Ontem me ligou uma senhora perguntando se eu tinha o contato de Hilda Machado. Queria informações sobre a pesquisa que Hilda realizou para seu livro sobre Laurinda Santos Lobo pois viu que a orelha daquele livro, publicado em 2002, é assinada por mim. O livro é muito bom e eu, que só conhecia a Hilda de vê-la toda animada no Bloco das Carmelitas em Santa Tereza, fiquei muito surpreendida quando o pessoal da editora me pediu para apresentar o livro. Muito bem escrito, baseado em excelente pesquisa, o livro de Hilda acompanha a história de Santa Teresa desde a criação do convento das carmelitas, ali estabelecidas no tempo dos vice-reis, até à nossa Belle Époque em que Laurinda e seu salão representavam o que havia de mais culto, sofisticado e elegante no Rio de Janeiro.
Depois dessa aproximação intelectual, eu e Hilda perdemos contato e só nos víamos casualmente pelas ruas de Santa. Até ontem tudo que eu sabia dela era que era muito simpática, um pouco louca e que fizera um livro ótimo sobre o bairro em que morava. Daí que veio me despertar o telefonema dessa senhora. Como não existe ainda o serviço de utilidade pública “disque-morreu”, proposto por minhas irreverentes amigas Bárbara Harrington e Mathilda Kovak para saber se alguém que não se tem notícias há muito tempo, já partiu desta para a melhor, fui ao Google.
Nunca imaginei que pudesse ser o caso de Hilda que tinha apenas três anos a mais que eu, mas era. Hilda morreu em agosto de 2007 e além de ter feito o livro sobre Laurinda, sua tese de doutorado, fez um monte de outras coisas interessantes. Era paulista, ao contrário do que eu pensava pois sua ligação com Santa Teresa me parecera tão visceral que eu jamais imaginei que não tivesse deixado ali o umbigo. Presa em 1978 ainda em Sampa por suas atividades políticas, formou-se depois em artes pela USP e doutorou-se pela UFF, em Niterói, universidade da qual era professora do curso de Cinema. E parece que boa pois há muitas referências a ela na internet. Mas a informação que mais me agradou foi a que encontrei em um site:
http://revistamododeusar.blogspot.com
Ali, Ricardo Domeneck ressalta o talento da poeta que Hilda era e eu não sabia. Poeta de rara sensibilidade como se pode constatar neste Miscasting, poema que mostra o quanto o jogo do amor na grande cidade pode ser cruel e devastador para almas femininas modernas e aparentemente imunes a seus sortilégios. Incluo-o aqui como homenagem derradeira a essa pessoa tão interessante que foi Hilda Machado.
Miscasting
“So you think salvation lies in pretending?”
Paul Bowles
estou entregando o cargo
onde é que assino
retorno outros pertences
um pavilhão em ruínas
o glorioso crepúsculo na praia
e a personagem de mulher
mais Julieta que Justine
adeus ardor
adeus afrontas
estou entregando o cargo
onde é que assino
há 77 dias deixei na portaria
o remo de cativo nas galés de Argélia
uma garrafa de vodka vazia
cinco meses de luxúria
despido o luto
na esquina
um ovo
feliz ano novo
bem vindo outro
como é que abre esse champanhe
como se ri
mas o cavaleiro de espadas voltou a galope
armou a sua armadilha
cisco no olho da caolha
a sua vitória de Pirro
cidades fortificadas
mil torres
escaladas por memórias inimigas
eu, a amada
eu, a sábia
eu, a traída
agora finalmente estou renunciando ao pacto
rasgo o contrato
devolvo a fita
me vendeu gato por lebre
paródia por filme francês
a atriz coadjuvante é uma canastra
a cena da queda é o mesmo castelo de cartas
o herói chega dizendo ter perdido a chave
a barba de mais de três dias
vim devolver o homem
assino onde
o peito desse cavaleiro não é de aço
sua armadura é um galão de tinta inútil
similar paraguaio
fraco abusado
soufflé falhado e palavra fútil
seu peito de cavalheiro
é porta sem campainha
telefone que não responde
só tropeça em velhos recados
positivo
câmbio
não adianta insistir
onde não há ninguém em casa
os joelhos ainda esfolados
lambendo os dedos
procuro por compressas frias
oh céu brilhante do exílio
que terra
que tribo
produziu o teatrinho Troll colado à minha boca
onde é que fica essa tomada
onde desliga
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