O projeto de lei encaminhado ao Congresso pelo Presidente da República proibe que os pais apliquem castigos físicos nos filhos. A medida é inspirada nos relatos de violência doméstica, espacamentos, castigos cruéis e humilhantes, verdadeiras torturas a que alguns pais com vocação para guarda de campo de concentração adotavam como forma de punir os filhos.
No entanto, quem já viu no ônibus ou em qualquer situação pública aquela criança mimada e insuportável tiranizando o pai ou a mãe com seus gritos e tirando a paz de quem está perto e não pensou: merecia umas boas palmadas? Aliás, pais de filhos assim costumam ser hostilizados pelos circunstantes por não terem sabido educar os pimpolhos. O fato é que os principais prejudicados por uma educação que não impõe limites são as próprios filhos.
Se as crianças, vítimas da violência doméstica, podem guardar sequelas do que pasaram para o resto da vida, as outras, as vítimas da leniência paterna, podem ter seu futuro inviabilizado. Quem já dobrou a esquina do meio século é capaz de encontrar entre os filhos dos parentes, amigos e conhecidos um número razoável de casos assim. Aquela criança linda, inteligente e engraçada, criada pela mãe ou pela avó que se torna um adolescente cheio de direitos e vontades e evolui para se tornar um adulto sem possibilidade de inserção no mundo do trabalho ou, em casos mais extremos, na própria vida social.
O problema consiste na criação e nas expectativas que os pais jogam na criança. Em muitos casos é a mãe de filho único, solteira, viúva ou casada com marido pouco presente, a principal responsável pela criação desses projetos de fracasso. Elas tendem a ver o filho ou filha como aquele que vai realizar tudo que ela não realizou ou receber tudo aquilo que ela não teve, ou acha que não teve, em sua vida. Daí toca a presentear, paparicar, a relevar as pequenas mal criações, a investir furiosamente contra qualquer crítica dos professores ou contra qualquer amiguinho que revidar algum ataque do herdeiro. Se a filha é bonita, a mãe já a imagina misse, modelo ou atriz e estimula toda a futilidade que crê associada a esse futuro. Se o filho ou filha é inteligente, se converte em uma espécie de pequeno Buda, de oráculo, ao qual todos devem se curvar.
No estreito circuito da família, a tolerância dos de dentro de casa e dos parentes próximos atrasa o contato dessas criaturinhas com o mundo real. Criadas com hábitos caros, desproporcionais, com direitos exagerados e que não correspondem ao que o resto do mundo irá lhes reconhecer, serão fatalmente infelizes. A tendência é que atrasem ao máximo a saída de casa ou que se conservem para sempre no ambiente protegido em que estão acostumadas a viver. Daí aqueles pares tão comuns em festas familiares da mãe, sempre acompanhada da filha criança, depois adolescente, depois adulta e finalmente velha. Nunca se separam pois não conseguiriam viver uma sem a outra.
Todos os pais querem o melhor para os filhos e projetam-lhes um futuro em que os vêem bem sucedidos, ricos e felizes. A receita que escolhem, no entanto, baseada em um sentimento natural de querer agradar a quem tanto se quer bem é que é a causa do insucesso. É difícil dizer não àquela criança tão amada. É duro se opor realmente ao desejo dela de ver televisão até tarde e de dormir até mais tarde no dia seguinte. É penoso fazer com que coma verdura, legumes e frutas em vez da fast-food que a deixa tão feliz. É sofrido recursar qualquer outra coisa que ela nos peça.
No entanto, a experiência comprova que para formar filhos que serão pessoas realizadas e felizes é preciso educá-los para viver no mundo real. Não maltratando-os como infelizmente um dia colegas, chefes e namorados maltrarão, mas preparando-os para viver dentro das regras que regem o mundo em que todos são iguais e precisam saber quais são seus direitos e seus deveres. Um mundo que, ao contrário de mamãe e vovó que te amam do jeito que você é e apesar de tudo que você faça, precisa de grande esforço para ser conquistado.
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