O Inspetor Maigret (18/12/10)

“Todos os dias leio até me arderem os olhos o livro de Cesário Verde”.

É um verso do Fernando Pessoa que uma amiga do tempo do colégio das Dorotéias, Filomena Pinheiro gostava de declamar. Aliás, pensando bem, a Mena, como a chamávamos, era uma menina muito culta e madura para a nossa idade. Creio que tínhamos entre 14 e 15 anos quando nos encontramos. Ela sabia vários poemas do Pessoa e, acompanhada nas cordas pelo irmão, Zé Pinheiro, cantava as músicas do Milton Nascimento para a gente. Lembro bem do clima de despedida quando o pai dela foi transferido pela Shell de Fortaleza de volta para a terra deles, Belém do Pará. A gente lá no terraço da nossa casa da Piedade cantando “sei que nada será como antes...” A gente, vírgula, a Mena e o Zé, afinadíssimos, cantando e eu desafinando. Naquele tempo, sem consciência. Precisei de quase 40 anos para ouvir um amigo dizer que eu era daquelas pessoas desafinadas que cantavam crente que estavam cantando bem.

Mas a lembrança desse tempo feliz e desses amigos queridos me ocorreu por causa do verso do Pessoa sobre Cesário Verde, do qual tenho em casa uma pequena antologia. Não me lembro se a li. Minha biblioteca de poesia é modesta pois como já disse, sou mais de prosa do que de verso e a poesia a que me afeiçôo ou pela qual me encanto é aquela que, de vez em quando, me cai diante dos olhos ou me chega aos ouvidos como os versos de Fernando Pessoa que a Mena declamava.

E esse verso do Pessoa me veio à mente por conta de leitura bem diversa da poesia. É que eu, todos os dias leio até me arderem os olhos as aventuras do Inspetor Maigret, de George Simenon.

Claro que já tinha lido antes muitas delas em tradução para o português. Retomei durante o curso que fiz na Aliança Francesa antes de vir para Paris. Era para melhorar o francês. Já em Paris, quase todos os dias passo em frente a um sebo com grandes caixas de livros na calçada a 1 euro. Comecei comprado alguns avulsos até me decidir por comprar a coleção completa.

Nem sempre as tramas não são muito bem elaboradas. O que as torna sempre interessantes é clima que o autor dá à narrativa. Os personagens são densos, bem construídos e, dentre eles, o mais apaixonante é o Inspetor Maigret. Uma série que vi na TV5 o apresenta vivido por um ator, Bruno Crémer, que ficou para sempre na minha imaginação com a cara do Inspetor Maigret.

Mas é a personalidade do inspetor, seus sentimentos, suas irritações e seus complexos que o tornam tão próximo do leitor. E também sua vida de classe média com o dinheiro contado; o apartamento modesto; a aposentadoria na pequena casa de campo comprada com as economias reunidas a custo. Mesmo em seu emprego na polícia Maigret, apesar de célebre, ocupa cargo intermediário e tem que sempre apresentar seus relatórios a um superior, juiz ou procurador. A relação com os investigadores subordinados a que chama “mes enfants”, mesmo quando são quase da sua idade e as situações ambíguas com as mulheres e sua relação com Mme Maigret.

Madame Maigret, aliás, merece um estudo à parte. Pois se é um tanto amélia, até um tanto simplória, sempre esperando o marido com o almoço pronto, mesmo quando ele não vem, é muito confiante e pouco se importa com a possibilidade de alguma escapadela do marido. Até agora não aconteceu nenhuma. Nem acho que vá acontecer. No entanto, a descrição pelo narrador detalhada de aspectos físicos de alguns personagens femininos, acentuando-se o fato de serem ou não desejáveis, trai o desejo do próprio Maigret. Que, no entanto, se conserva fiel a Mme Maigret. São muitas as situações em que a testemunha, em ambiente de intimidade e em trajes que deixam à mostra partes do corpo, se insinua para o inspetor. Ele registra o impacto mas não cede. E, em geral, termina a investigação em algum programa prosaico junto com Mme Maigret, indo ao cinema ou viajando para um pequeno hotel no interior.

Um aspecto interessante de Mme Maigret é o fato de que, em várias ocasiões, ela é confundida com uma criada do marido. Seu físico não é descrito – sabe-se que é um pouco gordinha - apenas os seus vestidos e a modéstia de sua aparência faz com que, mesmo bem vestida não ouse entrar nas lojas mais sofisticadas de Paris.

Enfim. Maigret segue aqui me fazendo companhia e é realmente ótimo para melhorar o conhecimento do francês coloquial. São muito os livros e não creio que lerei todos até voltar. Mas já imagino que quando esse dia chegar, a imensa saudade que vou sentir do meu inspetor Maigret.

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