexuais e a redução da própria possibilidade da liberdade sexual tal como foi praticada nas duas décadas anteriores. Mesmo tendo arrefecido com os tratamentos que a tornaram uma doença controlada, a devastação causada pela AIDS nos anos 1980 e 1990 deixou um saldo negativo: o forte estímulo para o fundamentalismo religioso voltasse com força total tanto entre católicos quanto entre evangélicos.
O amor livre foi substituído pelo culto à virgindade antes do casamento tal como antes dos anos 1960. O preconceito contra os homossexuais que nunca se reduziu realmente no seio das famílias, ganhou força. Nesse contexto de retrocesso a luta pelo direito ao aborto, reivindicação dos movimentos feministas de todos os tempos, passou a sofrer pesada campanha dos setores mais conservadores da sociedade. Os que foram jovens nos anos 1970, têm hoje a idade que seus pais tinham naquele tempo em que uma pessoa entre os 40 e 50 anos era velha. Alguns desses até esqueceram tudo que viveram e sonharam em outros tempos para se transformarem em velhos conservadores.
Mas, para os que ainda continuam a crer nos valores de sua juventude, vale à pena, em nome de um tempo mais feliz por nossos filhos e netos, trazer sempre à lembrança aquela sensação angustiante em que vivíamos entre o medo que tínhamos de sermos punidos pelos nossos pais e a culpa cristã que nos assolava por termos pecado. Lutemos sempre para que aqueles tempos sombrios não voltem a predominar matando a alegria e a espontaneidade da juventude.
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