Não tenho preconceito contra o Natal. Não acho uma festa chata. Ao contrário. Lá em casa o bom é o Natal, pois o Ano Novo, depois que todo o mundo casou, ficou tristíssimo.
No entanto, na minha infância a festa de ano-novo era a mais bonita. Talvez apenas porque tinha o ritual do brinde da meia-noite. Quando o relógio marcava meia-noite todo o mundo se abraçava e brindava com champanhe. Devia ser um Perterlongo ou até mesmo um Chuva de prata mas, naquele tempo, quem se importava? Era a única ocasião em que aquelas taças rasas que se usam para beber champanhe saíam do armário. Não sei quando meus pais começaram a adotar esse brinde da meia-noite como coisa obrigatória, mas ele continua a ser feito todos os anos. Até hoje, mesmo com toda a desanimação que têm marcado os últimos reveillons da família. Creio que foi em ocasião assim, em sua ótima casa lá na serra da Guaramiranga, que dei o último abraço em meu cunhado, compadre e amigo, Francisco Edmilson Brito.
O Natal continua sendo, depois do aniversário de d. Dolores – que em 2011 completa 97, se Deus quiser – a grande festa da família. É aí que, seja como for, todo o mundo aparece para receber o presente das mãos da mamãe. Como a família é hoje uma comunidade de bem mais de cem almas, houve uma terceirização do processo de compra dos presentes. Antigamente era a Clélia, que sempre foi a organizadora de tudo isto, quem ia pessoalmente comprar cada presente analisando a personalidade do presenteado para não desgostar ninguém. Com o crescimento exponencial da família, Super-Clélia, como a chama o Mario Bag, organizou um esquema de passar às filhas, noras e netas adultas o valor do presente que Mamãe entregará em mão na noite do dia 24 a todos os familiares. Presentes que devem ser comprados e religiosamente depositados debaixo da árvore de Natal para que D. Dolores o entregue pessoalmente ao felizardo.
Claro que esse sofisticado esquema implica que nem d. Dolores sabe qual é o presente que está dando, nem o presenteado, percebendo a situação, se sente tão presenteado. (Mesmo assim, deve-se dizer em seu louvor, que mamãe encena tudo muito bem) Mas o que fazer quando a família se transforma em uma enorme comunidade? Só um gênio da administração como Clélia para dar conta de tudo. Dar conta de erguer no mesmo lugar da sala, a mesma velha árvore de Natal com os mesmos enfeites do ano anterior; de montar a lapinha da nossa infância misturando elementos de tantas lapinhas que de mais de meio século foram se juntando ou tendo substituídas as peças quebradas por outras de tamanho diferente.
Só mesmo a Clélia para ir comprar uma centena de camisetas de boa malha de algodão nas lojas Girão, as mesmas que nos atendiam na Visconde do Rio Branco e hoje estão lá pelo centro no entorno da Praça José de Alencar. As famosas “malhas Clélia”, como as chama Mario Bag que todo o ano recebe uma. Compradas para a eventualidade de aparecer alguém que não foi lembrado ou que nunca aparece e naquele ano resolveu aparecer. Assim também ficam em seus armários alguns tantos presentes de criança para o mesmo tipo de situação.
Daí que neste Natal e nos próximos e em todos os seguintes o que eu desejo de presente e que desejo de presente a todas as pessoas que eu quero bem é que tenham alguém como Clélia em suas vidas se chegarem aos 80 ou aos 90 como minha mãe, ou mesmo aos 100 como ela promete chegar.
Alguém que faça da sua casa um ambiente cálido e cheio de vida, onde todos os domingos um bando de gente alegre, animada, falando alto se encontre em volta de você. Mesmo que você não escute muito bem e se sinta um pouco confusa com toda aquele barulho.
Eu desejo que você tenha aos 90 anos em sua vida, alguém que te obrigue a sair de casa como Clélia obriga a mamãe a sair. Alguém que insista, escolha sua roupa, penteie seu cabelo, passe na hora para lhe buscar, ajude você a sentar no carro, estacione pertinho para você descer, não escute suas reclamações pedindo para ir embora logo no começo da festa e tenha depois o prazer de ouvir você reconhecer o quanto foi bom ter ido.
Alguém que se ocupe tanto com você que ainda tenha a delicadeza de deixar você pensar que é você quem manda, que é você quem decide.
Então meus amigos, o que desejo a vocês, nos próximos natais que virão e nos tantos anos novos que vocês, se Deus quiserem verão, é que tenham a seu lado uma Clélia como minha mãe tem.
É o que eu desejo ardorosamente para mim também mas infelizmente, apesar das aparências em contrário, nasci dois anos depois e periga ela viver menos do que eu.
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