Lima Barreto: a vida como um ato de protesto (3/7/10)

Só agora li por inteiro a biografia de Lima Barreto que me ofereceu o autor, Francisco de Assis Barbosa, em 1985. Na dedicatória simpática do meu antigo chefe na Casa de Rui Barbosa, ele se diz meu fã. Generosidade que só os grandes costumam ter para com os iniciantes.

Lamento não ter lido o livro e conversado sobre ele com Chico Barbosa que morreu poucos anos depois. Trata-se de uma obra de grande valor intelectual e literário em que o relato da vida do escritor é pontuado pela análise de suas obras. O formato não é necessariamente adequado para biografias de escritores mas, é totalmente adequado para o caso de Lima Barreto, em que, de fato, vida e obra se confundem.

A história de Lima Barreto é a história de um mulato brasileiro na transição entre dois mundos, entre dois sistemas. Ela fornece elementos para refletir sobre a situação dos negros brasileiros livres no final da Monarquia e sua crescente exclusão social ao longo da história republicana. Parece contraditório que, durante a Monarquia, na qual vigorou até a véspera do fim, o regime escravocrata, tenha havido espaço para a emergência de intelectuais negros. Enquanto que, depois da República, os negros passaram a só se distinguirem em atividades relacionadas com a cultura popular e com o folclore.

Estudos de duas grandes especialistas, Hebe Matos e Keila Kringerb, têm se debruçado sobre o papel de intelectuais negros no contexto da escravidão. Especial relevância merece Antônio Pereira Rebouças, tema de livro revelador de Keila Krinberg. Nascido na Bahia, em 1798, filho de mãe negra e pai português, Antonio Rebouças distinguiu-se como intelectual e advogado sendo eleito várias vezes deputado, entre as décadas de 1830 e 1840.

A carreira de Antônio Rebouças e também a de seu filho, o engenheiro André Rebouças, são exemplares das possibilidades de inserção e acessão do negro no Segundo Reinado. Nessa galeria em que a cor e a origem não foram impedimento para uma carreira de sucesso podem-se adicionar outros personagens ilustres: Luis Gama, José do Patrocínio e Machado de Assis. Nela também podia ser incluído, João Henriques, o pai de Lima Barreto. Ele também era um negro inteligente, agregado a uma família da nobreza que lhe proporcionara uma boa educação, que tornara-se um gráfico tão especializado a ponto de redigir manual que era referência sobre o ofício. Casado com uma jovem mulata de história familiar semelhante à sua, João Henriques teria conseguido, se tivesse perdurado a Monarquia, realizar o sonho de ver formados os filhos, especialmente o mais velho, Afonso Henriques que, desde a infância revelara notável inteligência. Uma sucessão de acasos, no entanto, tiraram Lima Barreto do roteiro que tinha sido seguido pela família Rebouças. O primeiro deles se relaciona com as mudanças políticas das últimas décadas do século XIX. Se a Abolição tinha despertado o entusiasmo de homens como José do Patrocínio pela Monarquia, a Proclamação da República, no ano seguinte, desarrumaria o arranjo social que até então possibilitava o acesso dos negros a posições sociais mais elevadas.

João Henriques, monarquista, perdeu o emprego público. Sua esposa morreu cedo, deixando-lhe quatro filhos para criar sozinho. O emprego como administrador de um hospital lhe deu a possibilidade de investir nos estudos do filho mais velho que conseguira ingressar no curso de Engenharia. No entanto, Lima Barreto não se formou. O sentimento de inferioridade que experimentaria no convívio com os colegas, a descriminação que sofria por parte dos professores e a obrigação de sustentar o pai doente e os irmãos mais novos acabaram por desanimá-lo. Ao mesmo tempo, as atividades na imprensa, nas rodas intelectuais e ao lado dos Anarquistas, o impulsionavam em outra direção. Na obra de Lima Barreto revela-se a consciência que tinha de que sua cor foi o fator determinante para o não reconhecimento de seu real valor literário ainda em vida. Sua trágica biografia marcada pelo alcoolismo e pela exposição pública de sua miséria se constrói como um protesto contra a hipocrisia da sociedade brasileira de seu tempo.

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