A questão dos escolhidos para competir para a vaga de vice presidente nas próximas eleições tem ocupado os jornais. O assunto é interessante porque se costuma imaginar que cargo de vice-presidente cabe bem naquela máxima atribuída a Millor Fernandes que diz: “o ócio é o pai de todos os vices”. Na verdade, às vezes o vice, aparentemente ocioso, trabalha, na verdade, em silêncio, de olho na cadeira do homem. Ou, às vezes, o próprio titular se mete em tais embrulhadas que o vice só precisa esperar que ele caia de maduro.
O primeiro vice que se deu bem na estratégia do “faz que não quer querendo” foi Floriano Peixoto. Floriano se manteve à margem das maquinações políticas que acabaram por minar o inábil governante que se revelou Deodoro. Sonso, às vésperas da queda de Deodoro, quando este manda um emissário para pedir-lhe o apoio responde: “Claro. Eu sou carneiro de batalhão. Aonde o batalhão vai, o carneiro vai atrás”. Parece que era mesmo era lobo em pele de carneiro pois, assim que Deodoro renunciou, Floriano empolgou o poder de tal modo e exerceu-o com tamanha força que garantiu para si, pelo resto da história, o epíteto de Marechal de Ferro. Uma curiosidade: apesar do caráter ditatorial que deu a seu governo, Floriano assinou até o fim do mandato, como vice-Presidente da República.
Prudente de Moraes que o sucedeu, era um homem retraído, sempre atormentado pela doença dos rins que trouxe, agarrado aos calcanhares, um vice muito mais brilhante e impetuoso que ele: o baiano Manuel Vitorino. Para agravar-lhe os tormentos, os cálculos nos rins obrigaram-no, seguidas vezes, a deixar o cargo nas mãos do fulgurante e incômodo substituto. Vitorino teve até o gostinho de comandar, em fevereiro de 1897, a tremenda boca livre que foi a inauguração do Palácio do Catete como sede da Presidência da República.
Alguns vices alcançaram o estrelato por conta da morte do titular da cadeira. O primeiro foi o campista Nilo Peçanha, vice do mineiro Afonso Pena, que morreu em 1909, a um ano do final do mandato. Houve o caso de Delfim Moreira, alçado ao trono, em 1919, por morte do presidente eleito Rodrigues Alves. Uma imprudência a indicação de Delfim para vice. Antes mesmo da eleição ele já dava mostras de que não ia lá muito bem das idéias. Muitas das suas excentricidades causaram constrangimento e, na verdade, nos seis meses em que esteve na Presidência quem governou de fato foi o Ministro da Viação e Obras Públicas, Afrânio de Mello Franco o que fez a imprensa chamar aquele período de: Regência Republicana.
O terceiro caso foi o clássico Getúlio × Café. Adversários em vida, cada um para seu lado durante o mandato – período em que, diga-se a bem da verdade, Café Filho revelou-se um vice dos mais laboriosos – continuaram a sê-lo depois da morte trágica de Getúlio. Café Filho, na Presidência, fez de tudo para derrotar a dobradinha Juscelino/Jango nas eleições de 1955. Quando, finalmente, JK e Jango venceram, Café Filho – que estava afastado da Presidência por questões de saúde – envolveu-se em conspiração militar para impedir a posse dos eleitos. Esta foi garantida pelo contragolpe capitaneado pelo marechal Lott.
De qualquer maneira, o golpe que não aconteceu em 1955 ficou na geladeira esperando 1964 e tudo por conta da posse de outro vice polêmico, João Goulart. Tão difícil de engolir que inventaram um parlamentarismo made às pressas para que ele pudesse assumir. Já em pleno período das trevas, nem se cogitou de dar posse a Pedro Aleixo, o vice civil do general Costa e Silva.
Mas vice de sorte mesmo foi José Sarney. Teve o mandato todinho só para si que assumiu, pois Tancredo Neves morreu antes da posse e ainda levou mais um ano de lambuja, com a ampliação do mandato presidencial para cinco anos. Itamar Franco que sucedeu ao impedido Fernando Collor, representou uma trégua no processo intensivo de desmonte do Estado que iniciado ali e continuado nos dois mandatos de Fernando Henrique.
De forma que, o Vice tem mais importância que normalmente a gente imagina pois risco há de eleger fulano a quem tanto se admira e ver, por alguma fatalidade sentar no trono beltrano, tão diferente do candidato em que se votou.
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