Pense num abestado... (22/1/11)

Mario Bag adora essa expressão. De vez em quando me manda alguma coisa engraçada e inclui a legenda "pense num abestado". Claro que sendo carioca da gema e essencialmente tijucano não cresceu falando "abestado". Mas afeiçoou-se tanto ao modo de falar nordestino que ficou indignado quando descobriu que a forma: "abestado" não constava do Aurélio. Aparecia "abestalhado" e outras variações. Mas o autêntico "abestado" que passei a vida inteira dizendo não estava lá. Isto faz tempo. Pode ser que nas novas edições tenham incluído.

No entanto, a outra parte da expressão: "pense num..." essa não era usada no tempo que eu vivia em Fortaleza. Até o final dos anos 1970, não me lembro de ninguém usando essa expressão tão sintética e, ao mesmo tempo, tão abrangente. Em sua essência ela quer dizer: "Pense na coisa mais extraordinária associada a essa idéia", pois tal situação, ou tal pessoa conseguiu bater aquele recorde.

No começo eu implicava com o "pense em..." que achava invenção, novidade da qual eu não tinha participado. Mas hoje vejo com simpatia. Não só por causa do Bag, mas também porque é uma coisa cearense, tipicamente cearense e que surgiu há menos de 30 anos.

Claro que para o meu filho de 22, isto é a pré-história, mas para mim, do tempo em que a gente dizia merendar, em vez de lanchar; mangar em vez de zombar; cruzeta em vez de cabide; gigolete em vez de arquinho... enfim, para nós que ainda não tínhamos sido globalizados, o fato de uma expressão nascer fora do circuito da televisão e do sul-maravilha, é um verdadeiro fenômeno de resistência cultural.

Quando eu era criança a gente chamava os amigos dizendo: "rambora, negrada". Hoje é considerado politicamente incorreto mas no meu tempo era apenas um chamado aos companheiros e o "negrada", é claro, incluía quem estava chamando.

Outra expressão que eu gosto é: "nem escuto a zoada da mutuca". Outro dia me ocorreu dizer só dizer de brincadeira, meio por folclore. Mas é uma expressão ótima. A gente diz quando uma pessoa fica nos provocando, falando coisas desagradáveis... enfim. Acho que é bom para ocasiões em que a gente não deve aceitar provocações e, aí, para não ouvir as tais provocações, cruza os braços e fica repetindo o mantra: "nem escuto a zoada da mutuca".

Mais manjada mas que gosto de contar aos amigos do Rio é o "não morreu galego não" usado para dispersar ajuntamentos de curiosos. É interessante pois, eu acho, tem a ver com a antiga configuração da sociedade cearense. Uma sociedade onde os galegos (estrangeiros brancos) eram poucos. Daí que fosse natural que muita gente acorresse quando se soubesse que morreu um "galego".

Uma vez vi, em Fortaleza, um desses programas policiais que passam na televisão, o repórter perguntar a um sujeito que tinha sido preso por vender maconha na Barra do Ceará. O repórter perguntou se era difícil praticar esse comércio naquele bairro e o rapaz respondeu com bastante simplicidade: "é não. É bem rasinho."

Bem rasinho. Quer dizer: bem facinho. Mas quer dizer também que não dá para o sujeito se afogar. É coisa que o sujeito faz brincando, pois não tem perigo nenhum. Ou, pelo menos, parecia não ter.

Foi nos programas policiais também, eu acho que pegou a expressão "botando boneco". Esta, ao que parece, saiu de moda mas, ela me veio à lembrança por conta desse interessante fenômeno que é a força das expressões surgidas no contexto de uma cultura marginal e ilegal.

Foi no ambiente do tráfico do Rio de Janeiro que surgiram e se fixaram o "tá limpo" ou o "sujou" para se referir à chegada da policia e, por extensão, de qualquer autoridade com potencial repressor.

Um amigo alemão achou muita graça quando lhe contei que quando a polícia chegava em alguns morros do Rio, os informantes do tráfico diziam que os "alemão" estavam na área. "Os alemão" era referencia aos alemães dos filmes americanos e do pavor que espalhavam nos momentos mais fortes da ação.

Essas coisas surgem assim, do nada. Da cabeça inteligente de algum menino que, se não fossem as circunstancias da vida, talvez, em vez de chefe do tráfico, tivesse ido liderar uma equipe de engenheiros, de jornalistas ou de atletas. Gente que ficou pelo meio do caminho e cujo legado anônimo pertence hoje à cultura popular.

Legado que merecia ser catalogado e preservado como o único patrimônio cultural produzido por mais de uma geração de jovens que foi perdida para o crime. Patrimônio de uma juventude que, se cultivada por melhor escola e por melhores condições de vida, poderia ter contribuído ainda mais para enriquecer a cultura e a língua brasileira.

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