Amigos de amigos em um tempo virtual (29/1/11)

Antes de viajar, alguns amigos me recomendaram seus amigos.

Gente com a qual eu certamente me daria muito bem.

Com uma só exceção e assim mesmo porque houve um contato antes via Facebook, encontrei um desses amigos recomendados. Felizmente foi ótimo.

Figura agradável, conversa boa e inteligente.

Não duvido que o mesmo pudesse acontecer às tantas pessoas bacanas que me recomendaram encontrar.

Mas tenho para mim que amizade é algo meio difícil de transferir.

Empatia, familiaridade, identidade cultural, histórias comuns, muitas coisas fazem nascer e se perpetuar a amizade.

Sim, porque há também um fenômeno curioso que é o reencontro de um velho amigo. Coisa que pode ou não ser bem sucedida. Às vezes, o amigo virou alguém que não tem mais nada a ver com você e esse encontro é um desastre.

Li uma vez um conto do Guy de Maupassant sobre um reencontro assim em que o protagonista atende ao convite de um velho amigo do tempo de escola para visitá-lo no interior. Além do aspecto físico do amigo reencontrado, que se tornara imensamente gordo, o que já o fazia outra pessoa, o medíocre ambiente familiar, típico de uma pequena burguesia interiorana que o cercava causou verdadeiro pavor ao herói da aventura.

Outro exemplo que gosto tem a ver com o meu aprendizado do Francês. Uma das coisas que fiz durante o tempo em que me preparava para vir foi gravar algumas coisas para ouvir durante as caminhas na Lagoa. A gravação preferida eram algumas histórias do Petit Nicolas. Este mesmo que tem feito sucesso no cinema. Criação do genial Goscinny, o mesmo criador de Asterix e de Lucky Luke.

Goscinny: este era mesmo "o cara".

Com todo o respeito pelo Urdezo, mas Asterix sem o roteiro do Goscinny ficou francamente banal. E a gente sente quando outra mão menos leve se mete na obra do artista também nos filmes. Inclusive neste do pequeno Nicolas. Ele vive ali algumas aventuras que nada tem a ver com as singelas e bem humoradas que estão nos muitos livros que Goscinny publicou junto com as ilustrações do Sempé.

Duas cenas do filme jamais seriam escritas pelo Goscinny. Aquela do bandido que os meninos decidem contratar (o mundo marginal não cabe na vidinha de classe média de Nicolas e seus pais) e o jantar em que a mãe de Nicolas bebe demais e dá vexame. Tem ainda a cena da poção mágica (referencia ao Asterix) e o comentário final do garoto quando lhe nasce uma irmãzinha em vez de um irmão. Nada a ver com Goscinny.

A história que puxou o Goscinny para dentre dessa crônica é uma em que o pai de Nicolas convida um amigo de infância para jantar com a família imaginando quantas lembranças felizes os dois não teriam do tempo de escola.

O amigo é um desastrado falastrão e que, ao longo da pequena narrativa, comete várias indiscrições sobre o mau aluno que fora o pai do Petit Nicolas. A história é banal mas é bem engendrada e cheia de delicadas sutilezas como são todas dessa série de livros infantis, antiga aqui na França e que só agora vim a conhecer.

Felizmente os amigos que tenho reencontrado via facebook só têm me dado alegrias. E também os novos que tenho feito pelo mesmo sistema. Uso a rede para fazer um social, digamos assim. Encontrar pessoas do tempo do colégio, da faculdade, ou de outros momentos da vida, fazer um comentário qualquer sobre a vida, reproduzir meus artigos, as fotos que fiz nas viagens e me distrair um pouco entre um trabalho e outro diante do computador.

Não quero ter um milhão de amigos como o Rei, porque sei que a gente não dá conta. Em geral, quando pedem minha amizade no facebook eu não recuso. Aceito, dou uma primeira olhada no mural da pessoa, vejo que amigos temos em comum e aguardo uns dias para ver como a coisa se desenvolve.

Se o que aquela pessoa posta nada tem a ver comigo, ou pouco tem a ver, se ela usa o facebook apenas para divulgar seu trabalho, ou se a gente não estabelece nenhuma conexão além do fato de estar na lista uma da outra, depois de um tempo, em corto. Espero que isto não cause tristeza aos cortados. Espero também que façam o mesmo comigo. Assim a coisa fica mais econômica.

Agora, tem gente nova que posta coisas tão interessantes, que é um verdadeiro prazer ver o que aquela pessoa incluiu no facebook. Mas confesso que meu prazer é bem maior quando reencontro alguém que não via há muito tempo ou que por circunstâncias da vida não tenho tempo de encontrar com mais freqüência e cuja conversa sempre me divertiu.

Enfim, de qualquer maneira, com mais de 450 amigos, eu acho que está de bom tamanho. Não chego ao extremo de dizer que já conheço muita gente e não quero conhecer mais. Até porque muitos dos amigos e parentes de minha lista figuram lá apenas na foto, sem quase aparecerem na conversa.

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