Mulheres de fibra (29/5/10)

Fátima Lúcia, amiga do tempo das Dorotéias me mandou convite para a homenagem que a Assembléia Legislativa do Ceará faz à sua mãe, Dolores Feitosa no próximo dia 10 de junho. Dia que é, aliás, a véspera do aniversário de sua xará, minha mãe, Dolores Lustosa.

Dolores não é um nome comum e quando esperava meu filho, Chico, na hipótese de que nascesse uma menina pensei em chamá-la Dolores. Ha 21 anos atrás ninguém achou muita graça. Mas também não acharam engraçado meu filho receber o nome de Francisco Bento. Só bem depois é que os Franciscos e os Bentos viraram nomes da moda.

Dolores não, nunca voltou à moda. Mas bem que merecia. É nome forte, com certa carga dramática e creio, que na Espanha continua sendo muito usado. As provocantes Lolas dos filmes são, na origem, Dolores. Mas lá, Dolores é também nome de mulher valente, Dolores Ibárruri, la Pasionaria, líder comunista que lutou contra a ditadura de Franco.

É engraçada a relação que a gente tem com os pais dos amigos de infância e adolescência. Eles são entidades neutras, pais e mães, simplesmente e a gente não pensa neles como pessoas fazendo outras coisas além de serem pais e mães de nossos amigos.

Era assim que eu via Dolores Feitosa naquele tempo. E a personalidade forte ligada à Fátima Lúcia para mim era a sua terrível tia, Madre Andrade, diretora do colégio das Dorotéias que morreu no ano passado. Implacável em fazer cumpir a disciplina, a Madre Andrade estava sempre atenta ao comprimento das saias, à cor do esmalte das unhas e à nossa boa apresentação na cerimônias da escola. Vendo as fotos da mocidade de Tia Judith, como a Fátima a chamava, percebo como era uma mulher bonita e como deve ter sido uma pessoa interessante. Pois para a gente, as freiras, assim como os pais eram entidades neutras.

Recentemente vi um programa na TV sobre Dolores Feitosa. Eu conhecia, através do que me contava a Clélia, o trabalho precursor que ela e o marido, Joaquim Feitosa desenvolviam em defesa do patrimônio natural cearense. Foram ecologistas antes da palavra entrar na moda. No entanto o que me impressionou na entrevista de Dolores, foi a inteligência, a jovialidade e o discurso bem articulado e honesto. O projeto de vida e de trabalho que sobreviveu à morte de Joaquim e que fez Dolores Feitosa se destacar com luz própria no cenário das questões ambientais do Ceará.

Mas para mim, por conta da História, mais interessante do que sua dedicação à questão ambiental, é o trabalho que vem desenvolvendo em Tauá, com o Museu dos Inhamuns, ligado à fundação Bernardo Feitosa. Não só pela preservação da memória do Ceará sertanejo mas também pela história dos Feitosa, família cuja presença naquela área se perde no tempo. É muito interessante pensar na história de um Ceará enraizado no sertão e que pouco tem a ver com Fortaleza e em uma família cuja presença no Ceará remonta à primeira década do século XVIII.

A história dos Feitosa, fornece elementos para pensar também as tradições guerreiras do Nordeste, as disputas entre famílias e o próprio cangaço. Pois Billy Jaynes Chandler que a estudou, supõe que Lampião era descendente por parte de pai, dos Feitosas, dos Inhamuns. Enfim, é um patrimônio histórico fabuloso e que merecia um profundo investimento em pesquisa e conservação.

Procurando por Dolores Feitosa no Google, achei entrevistas, participações em seminários e até mesmo no Senado Federal. Todas depois dos oitenta anos, depois da morte de Joaquim. Em todas as suas ações impressiona a determinação, a garra, o empenho com que se dedica a trabalhar, enquanto tiver forças, para que os Inhamuns, sua história e seu patrimônio sejam conhecidos e preservados. Em dezembro de 2005, arrancou aplausos das 2000 pessoas que a ouviam quando lembrou que a questão ambiental está diretamente ligada à necessidade de alimento para o povo. Que não só as instâncias governamentais mas também os atores endógenos – nossa consciência, nossa vontade devem ser trabalhados para que, juntos sejamos todos artífices de um Brasil melhor.

Dêem às suas filhas o nome de Dolores. Quem sabe elas serão também mulheres de fibra como minha mãe e a mãe da Fátima Lúcia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário