Elogio do trabalho (1/5/10)

Muito mal impressionado ficou o inglês John Luccock, que aqui esteve durante o reinado do D. João VI, com a forma como os brasileiros desprezavam o trabalho. Trabalho era coisa de escravo e os homens livres que tinham alguma ocupação manual evitavam trabalhar em público e não queriam ser vistos carregando suas ferramentas pelas ruas. Conta Luccock que, certa ocasião precisou que lhe abrissem uma fechadura pois perdera a chave. Na oficina a que se dirigiu indicaram-lhe um serralheiro. Depois de longo tempo, este lhe apareceu “vestido de grande gala” e ficou à porta esperando que aparecesse um negro de aluguel para que lhe carregasse o martelo e a talhadeira. Luccock propôs-se a levar ele mesmo as ferramentas, o que foi recusado pois seria ainda mais absurdo do ponto de vista da cultura do tempo.

Essa aversão ao trabalho manual seria também criticada pelo padre Lopes Gama que, durante a Regência publicou em Pernambuco, um jornal humorístico: O Carapuceiro. Qualquer indivíduo, dizia ele, por mais pobre que seja, tendo três ou quatro filhos, não quer que nenhum se destine a algum ofício manual: “Ah! quantos, por aí, condecorados com pergaminho acadêmico, quantos exercendo o ministério sacerdotal, que sendo doutores palhaços e ridículos padrecas, seriam porventura, mui bons ourives, pedreiros, sapateiros, carpinas, etc.?”

Uma das razões do sentimento anti-lusitano que marcou o reinado de d. Pedro II e chegou às primeiras décadas da República foi justamente o progresso rápido que fazia o português que chegava aqui pobre. Enquanto, o brasileiro via os trabalhos mais simples como humilhantes, o português que viera fazer a América encarava com determinação os serviços mais duros. A predominância do português no pequeno comércio – vendas, padarias e leiterias – e no aluguel de casas de cômodos esteve na origem das manifestações jacobinas que agitaram o governo de Floriano Peixoto.

À imagem do português burro mas trabalhador se contrapunha à do brasileiro malandro, esperto e bom de lábia. Desde o Leonardo de “Memórias de um sargento de Milícias”, passando pelo “Macunaíma” de Mario de Andrade, até a “Ópera do Malandro” de Chico Buarque, a cultura brasileira alimentou o mito da malandragem como marca de brasilidade. Era a malandragem que dava o tom do repertório da MPB até o governo Vargas. Com o Estado Novo e a força da Rádio Nacional controlada pelo governo onde se mantinha o maior “cast” de artistas brasileiros, houve pressão no sentido de trocar o sinal. Foi aí que se lançou um samba que dizia: “Quem trabalha é quem tem razão...” e concluía “O bonde de São Januário leva mais um operário sou eu quem vou trabalhar”.

Não teve muito sucesso e o preconceito contra o trabalho se manteve inalterado até quase os nossos dias. Todo o mundo continua a preferir ser doutor, mesmo quando não vocacionado. Alguma mudança se pode sentir nos últimos anos quando os bares e lojas do Rio de Janeiro passaram a ser atendidos por meninos e meninas de classe média da zona Sul. Quando ficou chique, finalmente, ser cozinheiro, marceneiro e modista. O interessante é que tenha demorado tanto já que os programas de TV que dominavam as sessões da tarde da minha infância mostravam os adolescentes de classe média entregando jornais, limpando a neve das calçadas, aparando a grama, vendendo cascos de garrafa, enfim, trabalhando. Se tanta coisa menos nobre foi imitada dos costumes dos norte-americanos, esta, infelizmente, não o foi.

O trabalho pode ser uma forma de opressão e exploração. Ele pode ser destruidor assim como o foi durante a Revolução Industrial inglesa em que o trabalho infantil, as jornadas absurdas e os salários ínfimos massacravam a classe operária. Pode ser usado como uma forma de tortura, como na Alemanha Nazista, em que os campos de concentração eram chamados campos de trabalho. No entanto, qualquer trabalho realizado em condições em que sejam respeitados os direitos do trabalhador e de acordo com as possibilidades e os talentos de cada um, educa e dignifica.

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