Morte ao vivo (19/6/10)

Quem frequenta sites de relacionamento como o facebook e o orkut já deve ter vivido essa situação: a morte de uma pessoa com a qual costumava falar frequentemente. Essa morte, no entanto, dada a enorme facilidade de comunicação que existe hoje em dia, pode, muitas vezes, ser acompanhada passo a passo.

No ano passado, através do orkut, um amigo de meu filho deixou registrada a sua angústia, sua revolta, seu desencanto do mundo. Postou mesmo fotos que indicavam a sua intenção de dar cabo da própria vida. Era uma morte anunciada mas, talvez, por ser tão evidente parecia não ser para valer. A noite passada com sua turma em que ruminava a revolta contra tudo e todos, não o dissuadiu. Todos que com ele conversaram, com aquele otimismo da juventude, acreditavam que longas conversas e um ombro amigo o demoveriam daquela malfadada intenção. Não foi assim. Ele voltou para casa, declarou no seu perfil que não queria palavras de luto e pulou pela janela.

Não conhecia aquele rapaz mas aquela morte mexeu comigo de uma forma absurda. Tanto pelo que representou na vida de meu filho quanto porque quem tem filho dessa idade pode imaginar o imenso e irreparável sofrimento dos pais. Diante de um caso como este, ninguém deixa de pensar: e se fosse comigo? Esta semana uma amiga no facebook chorava a morte de um amigo de juventude com o qual se comunicava através daquela rede de relacionamento. Lendo sobre o personagem naturalmente fui atrás do seu perfil. Em seu mural estavam registradas as últimas conversas que teve. Por acaso, ele tinha a minha idade e era alguém com um perfil bem parecido com o de tanta gente que conheci ao longo da vida, com o de tantos amigos que tive. Gente que viveu a loucura dos anos 1970 e que mergulhou na bebida e nas drogas sem encontrar o caminho de volta. Lendo suas conversas com os amigos, vi que eram na verdade, desabafos, por vezes amargurados, por vezes divertidos, de um dependente químico em tratamento.

Toda a sua mágoa se voltava contra a mulher que amava. Amava com intensidade, de forma obsessiva e isto era evidente pela quantidade de vezes que o nome dela aparecia. Ora recebendo declarações de amor, ora sendo ofendida ou tendo sua intimidade devassada pelo amante.Somando os seus desabafos, as fotos que postou, o que lhe disseram os amigos e os necrológios pode-se construir um retrato por inteiro do personagem em sua complexidade. Ao que parece, inteligente, charmoso, apaixonante e, ao mesmo tempo: difícil, problemático e auto-destrutivo.

Através do facebook se pode constatar que sua última postagem foi feita na noite de sexta. Na tarde de sábado ele foi encontrado morto em seu apartamento. Pelo que postou antes parecia overdose. Pelo que disseram os amigos foi um enfarte. De qualquer maneira, esta também era um morte que se anunciava. Uma morte que vinha em um crescendo, que se percebia nas declarações. Porque, no entanto, não pode ser evitada? Creio que é porque, como indaga em seu poema Cecília Meireles: quando a desgraça é profunda que amigo se compadece? E, de fato, a intensidade de alguns sentimentos escapa mesmo para quem está muito perto.

A dinâmica que faz com que o sofrimento humano, filtrado pela web saia da alma, passe pela ponta dos dedos de quem tecla e chegue aos olhos e corações de quem lê do outro lado da tela é ainda um mistério. Uma situação em que o seu interlocutor pode estar na mesma sala que você ou do outro lado do planeta. Não sei se isto tudo é muito diferente do que já vivemos em outras fases de nossas vidas. Mas, o que mais me impressiona em situações assim é a visibilidade. É a possibilidade de saber tudo, em poucos instantes, exatamente como se passou, quase como se você lá estivesse. Para que serve isto? Eu não sei. Só sei que, para mim, esse tipo de acontecimento tem despertado uma curiosidade mórbida mas que, também torna aqueles mortos, que me eram desconhecidos até a data de seu desaparecimento, pessoas muito próximas. Esse conhecimento virtual depois da morte lhes deu existência e significado na minha mente. Minha vontade de compreender e a frustração por não ter podido minorar seu sofrimento talvez equivalham a uma oração.

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